Uma das qualidades que mais me “pegam” no pouco que conheço da obra do romancista francês Victor Hugo é sua capacidade de contar uma história nas mais diversas dimensões possíveis, literalmente lhe inserindo dentro da atmosfera psicológica (psicosfera rs) na qual a trama ocorre, resgatando muitas vezes, nuances passadas para “consolidar” mais ainda a ilusão. E quando falo de “atmosfera psicológica” aqui, não falo apenas dos personagens sobre os quais a trama se refere, mas a uma verdadeira “tour” que o autor promove pela história, geografia, sociologia e filosofia de um lugar, começando com uma visão muito geral e filtrando o olhar até chegar aos indivíduos sobre os quais se quer aprofundar. Com a atenção devida, você consegue virtualmente respirar esse ar tão específico.
Em O Homem que Ri, lançado originalmente em abril de 1869, Victor Hugo tece suas críticas sociais, outra característica de sua literatura, através do, assim considerado, freak Gwynplaine. Filho da aristocracia inglesa e herdeiro de um ducado, Gwynplaine perdeu o pai cedo numa trama política (pelo que entendi), e foi para nas mãos dos comprachicos (termo usado para se referir a grupos nômades famosos em Inglaterra e Espanha do século XVII, organizações vinculadas à escravidão, que comercializava crianças). Ao que tudo indica, foram estes comprachicos que marcaram (mutilaram) um sorriso permanente no rosto de Gwynplaine, sorriso esse que moldaria seu destino.
Livre dos comprachicos, Gwynplaine, ainda criança e em meio a uma nevasca fenomenal, resgata Dea, aquela com quem dividiria sua jornada até o fim. Dea (cega) ainda era um bebê nos braços da mãe (morta na neve) quando Gwynplaine a encontrou. Na primeira cidade, foram acolhidos por Ursus - autointitulado ‘o filósofo’ - velho rabugento e de coração valoroso dono de um pequeno circo itinerante que leva diversão aos povoados pobres Inglaterra adentro. A partir daí começa a saga dessa família nômade, até a ascensão de Gwynplaine, com seu retorno ao lugar de origem, e sua consequente queda - afinal, seu destino já havia lhe reservado outra coisa.

Victor Hugo nos entrega a narrativa sobre esse destino com muita delicadeza. Gwynplaine, Dea e Ursus - e Homo, o cão de guarda - vivem uma paupérrima e feliz vida, com seu estilo cigano levando o circo itinerante e alegria aos pobres, trabalhadores, escravizados, e todos aqueles que são ignorados pelo Poder político e vivem, assim como a trupe de Ursus, uma vida igualmente miserável. Essa felicidade, no entanto, sofre ameaças. O sorriso permanente de Gwynplaine, maldição ou presente divino (a dúvida começa a surgir para mim ao longo da leitura), é um sorriso de horror, e Ursus sabe como ninguém tirar proveito dos reveses da vida. Enquanto filósofo, é alguém que vive o presente! A visibilidade de Gwynplaine como atração principal do teatro circense de Ursus chama atenção da aristocracia, e a disputa pessoal dos poderosos não apenas “revela” o homem que ri ao mundo da nobreza, de onde ele veio, mas também revela esse mundo à Gwynplaine, que, assim como outros personagens de Victor Hugo, é tentado pelo desejo.
Nesse ponto, o autor joga sua crítica aos valores, a imaturidade e egoísmo da nobreza, a importância da beleza, e as distorções morais provocadas pelo espírito vaidoso, “inferno” ao qual Gwynplaine é submetido em seu breve passeio pelo mundo dos reis e rainhas.
O pensamento de Victor Hugo ecoa de forma muito cristã, pode-se dizer. Cobrindo toda a análise “sistêmica” que faz da sociedade monárquica e suas graves dissonâncias, há um olhar direcionado que nos leva a reconhecer o valor da humildade e da simplicidade, do amor, ou pelo menos, da consideração e respeito pela humanidade, e principalmente seus desafortunados. A trupe do circo itinerante de Ursus forma uma família genuinamente feliz, e a causa de tamanha felicidade talvez esteja, exatamente, nas adversidades. E ao invés de irmos na direção de uma crítica à “romantização do sofrimento” sob a forma de um idealismo cristão barato, poderíamos apenas, para começar, reconhecendo o valor daquilo que dispomos, com humildade e simplicidade. Num mundo injusto, tem mais valor aquilo que é eterno.
Gwynplaine custa a entender que o fruto de sua felicidade vem do olhar atento ao presente (Ursus, o filósofo, tem as leis do Estado escritas na parede próxima ao local onde dorme em seu carroção, e diz que isso é tudo o que é preciso saber), e em Dea, seu amor primeiro e original, inocente e nobre. O amor de Dea (cega) é como um presente de Deus a Gwynplaine, quase um prêmio por sua bondade de espírito e coração nobre. E é essa a lição que o Homem que Ri precisa lembrar, é esse tipo de valor que ele quer preservar.
Pra mim, reside nesses detalhes todo o mérito da obra de Victor Hugo. Ele retrata a psique humana e os desdobramentos de nossas ações de maneira quase mística, mostrando uma profunda integração entre os eventos, inclusive os de ordem social, os quais, para aqueles que nada enxergam além de si, são invisíveis aos olhos.
ADAPTAÇÕES
Continuando, há algo de onírico na figura de Gwynplaine. A própria marca do seu sorriso já denuncia: como uma mutilação realizada sem muitos requintes tecnológicos marcaria um sorriso tão perfeito no rosto?
Talvez eu tenha perdido esse detalhe na leitura (o que é muuuito provável), mas não fica claro de que forma esse sorriso foi marcado. Não parece ser algo asqueroso num sentido físico, visto que a reação das pessoas à ele é o riso. Ao mesmo tempo, é pouco provável que um sorriso seja resultado de uma mutilação. Quem sorri é a alma, e ela o faz com todo o corpo e coração. Não há sorriso sem alma, com ou sem mutilação. E eu não lembro de nenhuma passagem no livro que nos forneça detalhes sobre isso. Foi apenas através das adaptações da literatura para o cinema que verifiquei as possibilidades. Surpreendentemente, e ainda bem, O Homem que Ri só ganhou três adaptações para o cinema, uma de 1928 - a mais famosa, uma franco italiana de 1996, e outra francesa de 2012.

