sexta-feira, 30 de abril de 2021

O Homem que Ri (Victor Hugo, 1869): um chamado à simplicidade



Uma das qualidades que mais me “pegam” no pouco que conheço da obra do romancista francês Victor Hugo é sua capacidade de contar uma história nas mais diversas dimensões possíveis, literalmente lhe inserindo dentro da atmosfera psicológica (psicosfera rs) na qual a trama ocorre, resgatando muitas vezes, nuances passadas para “consolidar” mais ainda a ilusão. E quando falo de “atmosfera psicológica” aqui, não falo apenas dos personagens sobre os quais a trama se refere, mas a uma verdadeira “tour” que o autor promove pela história, geografia, sociologia e filosofia de um lugar, começando com uma visão muito geral e filtrando o olhar até chegar aos indivíduos sobre os quais se quer aprofundar. Com a atenção devida, você consegue virtualmente respirar esse ar tão específico.

Em O Homem que Ri, lançado originalmente em abril de 1869, Victor Hugo tece suas críticas sociais, outra característica de sua literatura, através do, assim considerado, freak Gwynplaine. Filho da aristocracia inglesa e herdeiro de um ducado, Gwynplaine perdeu o pai cedo numa trama política (pelo que entendi), e foi para nas mãos dos comprachicos (termo usado para se referir a grupos nômades famosos em Inglaterra e Espanha do século XVII, organizações vinculadas à escravidão, que comercializava crianças). Ao que tudo indica, foram estes comprachicos que marcaram (mutilaram) um sorriso permanente no rosto de Gwynplaine, sorriso esse que moldaria seu destino.

Livre dos comprachicos, Gwynplaine, ainda criança e em meio a uma nevasca fenomenal, resgata Dea, aquela com quem dividiria sua jornada até o fim. Dea (cega) ainda era um bebê nos braços da mãe (morta na neve) quando Gwynplaine a encontrou. Na primeira cidade, foram acolhidos por Ursus - autointitulado ‘o filósofo’ - velho rabugento e de coração valoroso dono de um pequeno circo itinerante que leva diversão aos povoados pobres Inglaterra adentro. A partir daí começa a saga dessa família nômade, até a ascensão de Gwynplaine, com seu retorno ao lugar de origem, e sua consequente queda - afinal, seu destino já havia lhe reservado outra coisa.

Victor Hugo nos entrega a narrativa sobre esse destino com muita delicadeza. Gwynplaine, Dea e Ursus - e Homo, o cão de guarda - vivem uma paupérrima e feliz vida, com seu estilo cigano levando o circo itinerante e alegria aos pobres, trabalhadores, escravizados, e todos aqueles que são ignorados pelo Poder político e vivem, assim como a trupe de Ursus, uma vida igualmente miserável. Essa felicidade, no entanto, sofre ameaças. O sorriso permanente de Gwynplaine, maldição ou presente divino (a dúvida começa a surgir para mim ao longo da leitura), é um sorriso de horror, e Ursus sabe como ninguém tirar proveito dos reveses da vida. Enquanto filósofo, é alguém que vive o presente! A visibilidade de Gwynplaine como atração principal do teatro circense de Ursus chama atenção da aristocracia, e a disputa pessoal dos poderosos não apenas “revela” o homem que ri ao mundo da nobreza, de onde ele veio, mas também revela esse mundo à Gwynplaine, que, assim como outros personagens de Victor Hugo, é tentado pelo desejo.

Nesse ponto, o autor joga sua crítica aos valores, a imaturidade e egoísmo da nobreza, a importância da beleza, e as distorções morais provocadas pelo espírito vaidoso, “inferno” ao qual Gwynplaine é submetido em seu breve passeio pelo mundo dos reis e rainhas.

O pensamento de Victor Hugo ecoa de forma muito cristã, pode-se dizer. Cobrindo toda a análise “sistêmica” que faz da sociedade monárquica e suas graves dissonâncias, há um olhar direcionado que nos leva a reconhecer o valor da humildade e da simplicidade, do amor, ou pelo menos, da consideração e respeito pela humanidade, e principalmente seus desafortunados. A trupe do circo itinerante de Ursus forma uma família genuinamente feliz, e a causa de tamanha felicidade talvez esteja, exatamente, nas adversidades. E ao invés de irmos na direção de uma crítica à “romantização do sofrimento” sob a forma de um idealismo cristão barato, poderíamos apenas, para começar, reconhecendo o valor daquilo que dispomos, com humildade e simplicidade. Num mundo injusto, tem mais valor aquilo que é eterno.

