sexta-feira, 19 de maio de 2023

Medo em Cherry Falls (Geoffrey Wright, 2000): muito sensual, e melhor do que parece.

Que coisa inusitada de se conceber: um slasher adolescente, amplamente amparado nas ondas propagadas por Pânico (1996), que não só ironiza a regra típica do gênero, como a subverte, ainda mais que sua principal inspiração. Que tipo de possibilidades teríamos numa trama slasher onde, ao contrário do que temos nos clássicos, os virgens são os alvos do assassino misterioso, e a única possibilidade de salvação parece ser reverter esse quadro o quanto antes? Uma imagem caótica se forma na minha mente quando paro  pra pensar nas possibilidades, e é exatamente isso que o hoje saudoso Medo em Cherry Falls nos entrega.

Ainda lembro da época de seu lançamento e de quando a “fita” chegou nas locadoras, ali por volta de 2001. Medo em Cherry Falls era mais um filme lançado na onda de horror teen que tomou a virada dos anos 90 para os anos 2000, e se perdeu entre tantos nomes maiores (que se revelaram menores no teste do tempo) e sequencias mais esperadas. Nem aos cinemas chegou interinamente, sendo lançado direto no mercado de vídeo em muitos países. Uma pena, pois esse filme pode ser acusado de várias coisas - inclusive de transgressor, pelos mais conservadores, controverso, e sem dúvidas, polêmico -, menos de ser pouco original. 

A trama eu já joguei no primeiro parágrafo. Um assassino misterioso que mata adolescentes virgens de um determinada High School, na pequena e, creio, fictícia (porque não é possível....) Cherry Falls. Assim como em outros filmes, o serial killer não tem identificação e motivo aparente, se esconde por baixo de um visual intimidador e impactante (no caso, um traje rocker/gótico feminino e uma longa cabeleira desgrenhada cobrindo o rosto), e um grande mistério começa a se desvendar na tentativa de contê-lo. 

Apesar da violência moderada e do timing de comédia em determinadas situações, Medo em Cherry Falls não se perde na pasmaceira slasher típica, escondendo, por baixo, uma trama de vingança clássica, mas orientada por um appeal sexual, evidente desde o princípio, mas mais profundo do que imaginamos inicialmente. 

Até por que, tudo em Cherry Falls cheira a sexo. Os adolescentes não pensam em outra coisa, o que já é típico do gênero, mas a direção do filme parece querer reforçar esse apelo a todo momento nas interações entre os personagens, jogando a sugestão sexual no ar em todos os quadros. Seja de forma grosseira entre os adolescentes, seja de forma muito sutil e sensual entre os adultos, que, de seu lado, protagonizam cenas sutilmente maliciosas, onde o flerte e alguma tensão sexual subjazem o texto o tempo todo. A impressão que dá é que Cherry Falls respira sexo e todo mundo paquera com todo mundo: o pai com a filha, a mãe com o namorado da filha, a assistente com o xerife, a secretária com o diretor, os alunos com os professores, e por aí vai, todos esbanjando sensualidade nos closes, mas de forma natural e espontânea - mérito dos bons roteiro e direção.

Dizem, internet afora, que Cherry Falls é uma expressão inglesa para significar a "perda da virgindade", e esse "vermelho" que "escorre" é o tempo todo lembrado nas entrelinhas da montagem, seja nas cascatas de Cherry Falls, seja nos créditos do video, quase como uma mensagem subliminar nos lembrando que o sexo é o motivo de tudo que acontece ali.  

Dos seus prazeres aos seus horrores, em todas as instâncias possíveis, Medo em Cherry Falls tenta esmiuçar esse componente, que é tão comum nos filmes de horror justamente por ser associado ao medo - sexo e morte são referenciados pelo mesmo símbolos nos oráculos, inclusive. Ainda que o faça de forma superficial, até por se tratar de uma trama mainstream adolescente, o faz de forma coerente, redonda, sem desrespeitar nossa inteligência, e indo além ao refletir sobre nossas hipocrisias e violências a partir de um argumento que não é nada banal. 


Título Original:
Cherry Falls

Ano: 2000

País: Estados Unidos

Direção: Geoffrey Wright

Roteiro: Ken Selden

Elenco: Brittany Murphy, Jay Mohr, Gabriel Mann, Michael Biehn

Onde encontrar: Torrent.


TRAILER

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Navio Fantasma (Steve Beck, 2002): Antonio Grazza mais atraente a cada ano.


Quando Navio Fantasma foi lançado em 2002, lembro que fui assisti-lo no cinema e, por conta da faixa etária, não pude entrar. Acabei assistindo O Chamado, também em cartaz, e que considerei uma ótima surpresa naquele momento. Meses depois, logo que chegou às locadoras, aluguei o tal filme e confesso que fiquei meio decepcionado. Talvez não achei que a trama correspondeu às minhas expectativas, que eu também confesso não lembrar bem quais eram.

Acabei de rever esse que hoje vou chamar de clássico, porque, putz, como envelheceu bem! Bom, não é que a trama guarde algo de vanguarda que não foi compreendido na época - Navio Fantasma, na verdade, repete uma fórmula batidíssima, já experimentada diversas vezes nos clássicos das décadas de 1950 e 1960. A produtora Dark Castle, responsável pelo filme, foi criada com o intuito de repetir essa vibe, com suas primeiras produções sendo, inclusive, remakes de “standards” como Casa dos Maus Espíritos, 13 Fantasmas e outros. Mas enfim…

Na história, acompanhamos um grupo de rebocadores de embarcações à deriva, que após um trabalho bem sucedido, são surpreendidos por um rapaz, oferecendo um serviço: um navio de dimensões colossais, que surgiu no mar de Bering. Não se sabe a procedência, de onde veio, pra onde vai. Prevendo poder abocanhar o navio e repartir o que nele encontrassem, a trupe parte em busca dessa misteriosa embarcação, que descobrem ser o desaparecido navio italiano Antonio Grazza, e que, como vão descobrir, guarda o pior da humanidade em sua grandiosa extensão.