A primeira versão de 1928, estadunidense, é a mais famosa, e traz “a cara” do Gwynplaine que conhecemos. Talvez seja uma pegadinha, mas a história do Homem que Ri é mais famosa por causa desse filme, e é a imagem do ator Conrad Veidt, que interpreta Gwynplaine nesta primeira adaptação, a primeira a nos vir à mente. Ela ilustra, inclusive, as capas de algumas edições brasileiras mais recentes de O Homem que Ri. E é daí que vem a qualidade "onínica" que percebo no aspecto de Gwynplaine. O Homem que Ri abriu seu caminho no cinema dentro de uma atmosfera de terror gótico, acerto que influenciou outras produções do estilo a partir dali, além de fazer Gwynplaine atravessar os tempos e influenciar outros personagens hoje famosinhos da cultura pop.
Nessa versão, ainda no formato mudo e dirigida pelo expressionista alemão Paul Leni, percebe-se que a história “corre” em relação à versão do livro, inclusive porque muitos elementos foram deixados de fora, e devido a várias mudanças que foram providenciadas, talvez para deixar tudo mais “palatável” aos olhos do público que buscava no cinema um entretenimento divertido.
O ator Conrad Veidt é o grande destaque. É preciso admitir que é muito difícil fazer o que ele faz em cena. Apesar das caras e bocas que tanto o cinema mudo quanto o estilo expressionista exigem (o expressionismo talvez, inclusive, seja proveniente da “mudez” do cinema de então, mas preciso checar isso), Conrad Veidt ultrapassa toda a caricatura e nos entrega uma atuação primorosa (para o grau de refinamento que a arte de atuar havia chegado àquela altura).
O sorriso marcado obriga a atuação acontecer por meio dos olhos. São os olhos de Gwynplaine que nos entregam toda a sua felicidade e toda a sua tristeza, toda sua raiva, ternura e amor.

Mas assim como hoje, apesar de ser um filme excelente para os padrões da época, o formato “cinema” ainda limita muito as adaptações e a apreensão das nuances da literatura, e são justamente tais nuances que tornam a obra profunda e digna de se tornar um clássico. Uma das coisas que mais senti falta nessa primeira adaptação, por exemplo, foi a omissão de Barkilphedro. A sua psicologia é o motor de toda a história, e trata-se de um personagem clássico de Victor Hugo, que nessa adaptação se resume a um "secretário" do reino - que só entendemos como mal intencionado devido suas expressões faciais. Lady Joseanne também não demonstra o mínimo da inteligência estratégica que possui no livro, nos deixando aqui apenas com seu lado infantil. Mas, detalhes…. é um filme legal.
Já sobre a versão de 1966 não posso dizer o mesmo. É um filme de capa e espada, mal produzido pra caramba, que se passa na corte dos Borgias na Itália. Apenas Gwynplaine, aqui com o nome de Angelo Bello, e Dea, ainda como Dea, foram recuperados da história original. O espírito de Gwynplaine aqui é totalmente outro, sombrio, assim como o de Dea. O tal sorriso aqui é realmente uma deformidade que rasgou a boca de Angelo de forma grosseira, deixando muito pouco, quase nada de um sorriso. Longe disso.
Sobre a parte mais “física” da história, a parte melodramática foi substituída por uma trama política nada original envolvendo os Borgias, e o Angelo acabou indo parar no meio dessa besteirada. A cicatriz é “consertada” cirurgicamente e ele é transformado num clone do novo pretendente da Dea, rival dos Borgias, e mocinho da trama. Angelo é um personagem duro, dado a briga e amores da cama, e muito amargurado com o destino. Já Dea é ainda romântica, mas realista, tal hora volta a enxergar… menino… achei uma bagunça!Há ainda uma adaptação francesa, de 2012, com Gerard Depardieu interpretando Ursus, que chegou aqui no Brasil via Festival Varilux, com votação péssima nos principais "rates", e que é muito difícil de encontrar disponível para assistir na internet. Assim que eu encontrar, comento algo por aqui.