Gwynplaine custa a entender que o fruto de sua felicidade vem do olhar atento ao presente (Ursus, o filósofo, tem as leis do Estado escritas na parede próxima ao local onde dorme em seu carroção, e diz que isso é tudo o que é preciso saber), e em Dea, seu amor primeiro e original, inocente e nobre. O amor de Dea (cega) é como um presente de Deus a Gwynplaine, quase um prêmio por sua bondade de espírito e coração nobre. E é essa a lição que o Homem que Ri precisa lembrar, é esse tipo de valor que ele quer preservar.

Pra mim, reside nesses detalhes todo o mérito da obra de Victor Hugo. Ele retrata a psique humana e os desdobramentos de nossas ações de maneira quase mística, mostrando uma profunda integração entre os eventos, inclusive os de ordem social, os quais, para aqueles que nada enxergam além de si, são invisíveis aos olhos.


ADAPTAÇÕES
Continuando, há algo de onírico na figura de Gwynplaine. A própria marca do seu sorriso já denuncia: como uma mutilação realizada sem muitos requintes tecnológicos marcaria um sorriso tão perfeito no rosto?

Talvez eu tenha perdido esse detalhe na leitura (o que é muuuito provável), mas não fica claro de que forma esse sorriso foi marcado. Não parece ser algo asqueroso num sentido físico, visto que a reação das pessoas à ele é o riso. Ao mesmo tempo, é pouco provável que um sorriso seja resultado de uma mutilação. Quem sorri é a alma, e ela o faz com todo o corpo e coração. Não há sorriso sem alma, com ou sem mutilação. E eu não lembro de nenhuma passagem no livro que nos forneça detalhes sobre isso. Foi apenas através das adaptações da literatura para o cinema que verifiquei as possibilidades. Surpreendentemente, e ainda bem, O Homem que Ri só ganhou três adaptações para o cinema, uma de 1928 - a mais famosa, uma franco italiana de 1996, e outra francesa de 2012.



A primeira versão de 1928, estadunidense, é a mais famosa, e traz “a cara” do Gwynplaine que conhecemos. Talvez seja uma pegadinha, mas a história do Homem que Ri é mais famosa por causa desse filme, e é a imagem do ator Conrad Veidt, que interpreta Gwynplaine nesta primeira adaptação, a primeira a nos vir à mente. Ela ilustra, inclusive, as capas de algumas edições brasileiras mais recentes de O Homem que Ri. E é daí que vem a qualidade "onínica" que percebo no aspecto de Gwynplaine. O Homem que Ri abriu seu caminho no cinema dentro de uma atmosfera de terror gótico, acerto que influenciou outras produções do estilo a partir dali, além de fazer Gwynplaine atravessar os tempos e influenciar outros personagens hoje famosinhos da cultura pop.

Nessa versão, ainda no formato mudo e dirigida pelo expressionista alemão Paul Leni, percebe-se que a história “corre” em relação à versão do livro, inclusive porque muitos elementos foram deixados de fora, e devido a várias mudanças que foram providenciadas, talvez para deixar tudo mais “palatável” aos olhos do público que buscava no cinema um entretenimento divertido.

O ator Conrad Veidt é o grande destaque. É preciso admitir que é muito difícil fazer o que ele faz em cena. Apesar das caras e bocas que tanto o cinema mudo quanto o estilo expressionista exigem (o expressionismo talvez, inclusive, seja proveniente da “mudez” do cinema de então, mas preciso checar isso), Conrad Veidt ultrapassa toda a caricatura e nos entrega uma atuação primorosa (para o grau de refinamento que a arte de atuar havia chegado àquela altura).

O sorriso marcado obriga a atuação acontecer por meio dos olhos. São os olhos de Gwynplaine que nos entregam toda a sua felicidade e toda a sua tristeza, toda sua raiva, ternura e amor.

Mas assim como hoje, apesar de ser um filme excelente para os padrões da época, o formato “cinema” ainda limita muito as adaptações e a apreensão das nuances da literatura, e são justamente tais nuances que tornam a obra profunda e digna de se tornar um clássico. Uma das coisas que mais senti falta nessa primeira adaptação, por exemplo, foi a omissão de Barkilphedro. A sua psicologia é o motor de toda a história, e trata-se de um personagem clássico de Victor Hugo, que nessa adaptação se resume a um "secretário" do reino - que só entendemos como mal intencionado devido suas expressões faciais. Lady Joseanne também não demonstra o mínimo da inteligência estratégica que possui no livro, nos deixando aqui apenas com seu lado infantil. Mas, detalhes…. é um filme legal.

Já sobre a versão de 1966 não posso dizer o mesmo. É um filme de capa e espada, mal produzido pra caramba, que se passa na corte dos Borgias na Itália. Apenas Gwynplaine, aqui com o nome de Angelo Bello, e Dea, ainda como Dea, foram recuperados da história original. O espírito de Gwynplaine aqui é totalmente outro, sombrio, assim como o de Dea. O tal sorriso aqui é realmente uma deformidade que rasgou a boca de Angelo de forma grosseira, deixando muito pouco, quase nada de um sorriso. Longe disso.

