quinta-feira, 28 de maio de 2020

Jefferson Airplane - Long John Silver (1972)


Nossa, ta sendo uma experiência atrás da outra reouvir discos antigos com o olhar de hoje. Escolhi dessa vez o Long John Silver, o último disco do Jefferson Airplane, revoltadíssimo e de saco cheio. Martin Balin já saiu fora do grupo, pois #semtempoirmão pra canções de amor aqui. As letras ficaram a cargo, majoritariamente, do Paul Kantner e da Grace Slick, mas todos dão seu gás aqui, e o resultado não foi outro: é tiro pra todo mundo!

Os viajantes do Airplane resolveram cutucar todas as instituições possíveis nesse disco: do Estado à família, passando pela igreja, os amigos, e até os revolucionários modistas. As ironia é a "liga" das composições, e as coisas vão tão mal (em termos de planeta) que nem a liberdade aqui é vista como um fim benéfico ou ideal nesse momento. Inclusive, era a ideia distorcida de liberdade, discurso do liberal com base no medo da perda da tão preciosa individualidade (como se a tivéssemos), que provocava e ainda provoca todos os conflitos, e crimes né, sendo mais direto, realizados pelos EUA.

Easter é a música mais provocadora e não poupa palavrões pra adjetivar os cristãos, pregadores da violência sob a tutela de Deus. The Son of Jesus também segue essa linha, chamando atenção pras consequencias do fanatismo. Aerie, Long John Silver e Trial By Fire falam de liberdade individual e de sua impossibilidade no mundo movido pelo medo. Você não pode ser livre sem carregar um rifle, diz se em Aerie em tal momento. 

Eat Starch Mom é um trator anti alienação, que não deixa barato nem pros "vegetable lovers", talvez referência aos bichos-grilo/hippies e variantes, tribo da qual o Airplane era ídolo e ajudou, inclusive, a dar visibilidade, com as ideias de paz e amor do começo da carreira. Mas o mundo de 1970 era feio, e estava cada vez mais difícil ser amoroso com próximo, principalmente quando você é natural justamente do país inflacionador das chagas das humanidade (os EUA, no caso). Entendo muito esse estado de espírito....

Quanto ao som, a banda já havia se afastado bastante do folk rock básico dos dois primeiros discos, das experimentações do terceiro, e do mergulho interior proposto (sem querer) pelo quarto. Aqui, o Airplane continua passando seu recado como vinha fazendo desde Volunteers, porem de forma mais explícita, sobrevoando os  noticiários e à realidade política e social de então, e dando seu pitaco a seu estilo. E para isso, direcionam bem sua munição, dando inclusive nome aos bois, alguns que, inclusive, já se foram há muito tempo, olhando aqui de 2020 - detalhe que pode tornar uma música ou outra datada demais.

O som é encorpado, roqueiro, gordo, a aquisição do violino rocker do Papa John Creach deu mais amplidão à trajetória expansiva desse avião, que a essa altura soava como uma locomotiva raivosa, aquela turbulência antes do pouso forçado. 

Essa "virada crítica" da banda já vinha acontecendo desde 1968. Talvez os eventos daquele ano, associado ao início de uma maturidade por parte dos integrantes, tenham resultado nisso. Volunteers já tinha essa pegada, assim como Bark. Fora da marca JA, os temas políticos já vinham sendo trabalhados no projeto de Paul Kantner, lançado em 1970, e que seria o embrião do Jefferson Starship. Foi com o turbulento Long John Silver que o avião finalmente pousou, e diferente do que dizem por aí, trata-se de um disco muito bom, acima da média, eu diria. Recomendo demais.


Eat Starch Mom, yeah!

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