sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Alice Cooper - Pretties for You (1969): algumas lindezas pra nós.


Em 1969, em meio ao bombardeio de novas bandas debutando e o hard rock setentista ascendendo e tomando lugar da moda musical psicodélica na cultura pop, foi lançado o Pretties for You, estreia do extravagante Alice Cooper group, banda liderada pelo também extravagante Alice Cooper, codinome do sensacional Vincent Furnier. 

Pretties for You é um trabalho interessante, bem diferente e até distante musicalmente da estética que tornaria o Alice Cooper conhecido na década seguinte. Aqui, o hard rock criativo e estiloso que marcou o estrelato do grupo ainda estava em fase de desenvolvimento. A banda ainda procurava sua própria personalidade, então muitas das “lindezas” compiladas pra nós nesse álbum ainda são marcadas por muitos sons que faziam a cabeça da juventude até 1969. 

É possível ouvir ecos sérios de Pink Floyd aqui, e de Country Joe & The Fish ali, Frank Zappa por toda parte, e além. Na verdade, a influência de Frank Zappa e do rock psicodélico de então parece o tempo todo querer atropelar a direção musical da banda, com todas as músicas ali sendo ótimas vitrines de possíveis jams que poderiam ser feitas ao vivo, bem à moda das bandas da época. Mas não sei se era pra tanto. 

As composições, todas autorais, são relativamente curtas, variando entre um e cinco minutos. Quando você ouve com a mente distraída, tudo parece até uma grande única música (eu até li em algum lugar alguém da época falando que todas as músicas parecem ter sido extraídas - ou de fato foram - de uma longa sessão de improviso tendo por base a música Levity Ball, mas não sei até onde isso é lenda. Ainda assim, é possível fazer alguns destaques. 

O lado B é todo interessante e vai mais na direção do que estamos acostumados do Alice. Uma curiosidade divertida é o single Reflected, uma primeira versão, mais crua, da música Elected, que sairia posteriormente no Billion Dollars Babies. Mas não só ela: Earwigs to Eternity, No Longer Umpire, a tal Levity Ball, Apple Bush, todas são bons rocks cabendo facilmente numa playlist de rocks aleatórios dos sixties. 

Já no lado A, algumas músicas introduzem outras e tudo se mistura, dando a sensação de ser tudo uma grande única música como eu mencionei antes. A pegada Zappa é mais forte nessa primeira parte. O destaque aqui vai pra boazuda Fields of Regrets, com muitos solos instrumentais, improvisos, ecos de Pink Floyd em muitos momentos, mas mais pesado e sujo. Essa pega pela levada rocker chapada que não deve em nada aos bons rocks da época, podendo garantir bons momentos heavy metal nas apresentações ao vivo. Sing Low, Sweet Cherio também tem pegada e as harmonias de Living lembram o The Who de 1966/1967.

Apesar da personalidade ainda em fase de definição, é importante salientar que a banda já era o que é ao vivo desde essa época. Talvez um pouco mais ensandecidos, algo desorganizados, mas o punch teatral já se fazia presente e de forma muito heavy metal, com as apresentações se tornando uma grande confusão (vou deixar um vídeo aqui de 1969 pra registro rssss). No futuro, as coisas se organizam, a bagunça teatralesca toma requintes "glam", o som se "enquadra", e o sucesso vem. Engraçado, isso me fez pensar sobre a necessidade de organização pra alçar voos mais altos. O limite que catapulta para a liberdade. Mas o desenrolar desse pensamento vai pro meu diário. Teh mais.


Tracklist
1. Titanic Overture
2. 10 Minutes Before the Worm
3. Sing Low, Sweet Cheerio
4. Today Mueller
5. Living
6. Fields of Regret
7. No Longer Umpire
8. Levity Ball
9. B. B. on Mars
10. Reflected
11. Apple Bush
12. Earwigs of Eternity
13. Changing Arranging


Alice Cooper Band Alice Cooper – lead vocals, harmonica Glen Buxton – lead guitar Michael Bruce – rhythm guitar, backing vocals and co-lead (3) vocals, keyboards Dennis Dunaway – bass guitar, backing vocals Neal Smith – drums, backing vocals





domingo, 22 de janeiro de 2023

KISS - Love Gun (1977): ápice!

Ontem eu me peguei ouvindo aquela trinca maravilhosa de albuns do Kiss lançado ali na metade da década de 1970: Destroyer, Rock n’ Roll Over e Love Gun. Parece ser uma unanimidade entre críticos e fãs que esses foram os discos que melhor capturaram a essência da banda naquele momento. O Kiss não começou como uma megabanda, apesar da imagem forte, e até chegar nesse momento, algo como o topo do mundo do rock n’ roll, houve muita batalha.

Do seu primeiro álbum, de 1974, até Love Gun, sexto trabalho inédito da banda, lançado em 1977, houve um crescendo em qualidade, com a banda finalmente desenvolvendo um som puro e totalmente seu, espontâneo e contagiante, sem deixar peso e qualidade de lado. Esse “ápice profissional” foi justamente Love Gun, que fechou a trinca junto com os dois álbuns anteriores responsáveis por catapultar o Kiss para o estrelato.