Desde que vi a primeira vez, nunca esqueci do impacto que a cena inicial me causou e causa em todo mundo que assiste - é algo que sempre se comenta quando se fala em Navio Fantasma. Mas o filme guarda outras boas sequências que eu não lembrava, e que dão corpo a história de ganância que a trama tenta contar por baixo de seus artifícios fantasmagóricos. 

Da parte técnica da produção, da pra destacar a cenografia, que apesar de não explorar o navio como poderia, faz perceber o impacto do colosso a partir das panorâmicas bem feitas e da caracterização de seu interior, enferrujado, caindo aos pedaços, denunciando sua antiguidade. Os efeitos visuais também estão entre os pontos altos, principalmente nas partes mais violentas, que podem ser do agrado dos que curtem coisas mais gráficas. Os efeitos mais práticos também cumprem bem seu papel.

Uma coisa legal a se mencionar é a referência direta que se faz ao caso do Mary Celeste, uma galé norte-americana que, numa viagem entre Nova York e Nápoles, foi encontrada à deriva em 1872, na região dos Açores, com suprimentos, boas condições de navegabilidade, inclusive os pertences da tripulação, tudo intacto. Sobre os navegantes, no entanto, nunca mais se ouviu falar. 

Acho que pra qualquer fã de mistério, seria uma aventura e tanto visitar um navio abandonado à deriva, e imaginar suas histórias, e possíveis eventos cabulosos que atravessam sua memória. Navio Fantasma consegue nos propiciar essa divertida experiência, e assim como as instalações do Antonio Grazza, parece ficar mais atraente à medida que envelhece.


Título Original: Ghost Ship

Ano: 2002

País: Estados Unidos, Austrália

Direção: Steve Beck

Roteiro: Mark Hanlon

Elenco: Desmond Harrington, Gabriel Byrne, Julianna Margulies, Ron Eldard

Onde encontrar: HBO Max, Torrent.


TRAILER


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Linda Ronstadt - Heart Like a Wheel (1974): "motivador".

Essa semana, assistindo pela primeira vez o “false oriented” O Segredo do Abismo, do ~ profundo ~ James Cameron (profundo mesmo, Sol em conjunção com Plutão), me deparei com uma cena muito bonita. Um grupo de mergulhadores ou engenheiros, enfim, numa plataforma submarina, alguns na “ponte”, outros comandando máquinas no lado externo, há várias centenas de metros oceano profundo adentro (ou abaixo), cantarolando: 


“Driven every kind of rig that's ever been made

Driven the backroads so I wouldn't get weighed

And if you give me weed, whites and wine

And you show me a sign

And I'll be willin' to be movin'”



Uma cena que certamente carrega alguma beleza, sutil (certamente, me ~ motivou ~ a escrever algo pra esse blog depois de tantos meses), e que dá aquele “quentinho no coração”, principalmente se você é fã dessa que talvez seja a canção mais marcante do Lowell George, fundador da banda de southern, Little Feat. A música em questão, Willin’, é um destaque da banda original, mas ganhou novo corpo na interpretação de Linda Ronstadt - e o que não ganha novo corpo na voz dela né?!

Willin’ foi lançada no último disco de Linda pela Capitol Records, e seu quinto trabalho de estúdio, Heart Like a Wheel, título que entrega bem o espírito de Linda nesse período enquanto artista: resgatando os clássicos, reverenciando suas inspirações, e dando nova forma e sentido ao tradicional, tal qual a juventude country-hippie dos late 60s/early 70s vinha fazendo com igual propriedade.

Difícil falar mais alguma coisa desse disco. Ele segue a linha uniforme que Linda vinha fazendo desde seu primeiro álbum solo, sempre nessa linha de reverenciar os clássicos, as vezes acentuando no country-rock, as vezes não, mas já apontando a tendência de se tornar uma Emmylou Harris mais “moderna”, eu diria - padrão que ela quebraria algumas vezes mais a frente.




Sua interpretação para Willin’ se sobressai no disco, ainda que não ofusque outros bons momentos, como a melosa (no bom sentido) I Can’t Help It, em que divide os vocais com a própria Emmylou Harris; o balanço de You’re No Good, de Clint Ballard Jr e que foi primeiramente interpretada por Dee Dee Warwick (irmã de quem? Da Dionne Warwick); Dark End of the Streets, gravada primeiro por James Carr, mas também que chegou no circuito via Flying Burrito Brothers; e When I Will Be Loved, dos fofinhos Everly Brothers.

Fica a dica de um bom disco, que mesmo cheio de versões de outros artistas e um ou outro momento mais country “piegas”, é carregado de espírito.



Músicas

1. You're No Good

2. It Doesn't Matter Anymore

3. Faithless Love

4. The Dark End of The Street

5. Heart Like a Wheel

6. Willin'

7. I Can't Help It (If I'm Still in Love With You)

8. Kee Me from Blowing Away

9. You Can Close Your Eyes




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Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...