Enquanto trama inspirada num true crime clássico e referência para muitos produtos do gênero slasher que surgiriam a partir dali (inclusive sendo uma referência direta para o Sexta-feira 13 Part II), Pânico ao Anoitecer me faz pensar em como figuras tipo o "phanton killer" se tornaram tão populares a ponto de serem elevadas à categoria de ícones pop da década seguinte em diante, principalmente na seara do cinema de terror estadunidense. É lógico perceber o cinema como uma representação da vida, e obviamente, o serial killer é um dos muitos subprodutos adoecidos daquela sociedade; subprodutos estes que, naqueles idos da década de 1970, não eram novos e tampouco raros.
Para se ter uma ideia, em 1976, ano de lançamento do filme, o mundo ainda acompanhava a saga do dissimulado Ted Bundy pela TV. Entre fugas, prisões, e dezenas de assassinatos nas costas, Bundy aos poucos era transformado pela mídia de principal suspeito de crimes brutais em um popstar, com todos os viéses que a fama proporciona - inclusive a admiração de fãs. E esse foi só o caso que ganhou mais exposição. Na mesma época, BTK e o assassino do Rio Green, só pra citar outros dois famosos estadunidenses, também estavam em evidência, em plena atividade e presentes nos noticiários, tornando esse terror tão real mais e mais próximo da vida das pessoas.
Não que os serial killers sejam uma exclusividade dos Estados Unidos, mas quando paramos para analisar a psicologia "geral" desse tipo de criminoso a partir da literatura especializada, há sempre boas doses de preconceitos, repressão e disfunção social por trás. E em lugares como os EUA, onde preconceitos são, não apenas estimulados, mas também formam as bases ideológicas de boa porcentagem da população (que tem uma relação quase sexual com a posse de armas de fogo ao passo que reprimem o afeto), além da repressão estimulada contra tudo que é considerado diferente do padrão autoimposto por eles, comportamento esse que estimula guerras e o medo social, o terreno para o surgimento destes tipos parece ser fértil. Botem na conta do Mal, mas o buraco sempre aparece mais embaixo.
E mais, a curiosidade mórbida que esse tipo de personagem gera, principalmente devido a atenção midiática que recebem, é mais um elemento dessa "fascinação", inclusive pelos mistérios envolvendo sua psicologia, que os coloca em um patamar além de nós, humanos socialmente inclinados, e os eleva (ou isola) a status difíceis de compreender (afinal, nada justifica alguém como Suzane Richtofen ter se tornado alguém que dá autógrafos atualmente, ou seja, ter sua base de fãs).
O assassino em questão, por sua vez, não é imortal, como seus discípulos do cinema. É esperto, mais falha. É humano até demais, e teve muita sorte durante todo seu período de atuação - interrompido pela ação da Polícia. O modus operandi do psicopata é típico desse tipo de criminoso, totalmente racional e incompreensível. As direções que a psicologia e as investigações apontam não garantem nenhuma evidência física consistente, tornando o mistério ainda mais indecifrável. As cenas de caça (pois ele é um caçador) são tensas, violentas, e mesmo que tenhamos a oportunidade de observar todos os seus passos e os botes sobre as vítimas a partir do seu ponto de vista, ainda assim somos contaminados pelo pavor sentido pelas vítimas, de tão simples e crua que é a sua abordagem.
Achei a resolução desse filme/série de crimes particularmente assustadora - e muito devido a direção, que torna a sequencia final impactante: o assassino é ferido a distância, escapa e suspende sua matança. Não é identificado. Não se tem mais notícias dele ou de seus crimes, e possivelmente ele passou o resto de sua vida escondido sob o disfarce mais perfeito de todos, o de um cidadão comum.
Tá disponível no Darkflix.
Nota: 4,2/5
Título original: The Town that dreaded the sundown
Ano de lançamento: 1976
País: Estados Unidos
Direção: Charles B. Pierce
Roteiro: Earl E. Smith
Produção: Charles B. Pierce, Samuel Z. Arkoff
Elenco: Andrew Prine, Dawn Wells, Ben Johnson



