O primeiro filme do Ang Lee que vi foi Taking Woodstock (Aconteceu em Woodstock). Na época, eu, fã do movimento hippie, achei uma ideia da hora, mostrar os bastidores daquele que foi meu festival favorito, símbolo de uma viagem muito particular que carrego no peito até hoje (porém, seguindo outro caminho).
Mesmo prestando mais atenção aos sons e às cores que a própria história do filme, não pude deixar de perceber a delicadeza com que aquele diretor tratava diversas questões ali; questões que a gente sequer para pra pensar. Tudo no filme é belo, e o melhor, com diversos níveis de reflexão, capazes de atingir e satisfazer todo tipo de público.
Logo depois vi o Brokeback Mountain, um filme mais ousado, polêmico, cujo peso das "energias" dos personagens contrasta com a delicadeza e maestria com que a trama é conduzida. Hoje, 18 anos após seu laçamento, assisti O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, 2000). Mais uma obra simples, delicada, e de uma riqueza visual tremenda.
Escrevo esse texto só pra ressaltar o que percebo como perfeição no trabalho do Ang Lee. Por mais que não sejam tramas de nos virar pelo nossa moral pelo avesso, como faz o Lars von Trier, Ang Lee nos presenteia com o detalhe, a sutileza, a leveza, e a beleza. Tudo muito "espiritual".
Nenhum olhar é desperdiçado. Nenhum frame é gasto a toa ou omitido. A sensação é de estar em um tapete mágico de emoções, cores e movimentos - as lutas de espadas e corporais nesse filme (assim como em outros, acredito) fazem a gente entender o termo "artes marciais". As lutas são verdadeiros balés protagonizados pelos atores. Nada é feito em demasia aqui, não há exageros. Os diálogos são pontuais e certeiros, assim como as atuações; algo que é perceptível em outros filmes do Ang Lee.
Há uma espécie de licença poética justificada no filme - o fato dos guerreiros "voarem", ou partilharem uma técnica especial que deixa os corpos extremamente leves, cortesia das tradições marciais e espirituais milenares do oriente. Essa deixa é que possibilita muitos dos arroubos visuais do filme (a cena da batalha na copa das árvores me pareceu poesia pura, assim como a cena da trip de ácido na kombi no Taking Woodstock).
Outro detalhe no filme são as mulheres. Se passando em uma cultura reconhecidamente patriarcal - logo, machista, o filme divide nossa atenção entre três grandes mulheres, valorosas, independentes, sensíveis e em busca de algo mais, cada uma à sua maneira. Pra quem é desses que adora premiações, o filme recebeu muitas, então pode ir sem medo se sua referência for essa. De minha parte, percebo que a librianice e a lua em Virgem do Ang Lee explicam toda a perfeição, beleza e respeito que vi na tela.
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