segunda-feira, 26 de abril de 2021

Trilogia do Apocalipse - John Carpenter

A Trilogia do Apocalipse é uma trilogia incidental, talvez apenas percebida pelos apreciadores do realizador, cuja única ligação entre a trama dos três filmes é coincidência de os três tratarem de um apocalipse iminente - algo que, inclusive, nem é especificamente claro ao longo das histórias. 

Assistindo pela primeira vez a filmografia do Carpenter, sem ordem cronológica, e revendo alguns filmes que já conhecia, é possível verificar que além do trabalho artesanal e econômico do capricorniano, há uma forte trama “social” por trás das histórias que compõe ou escolhe trabalhar. Nesses três filmes essa é essa preocupação que guia os protagonistas rumo a seu destino, e o tamanho das tarefas praticamente os obriga a um sacrifício do qual não podem desviar. A fatalidade se torna iminente e a única forma de TENTAR conter aquilo que não está no nosso controle é entregar tudo. Se trata do fim do mundo, de muitas maneiras.


THE THING (1982)


The Thing ou O Enigma do Outro Mundo é remake do clássico The Thing from Another World, de 1951, comandado por Howard Hawks. A versão do Carpinteiro é conduzida com alguma maestria (ele é massa), sendo impossível não ressaltar, logo nos primeiros minutos, a combinação trilha sonora e paisagem (no caso, as paragens e montanhas da Antártida), já entregando a situação de isolamento na qual os protagonistas da aventura se encontram. Algo parecido com o que Kubrick fez nas cenas iniciais de O Iluminado dois anos antes (mas menos impactante rss).

Esse é um mais um daqueles textos que na década de 1950 faziam referência à ameaça comunista, à uma invasão oculta, que cria um clima de paranoia e neurose nas pessoas, tornando-as potencialmente perigosas. Não são poucas as cenas em que os personagens se veem obrigados a duvidar uns dos outros para se proteger. A localidade onde se passa a trama, uma base científica no meio do deserto antártico no meio de uma nevasca (rsss), também não facilita a situação dos herois, que logo atentam para os perigos possíveis caso a ameaça que veio do outro mundo ou qualquer um deles saia dali.

A possibilidade de um inimigo oculto ou incerto já foi explorada várias vezes no cinema e geralmente rendem bons suspenses. Lembro de dois exemplos bons nos antigos A Sombra de uma Dúvida (Hitchcock, 1943) e Vampiros de Almas (Don Siegel, 1956). Essa possibilidade é bastante explorada em The Thing, tornando as condições e possibilidades dos protagonistas ainda mais confusas. A gravidade da situação, entretanto, requer uma solução específica que deixa nossos herois sem ter muito para onde correr. 

The Thing é inspirado na novela Who Goes There?, de John W. Campbell, publicada em 1938.



PRINCE OF DARKNESS (1987)



Muito massa! Nesse o Carpenter faz uma misturada que poderia descambar numa desgraceira trash, mas ele consegue nos entregar um de seus filmes mais divertidos, e até redondos, por assim dizer. Isso dada à quantidade coisa que ele joga no caldeirão: religião, possessão demoníaca, anticristo, alienígenas do passado, e até zumbis - e isso de uma forma que você nem estranha ou acha confusa. Achei tudo tão bem construidinho e coerente que só percebi ao fim a quantidade de coisas que ele usou aqui.

Nessa trama, um padre e um professor de física (e vários especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento) se juntam para investigar um estranho segredo que a Igreja resolveu manter oculto durante toda a sua história - segredo tão severo que redirecionou a história da humanidade, talvez. esse segredo está guardado numa igreja de bairro.

Os fãs de rock podem curtit. Há uma referência ao Blue Oyster Cult - e acho que é uma referência sim porque o Carpenter já usou a banda outras vezes (o BOC é lembrado hoje em dia basicamente porque Don’t Fear the Reaper tá na trilha de Halloween (1978)). Mas dessa vez não é com música que eles são lembrados, e sim sob a forma do símbolo do saturno astrológico, usado como logotipo pela banda. Há ainda uma participação do Alice Cooper como um dos mendigos estranhos que assombram a igreja. Donald Pleasence também marca presença no papel de um padre muito, muito parecido com o prof. Loomis de Halloween: alguém que deixou algo escapar, alguém que divaga mais que ‘resolve’, alguém que se culpa por ter errado, etc etc etc….. saturno.



IN THE MOUTH OF MADNESS (1994)


In the Mouth of Madness é um daqueles filmes sobre personagens que perdem a sanidade. Aqui, lembrei (de novo) várias vezes do clássico Vampiros de Almas (1956), cujo personagem central também perde a razão ante uma invasão alienígena “oculta”, que só ele percebia. 

Mas a brincadeira aqui envolve um homem lógico que vai até o limite da razão em uma aventura que se apresentou: investigar o paradeiro de um famoso escritor de histórias de terror e ficção. Seu livro novo está prestes a ser publicado e o autor é famoso pela escrita diferenciada que “envolve” o leitor a ponto de dominar toda a sua perspectiva. 

A trama me pareceu misturar Stephen King e David Cronemberg pelo excesso de símbolos gore (monstros) e situações cuja imaginação dos personagens tem muita participação - inclusive, são a chave dos mistérios. Tanto em King quanto em Cronemberg, e também nesse filme, a percepção individual age como uma espécie de força mental, que tende a alterar a realidade sob a forma dos símbolos que o indivíduo compreende. Em In The Mouth of Madness, o protagonista não entende que foi capturado pela trama simbólica (phanton thread) de outro, e que não há controle sobre isso - ainda mais quando esse outro exerce tamanha influência sobre gerações de indivíduos inteiras.  

As discussões envolvem a perspectiva individual ante as situações. Deus, poder, o poder da indústria do entretenimento e seus efeitos nos consumidores. Há algo de apocalíptico, cujo alcance naquele distante 1994, uma época em que não existiam redes sociais, a internet ainda era novidade, não tínhamos como dimensionar.

À Beira da Loucura é um texto original do roteirista Michael de Lucas, que viu em John Carpenter uma das primeiras opções para direção. Achei a direção mais profissional, com aquela atmosfera oitentista sendo mais reforçada pela trilha sonora aqui e ali. Gostei bastante, e tá no Youtube. 


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