Sobre a parte mais “física” da história, a parte melodramática foi substituída por uma trama política nada original envolvendo os Borgias, e o Angelo acabou indo parar no meio dessa besteirada. A cicatriz é “consertada” cirurgicamente e ele é transformado num clone do novo pretendente da Dea, rival dos Borgias, e mocinho da trama. Angelo é um personagem duro, dado a briga e amores da cama, e muito amargurado com o destino. Já Dea é ainda romântica, mas realista, tal hora volta a enxergar… menino… achei uma bagunça!Há ainda uma adaptação francesa, de 2012, com Gerard Depardieu interpretando Ursus, que chegou aqui no Brasil via Festival Varilux, com votação péssima nos principais "rates", e que é muito difícil de encontrar disponível para assistir na internet. Assim que eu encontrar, comento algo por aqui.



segunda-feira, 26 de abril de 2021

Trilogia do Apocalipse - John Carpenter

A Trilogia do Apocalipse é uma trilogia incidental, talvez apenas percebida pelos apreciadores do realizador, cuja única ligação entre a trama dos três filmes é coincidência de os três tratarem de um apocalipse iminente - algo que, inclusive, nem é especificamente claro ao longo das histórias. 

Assistindo pela primeira vez a filmografia do Carpenter, sem ordem cronológica, e revendo alguns filmes que já conhecia, é possível verificar que além do trabalho artesanal e econômico do capricorniano, há uma forte trama “social” por trás das histórias que compõe ou escolhe trabalhar. Nesses três filmes essa é essa preocupação que guia os protagonistas rumo a seu destino, e o tamanho das tarefas praticamente os obriga a um sacrifício do qual não podem desviar. A fatalidade se torna iminente e a única forma de TENTAR conter aquilo que não está no nosso controle é entregar tudo. Se trata do fim do mundo, de muitas maneiras.


THE THING (1982)


The Thing ou O Enigma do Outro Mundo é remake do clássico The Thing from Another World, de 1951, comandado por Howard Hawks. A versão do Carpinteiro é conduzida com alguma maestria (ele é massa), sendo impossível não ressaltar, logo nos primeiros minutos, a combinação trilha sonora e paisagem (no caso, as paragens e montanhas da Antártida), já entregando a situação de isolamento na qual os protagonistas da aventura se encontram. Algo parecido com o que Kubrick fez nas cenas iniciais de O Iluminado dois anos antes (mas menos impactante rss).

Esse é um mais um daqueles textos que na década de 1950 faziam referência à ameaça comunista, à uma invasão oculta, que cria um clima de paranoia e neurose nas pessoas, tornando-as potencialmente perigosas. Não são poucas as cenas em que os personagens se veem obrigados a duvidar uns dos outros para se proteger. A localidade onde se passa a trama, uma base científica no meio do deserto antártico no meio de uma nevasca (rsss), também não facilita a situação dos herois, que logo atentam para os perigos possíveis caso a ameaça que veio do outro mundo ou qualquer um deles saia dali.

A possibilidade de um inimigo oculto ou incerto já foi explorada várias vezes no cinema e geralmente rendem bons suspenses. Lembro de dois exemplos bons nos antigos A Sombra de uma Dúvida (Hitchcock, 1943) e Vampiros de Almas (Don Siegel, 1956). Essa possibilidade é bastante explorada em The Thing, tornando as condições e possibilidades dos protagonistas ainda mais confusas. A gravidade da situação, entretanto, requer uma solução específica que deixa nossos herois sem ter muito para onde correr. 

The Thing é inspirado na novela Who Goes There?, de John W. Campbell, publicada em 1938.



PRINCE OF DARKNESS (1987)



Muito massa! Nesse o Carpenter faz uma misturada que poderia descambar numa desgraceira trash, mas ele consegue nos entregar um de seus filmes mais divertidos, e até redondos, por assim dizer. Isso dada à quantidade coisa que ele joga no caldeirão: religião, possessão demoníaca, anticristo, alienígenas do passado, e até zumbis - e isso de uma forma que você nem estranha ou acha confusa. Achei tudo tão bem construidinho e coerente que só percebi ao fim a quantidade de coisas que ele usou aqui.

Nessa trama, um padre e um professor de física (e vários especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento) se juntam para investigar um estranho segredo que a Igreja resolveu manter oculto durante toda a sua história - segredo tão severo que redirecionou a história da humanidade, talvez. esse segredo está guardado numa igreja de bairro.

