terça-feira, 31 de maio de 2022

A Autópsia (André Øvredal, 2016): o corpo fala.


Esse filme foi uma das boas surpresas desses dias. Confesso que ainda não vi outros filmes do diretor André Øvredal, mas a julgar pelas interessantes sinopses de outros itens de sua filmografia, parece ser alguém cujo trabalho merece atenção. Esse A Autópsia foi justamente um desses casos em que fui atraído pela curiosa sinopse e suas inúmeras possibilidades, e não me decepcionei.

A Autópsia conta a história de uma dupla de legistas, pai e filho, que recebem um corpo de uma mulher coletado em uma cena de crime aparentemente inexplicável. O corpo da mulher também é inexplicável. Não se relaciona com a cena do crime, e ao mesmo tempo não indica nenhuma causa mortis evidente. A dupla de legistas então inicia uma investigação para descobrir o que houve com aquela desconhecida.

O que poderia descambar num body horror típico, segue, então, outro caminho, partindo para um interessante trabalho de investigação médica com muitas surpresas e reviravoltas, twists mais amplos do que somos capazes de supor, e diferentemente do que acontece nos filmes em geral, tais reviravoltas não são forçadas e acabam por se mostrar ótimas surpresas, principalmente para os fãs de horror, investigação e mistérios em geral.


Um aspecto notável nessa produção é a simplicidade com que a trama é desenvolvida. A maior parte da história se passa em um único cenário, com apenas dois personagens em intenso trabalho mental a fim de descobrir o que aconteceu com a tal Jane Doe. O roteiro acerta em muitos pontos se utilizando de alguns clichês, como trovões e quedas de energia nos momentos corretos, para criar a atmosfera sinistra que aos poucos transforma essa autópsia de história de mistério num autêntico terror.

Outro aspecto que me deixou fascinado foi observar o trabalho dos legistas, que como verdadeiros detetives que são, captam todas as mensagens impressas no corpo de Jane Doe, que se apresentam das mais variadas formas, seja por meio de arranhões, torções, ossos quebrados, e análise de tecidos. O corpo fala em vida, o corpo fala na morte, e as mensagens e informações estão todas disponíveis para quem souber ler. 

O diretor conduz muito bem a investigação realizada pelos dois legistas, adicionando elementos imprevisíveis a todo instante, e se utilizando muito bem desses elementos para construir uma narrativa que, aos poucos, começa a ultrapassar as barreiras do natural. A Autópsia é o tipo de filme que não cabe falar muito, pois qualquer informação a mais pode ser um spoiler e estragar a experiência, e acompanhar junto com os médicos o desenrolar imprevisível dos acontecimentos é uma das grandes diversões desse longa. Ele tá disponível na plataforma Darkflix.

Nota: 4,2/5



A Autópsia

Original: The Autopsy of Jane Doe
Ano: 2016
País: UK
Direção: André Øvredal
Roteiro: Ian B. Goldberg, Richard Naing
Produção: Rory Aitken, Fred Berger, Eric Garcia, Ben Pugh
Elenco: Emile Hirsch, Brian Cox, Ophelia Lovibond, Michael McElhatton, Olwen Catherine Kelly, Parker Sawyers, Jane Perry


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sábado, 28 de maio de 2022

Luzes de Phoenix (Justin Barber, 2017): um dos found footages legais.


O gênero found footage nunca foi exatamente do meu agrado. Além de praticamente todos os filmes terminarem do mesmo jeito (com uma câmera caída no chão, porque enfim, né..), com o passar de muitas produções, fica parecendo uma solução muito fácil pras tramas mirabolantes que inventam mostrar fragmentos de algo e não haver necessidade de maiores explicações. Explicações em terror nem sempre são necessárias, mas também nem todo filme é um Bruxa de Blair né?!

Pois bem, esse Luzes de Phoenix é mais um desses filmes, e carrega em si todos os artifícios típicos desse tipo de produção, mas consegue se manter interessante a maior parte do tempo - ainda que apele para saídas que considero óbvias demais no encerramento.

A história aqui pega carona em um caso conhecido de aparição de OVNIs na cidade de Phoenix, em 1997. O avistamento de luzes nos céus em forma de V dos estados do Arizona e Nevada (EUA) foi amplamente documentado na época, e é até hoje um dos casos mais curiosos de “casuística ufológica", ainda sem a menor sombra de explicação racional sobre o fenômeno.


A fita encontrada, desta vez, diz respeito a três amigos que embarcaram numa trip para realizar uma vigília ufológica nos desertos do Arizona, próximos a Base Aérea de Luke (o bode expiatório das aparições de Phoenix), e desapareceram sem deixar rastros. O filme, por sua vez, narra a tentativa frustrada da irmã de um dos desaparecidos de realizar um documentário associando o desaparecimento do irmão às luzes de Phoenix. As pistas, no entanto, conduzem a uma verdade difícil de acreditar, e rejeitada por todos que poderiam fazer algo a respeito.

Sem solução, como sempre acontece nesses filmes, Phoenix Forgotten é um filme divertido e na medida, oferece o melhor do gênero, e nos brinda com as maravilhosas paisagens desérticas dos Estados Unidos. O clima de mistério a la Arquivo X ou Roswell paira a todo momento, tornando esse um exemplar de “alien abduction” acima da média.

Nota: 3,8/5



Ficha Técnica

Original:
Phoenix Forgotten
Ano: 2017  
País: EUA
Direção: Justin Barber
Roteiro: T.S. Nowlin, Justin Barber
Produção: Wes Ball, