segunda-feira, 28 de junho de 2021

Pânico ao Anoitecer (Charles B. Pearce, 1976): um mal presságio.


Nossa, esse filme eu adiei por anos, e como escolha despretenciosa para ver num domingo a tarde, me deixou um pouco passado. Trata-se de um filme de serial killer, daqueles mais sérios, pois foi lançado numa época em que assassinos seriais sobrenaturais que não morrem ainda não eram tão comuns no cinema. Isso porque Pânico ao Anoitecer trata de um assassino real, subproduto da doença social capitalista e imperialista estadunidense. O "phanton ghost", como ficou mais conhecido, assombrou a cidade Texarkana (Arkansas) por alguns meses durante o ano de 1946, e marcou definitivamente a vida de muitas pessoas dali.

Enquanto trama inspirada num true crime clássico e referência para muitos produtos do gênero slasher que surgiriam a partir dali (inclusive sendo uma referência direta para o Sexta-feira 13 Part II), Pânico ao Anoitecer me faz pensar em como figuras tipo o "phanton killer" se tornaram tão populares a ponto de serem elevadas à categoria de ícones pop da década seguinte em diante, principalmente na seara do cinema de terror estadunidense. É lógico  perceber o cinema como uma representação da vida, e obviamente, o serial killer é um dos muitos subprodutos adoecidos daquela sociedade; subprodutos estes que, naqueles idos da década de 1970, não eram novos e tampouco raros.

Para se ter uma ideia, em 1976, ano de lançamento do filme, o mundo ainda acompanhava a saga do dissimulado Ted Bundy pela TV. Entre fugas, prisões, e dezenas de assassinatos nas costas, Bundy aos poucos era transformado pela mídia de principal suspeito de crimes brutais em um popstar, com todos os viéses que a fama proporciona - inclusive a admiração de fãs. E esse foi só o caso que ganhou mais exposição. Na mesma época, BTK e o assassino do Rio Green, só pra citar outros dois famosos estadunidenses, também estavam em evidência, em plena atividade e presentes nos noticiários, tornando esse terror tão real mais e mais próximo da vida das pessoas. 

Não que os serial killers sejam uma exclusividade dos Estados Unidos, mas quando paramos para analisar a psicologia "geral" desse tipo de criminoso a partir da literatura especializada, há sempre boas doses de preconceitos, repressão e disfunção social por trás. E em lugares como os EUA, onde preconceitos são, não apenas estimulados, mas também formam as bases ideológicas de boa porcentagem da população (que tem uma relação quase sexual com a posse de armas de fogo ao passo que reprimem o afeto), além da repressão estimulada contra tudo que é  considerado diferente do padrão autoimposto por eles, comportamento esse que estimula guerras e o medo social, o terreno para o surgimento destes tipos parece ser fértil. Botem na conta do Mal, mas o buraco sempre aparece mais embaixo.

E mais, a curiosidade mórbida que esse tipo de personagem gera, principalmente devido a atenção midiática que recebem, é mais um elemento dessa "fascinação", inclusive pelos mistérios envolvendo sua psicologia, que os coloca em um patamar além de nós, humanos socialmente inclinados, e os eleva (ou isola) a status difíceis de compreender (afinal, nada justifica alguém como Suzane Richtofen ter se tornado alguém que dá autógrafos atualmente, ou seja, ter sua base de fãs). 


Sobre o Pânico ao Anoitecer, o que mais me chama atenção nesse filme foi o tom sério da produção, desde o início. A condução da trama nos leva junto no passo a passo investigativo da Polícia de Texarkana e de seus habitantes - uma cidade tão pequena que um evento isolado como um crime gera muito burburinho e pânico entre os habitantes. 

O assassino em questão, por sua vez, não é imortal, como seus discípulos do cinema. É esperto, mais falha. É humano até demais, e teve muita sorte durante todo seu período de atuação - interrompido pela ação da Polícia. O modus operandi do psicopata é típico desse tipo de criminoso, totalmente racional e incompreensível. As direções que a psicologia e as investigações apontam não garantem nenhuma evidência física consistente, tornando o mistério ainda mais indecifrável. As cenas de caça (pois ele é um caçador) são tensas, violentas, e mesmo que tenhamos a oportunidade de observar todos os seus passos e os botes sobre as vítimas a partir do seu ponto de vista, ainda assim somos contaminados pelo pavor sentido pelas vítimas, de tão simples e crua que é a sua abordagem.

Achei a resolução desse filme/série de crimes particularmente assustadora - e muito devido a direção, que torna a sequencia  final impactante: o assassino é ferido a distância, escapa e suspende sua matança. Não é identificado. Não se tem mais notícias dele ou de seus crimes, e possivelmente ele passou o resto de sua vida escondido sob o disfarce mais perfeito de todos, o de um cidadão comum.

Tá disponível no Darkflix.

Nota: 4,2/5



Ficha Técnica

Título original:
The Town that dreaded the sundown
Ano de lançamento: 1976
País: Estados Unidos
Direção: Charles B. Pierce
Roteiro: Earl E. Smith
Produção: Charles B. Pierce, Samuel Z. Arkoff
Elenco: Andrew Prine, Dawn Wells, Ben Johnson

 

TRAILER

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