Os fãs de rock podem curtit. Há uma referência ao Blue Oyster Cult - e acho que é uma referência sim porque o Carpenter já usou a banda outras vezes (o BOC é lembrado hoje em dia basicamente porque Don’t Fear the Reaper tá na trilha de Halloween (1978)). Mas dessa vez não é com música que eles são lembrados, e sim sob a forma do símbolo do saturno astrológico, usado como logotipo pela banda. Há ainda uma participação do Alice Cooper como um dos mendigos estranhos que assombram a igreja. Donald Pleasence também marca presença no papel de um padre muito, muito parecido com o prof. Loomis de Halloween: alguém que deixou algo escapar, alguém que divaga mais que ‘resolve’, alguém que se culpa por ter errado, etc etc etc….. saturno.



IN THE MOUTH OF MADNESS (1994)


In the Mouth of Madness é um daqueles filmes sobre personagens que perdem a sanidade. Aqui, lembrei (de novo) várias vezes do clássico Vampiros de Almas (1956), cujo personagem central também perde a razão ante uma invasão alienígena “oculta”, que só ele percebia. 

Mas a brincadeira aqui envolve um homem lógico que vai até o limite da razão em uma aventura que se apresentou: investigar o paradeiro de um famoso escritor de histórias de terror e ficção. Seu livro novo está prestes a ser publicado e o autor é famoso pela escrita diferenciada que “envolve” o leitor a ponto de dominar toda a sua perspectiva. 

A trama me pareceu misturar Stephen King e David Cronemberg pelo excesso de símbolos gore (monstros) e situações cuja imaginação dos personagens tem muita participação - inclusive, são a chave dos mistérios. Tanto em King quanto em Cronemberg, e também nesse filme, a percepção individual age como uma espécie de força mental, que tende a alterar a realidade sob a forma dos símbolos que o indivíduo compreende. Em In The Mouth of Madness, o protagonista não entende que foi capturado pela trama simbólica (phanton thread) de outro, e que não há controle sobre isso - ainda mais quando esse outro exerce tamanha influência sobre gerações de indivíduos inteiras.  

As discussões envolvem a perspectiva individual ante as situações. Deus, poder, o poder da indústria do entretenimento e seus efeitos nos consumidores. Há algo de apocalíptico, cujo alcance naquele distante 1994, uma época em que não existiam redes sociais, a internet ainda era novidade, não tínhamos como dimensionar.

À Beira da Loucura é um texto original do roteirista Michael de Lucas, que viu em John Carpenter uma das primeiras opções para direção. Achei a direção mais profissional, com aquela atmosfera oitentista sendo mais reforçada pela trilha sonora aqui e ali. Gostei bastante, e tá no Youtube. 


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Paranormal (2020): o bom e velho razão vs. emoção

Esse cara da imagem é o Refaat Ismail, personagem principal da série Paranormal (Netflix). É um daqueles cientistas "engessados" aferrados à lógica e ao sentido imediato das coisas, que jogam pra "falta de sentido" qualquer reflexão mais profunda que se perceba fazendo sobre os porques da vida e da existência humana - como se eventos aleatórios tivessem que ser necessariamente desprovidos de significado (uma pegadinha filosófica que nos arvora de todo o valor e torna nossa vontade protagonista de algo que não é ou, de forma igualmente ruim, nos tira toda a noção de autovalor nos empurrando num vórtice coletivo de fracasso e submissão, transtornos psicológicos, indo bater na hieraquização social).

Só que diferentemente daqueles que se recusam a conhecer - porque talvez seja cômodo - esse cientista vai ser confrontado pelo mistério. Daí parte uma trama simples, que é comum em vários filmes e outras séries, sobre o intelectual que tem que confrontar aquilo que não consegue explicar. Mas gostei muito da história do Reffat porque ele encontra no símbolo todas as direções para o inconsciente, ao qual ele não admite se submeter. Ele encontra nos sonhos, nas alegorias, nas cartas, uma lógica maior, transversal e profunda, ainda que individual, que o impulsiona em direção ao enfrentamento dos seus medos, e percebe que seu apego a lógica ao fim se resume a isso: medo. 

Paranormal foi meu segundo ou terceiro contato com produções egipcias - fora aquelas norte americanas sobre múmias e mitologia egípcia que engessam nosso imaginário sobre um lugar tão distante e ainda lendário. Ainda que tenha o andamento lento em muitas passagens, que fazem os seis episódios parecerem doze, é muito interessante ver o egito sob o olhar dos egípcios. Aqui não temos deserto, piramides, museus, múmias ou turistas pra modelar a perspectivas, mas pessoas e lugares que, dadas as diferenças culturais, vivenciam conflitos que são eternos e inerentes à humanidade.


TRAILER

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...