quinta-feira, 16 de abril de 2020

Os Maridos (Husbands, 1970)

Muitas sensações esse filme provoca... aqui, temos um retrato real de como o bicho homem-branco-macho-hétero-'marido' se comporta íntima e socialmente. É um filme desagradável de se ver. Mas ele é ruim? Ainda não decidi. 
Vi poucos filmes do John Cassavetes, e quero falar sobre todos os que vi aqui, porque gostei muito, e até por isso, julguei desde o princípio ser ele um cara muito sensível. Um roteirista que conheço usou a palavra "intensidade" para definí-lo certa vez. Daí, tal foi minha surpresa quando assisti esse Husbands, filme que é considerado entre os melhores da carreira do diretor. Agora não sei para o que os críticos estavam olhando quando fizeram este elogio. Porque isso é apenas um elogio.
O filme conta a história de três caras, ali pelos seus quase 40 anos de idade (e entendo que 40 anos em 1970 era bem mais que hoje em dia, em termos de experiência), que acabaram de perder um amigo da turma, e o processo de luto que os três enfrentam nos dias seguintes ao enterro. 
Os três amigos passam alguns dias juntos relebrando a juventude, bebendo, dormindo na rua, jogando basquete, conversando, brigando, refletindo sobre a vida e sobre a morte. Um deles, o mais velho, é o mais responsável, sério, e enfrenta problemas conjugais. Um outro é um dentista, possui um bom emprego e relacionamento com a esposa e filhos, tem um humor mais leve. E o último, também é casado, cumpre obrigações matrimoniais, mas ainda não entendeu o sentido de nada, nem de por que está casado, nem de por que está vivo. Este seria o filósofo da turma. Fofo né?!
Mas essas qualidades traçadas aqui desaparecem quando vemos, por trás de todo esse sucesso material, o machismo, a misoginia, a infantilidade, e até autoritarismo que move o pensamento de todos os três. O filme é um show de maus tratos, ignorância e desprezo pelas mulheres que cruzam o caminho dessa turma. Aliás, nada existe para eles, a não ser eles mesmos. As mulheres viram alvo mais evidente por que, pra tudo que precisam, são a elas que o trio recorre, tamanha dependência. É um filme desagradável de assistir. O que vai tornar ele bom ou não será o serviço que ele tá prestando, que confesso, ainda não entendi.
É um filme ofensivo para as mulheres, apesar de elas não precisarem de um filme pra saber como as coisas são. E os homens devem vê-lo com o olhar bem atento. É possível ver uma história de juventude perdida, que não volta mais, e saudosismo e amor aos amigos e aos velhos tempos. Mas é possível ver também três caras que envelheceram infantilizados e engolidos pelos próprios privilégios, dados de mão beijada pelo sistema patriarcal, sem a menor maturidade ou noção de consciência social, fraternidade verdadeira, e sequer respeito ao próximo. 

Trailer:

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