“Espontaneidade”, inclusive, é a palavra que melhor achei para definir o Love Gun, objeto desse texto. Produzido por Eddie Kramer, que trabalhou na produção dos Alives e do Rock n’ Roll Over, além de discos solos do Ace Frehley posteriormente, o disco é um dos melhores registros do rock mainstream dos Estados Unidos daquela época - um páreo pesado quando tinhamos bandas como Aerosmith, Alice Cooper Group e outras gravando seus melhores trabalhos no mesmo intervalo de tempo.

Todas as músicas do disco são maravilhosas e, devido à ausência de baladas, podem animar qualquer festinha rocker sem deixar a peteca cair, é só deixar a tracklist rolar. Mas impossível não destacar alguns sons, como a faixa de abertura, I Stole Your Love, uma das melhores aberturas da banda. 

O “lado B” do álbum é todo digno de atenção. Uma sequência capitaneada pela faixa título, Love Gun, e seguida pela descolada Hooligan, a diferente e viajante Almost Human (um dos pontos altos pra mim, com bases muito interessantes de acompanhar), a divertida e cativante Plaster Caster, inspirada na famosa groupie, encerrando com o deslocado mas não menos interessante cover das Crystals, Then She Kissed Me. 

As composições, pra variar, falam de mulheres, festas, paixões, algo de gosto duvidoso (Christine Sixteen não faz sentido nos dias de hoje, sendo uma letra que envelheceu muito mal, apesar da força de Eddie Van Halen na composição), mas os músicos vivenciam o que talvez sejam seu melhor momento enquanto artistas. Não há muito o que acrescentar sobre Love Gun que já não tenha por aí internet afora, com muito mais detalhe. É um disco daqueles “obrigatórios”, atemporais.


Tracklist

01. I Stole Your Love

02. Christine Sixteen

03. Got Love For Sale

04. Shock Me

05. Tomorrow And Tonight

06. Love Gun

07. Hooligan

08. Almost Human

09. Plaster Caster

10. Then She Kissed Me (The Crystals cover)


Paul Stanley (vocal em 1, 5, 6 e 10, guitarra, baixo em 6)

Gene Simmons (vocal em 2, 3, 8 e 9, baixo, guitarra base em 2, 8 e 9)

Ace Frehley (vocal em 4, guitarra solo)

Peter Criss (vocal em 7, bateria)





quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Rubber - O Pneu Assassino: "no reason, no reason..."


Para primeiro view de 2023, fiz uma escolha que pensei que seria divertida, mas que saiu um pouco mais excêntrica do que o esperado. Rubber, o Pneu Assassino (??!?!?!) poderia ser um daqueles charmosos filmes trashs da década de 1990, e certamente seus realizadores acharam que ele ocuparia essa “prateleira”, visto que a estética e fotografia propositalmente remetem a isso. Mas há algo… sei lá, difícil de explicar.

Rubber, um filme francês, na verdade, e tem uma história peculiar, para não dizer única, que aposta no nonsense tendo a comédia de terror como base. Apesar de termos cabeças explodindo aos montes, não podemos esperar aqui arcos criativos que bons filmes trash costumam ter. Tudo é meio sem lógica, e com o argumento (fraco) de que nos melhores filmes produzidos os enredos não tem razão de ser, Rubber, o pneu, se ergue, se desenvolve, se equilibra e guia esse festival de bizarrice de pouco mais de uma hora de duração.

Não que o filme não tenha bons momentos. É delicioso ver Rubber ganhando vida. Dando as primeiras … roladas? Ou rolando pela primeira vez (melhorou), e como todo serial killer que se preze, desenvolvendo a satisfação emocional em esmagar pequenos objetos: primeiro latas, depois pequenos animais… aquela garrafa de vidro foi um desafio, e explodir o primeiro coelho com a mente (??!?!?) foi de um êxtase insuperável. Dos coelhos para os seres humanos foi mera questão de tempo, bastava ele mirar numa primeira obsessão para a festa começar.  


Se o roteiro ficasse nas desventuras do pneu assassino, o filme seria até razoável, mas há um lance autoexplicativo envolvendo uma plateia que assiste as aventuras do Rubber de longe, como se fosse um filme, e é preciso que a plateia morra (?!?!?!) para o filme acabar (?!?!), e os personagens retomarem suas vidas, etc. Enfim, nonsense demais até pra mim que costumo ver sentido em quase tudo. 

O lance é que Rubber tem momentos bons, mas o nonsense exagerado, não sei nem dizer se pretensioso ou não, mas que somado à fotografia cool dos anos 90, figurino e locações (os desertos californianos), tornam esse numa pedida pra quem curte uma pegada mais indie, mas de antemão eu aviso: nada faz muito sentido, e a falta de sentido cansa. 

Título Original: Rubber
Ano: 2010
País: França
Direção: Quentin Dupieux
Roteiro: Quentin Dupieux
Elenco: Stephen Spinella, Roxane Mesquida, Jack Plotnick, Haley Ramm
Onde encontrar: Prime Video (canal Reserva Imovision), Torrent.

TRAILER

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