domingo, 13 de janeiro de 2019

O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, 2000)



O primeiro filme do Ang Lee que vi foi Taking Woodstock (Aconteceu em Woodstock). Na época, eu, fã do movimento hippie, achei uma ideia da hora, mostrar os bastidores daquele que foi meu festival favorito, símbolo de uma viagem muito particular que carrego no peito até hoje (porém, seguindo outro caminho).

Mesmo prestando mais atenção aos sons e às cores que a própria história do filme, não pude deixar de perceber a delicadeza com que aquele diretor tratava diversas questões ali; questões que a gente sequer para pra pensar. Tudo no filme é belo, e o melhor, com diversos níveis de reflexão, capazes de atingir e satisfazer todo tipo de público. 

Logo depois vi o Brokeback Mountain, um filme mais ousado, polêmico, cujo peso das "energias" dos personagens contrasta com a delicadeza e maestria com que a trama é conduzida. Hoje, 18 anos após seu laçamento, assisti O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, 2000). Mais uma obra simples, delicada, e de uma riqueza visual tremenda. 

Escrevo esse texto só pra ressaltar o que percebo como perfeição no trabalho do Ang Lee. Por mais que não sejam tramas de nos virar pelo nossa moral pelo avesso, como faz o Lars von Trier, Ang Lee nos presenteia com o detalhe, a sutileza, a leveza, e a beleza. Tudo muito "espiritual".

Nenhum olhar é desperdiçado. Nenhum frame é gasto a toa ou omitido. A sensação é de estar em um tapete mágico de emoções, cores e movimentos - as lutas de espadas e corporais nesse filme (assim como em outros, acredito) fazem a gente entender o termo "artes marciais". As lutas são verdadeiros balés protagonizados pelos atores. Nada é feito em demasia aqui, não há exageros. Os diálogos são pontuais e certeiros, assim como as atuações; algo que é perceptível em outros filmes do Ang Lee.

Há uma espécie de licença poética justificada no filme - o fato dos guerreiros "voarem", ou partilharem uma técnica especial que deixa os corpos extremamente leves, cortesia das tradições marciais e espirituais milenares do oriente. Essa deixa é que possibilita muitos dos arroubos visuais do filme (a cena da batalha na copa das árvores me pareceu poesia pura, assim como a cena da trip de ácido na kombi no Taking Woodstock). 

Outro detalhe no filme são as mulheres. Se passando em uma cultura reconhecidamente patriarcal - logo, machista, o filme divide nossa atenção entre três grandes mulheres, valorosas, independentes, sensíveis e em busca de algo mais, cada uma à sua maneira. Pra quem é desses que adora premiações, o filme recebeu muitas, então pode ir sem medo se sua referência for essa. De minha parte, percebo que a librianice e a lua em Virgem do Ang Lee explicam toda a perfeição, beleza e respeito que vi na tela.


Trailer:

domingo, 6 de janeiro de 2019

pensando sobre amor com Kenshin, o andarilho


Eu pensei em começar o blog com um texto falando sobre o The Lobster, filme do Yorgo Lanthimos, que talvez seja a obra recente que melhor trata do quão incompreensível está se tornando o mundo das relações interpessoais para as gerações atuais e vindouras. Trata-se de uma visão que vai ao extremo do que nosso egoísmo e medo do amor (de doar) pode levar a sociedade (o ser humano) a se tornar. Invés disso, resolvi falar sobre o Kenshi Himura, ou Hitokiri Battosai, ou nosso boa praça Samurai X! Pra quem não sabe, Samurai X é uma série (anime) que nasceu de um mangá, e conta a história do Kenshi, o Andarilho. O objetivo da caminhada do espadachim é a expiação pelas "inúmeras mortes que causara durante o Bakumatsu (fim do bakufu/shogunato) quando era um hitokiri (assassino retalhador) a serviço da Ishin Shishi (monarquistas que desejavam a restauração do governo para as mãos do imperador) do feudo de Choushuu". (Wikipedia)

Nas palavras de Kenshin, o que ele quer agora é "usar a espada para ajudar as pessoas". E é isso que ele faz. Eu tava prestando atenção nos episódios que assisti hoje e percebi como Kenshi é genuínamente bondoso - e como fica claro aqui, abondade é uma opção. É alguém que viveu, um ex-assassino (matou muitos em guerras civis) cuja fé na política dos homens se perdeu, e entendeu que não é na base da espada que se planta o bem na humanidade, e sim com o amor. Fiel ao seu ideal, se desvinculou da sociedade e seguiu como andarilho.

Kenshin não usa seu poder (sua força, sua habilidade) para subjugar as pessoas, e sim para ajudá-las. Seu otimismo, boa vontade, senso de justiça e sinceridade de suas palavras (aliadas às suas habilidades como mestre espadachim), faz com que seja amado por todos que o rodeiam; amor que é a fonte inspiradora para todos que faz com que cada um ali manifeste o seu melhor. 

Kenshin tem um espírito brincalhão e amoroso, mas sem ser um pateta. Ele também sabe falar serio. E bem sério. Com a mente limpa e atenta, é o primeiro a perceber o perigo e a sua capacidade de raciocínio salva a todos em todas as situações de perigo ou dúvida. Sua habilidade com a espada (uma espada que, pelo que entendi, nem é do melhor tipo), é absolutamente artística, baseada em grandes estilos e mestres de outras épocas (cujas referências não sei fazer aqui), que o tornam respeitadíssimo até entre os inimigos mais cruéis.

O amor que Kenshin espalha não possui, domina ou impõe. Ele dá o melhor de si (quer ajudar as pessoas) e recebe de volta tudo que espalha, seja como amor (quase devocional), pela parte de seus companheiros, seja como respeito pela parte de seus adversários.

É esse tipo de amor que a sociedade representada no The Lobster não entendeu. O amor, ao se tornar uma convenção, perde a espontaneidade, e se torna tudo que ele não é. O amor é, antes de tudo, pelo menos uma tentativa genuína de compreensão do outro - e do outro, se estendendo à todos; o amor universal. Ao tentarmos nos impor ao outro, não estamos amando. Ao nos isolarmos em nós mesmos, não estamos amando.

Mas nessa parte do texto, comecei a pensar e resolvi que não quero falar de amor. Amor não se discute (ao contrário de política, religião e briga de marido e mulher). Se for possível, assistam o anime. E o The Lobster. Com muita atenção as personagens. Todos vão entender o que eu quis dizer até aqui.




Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...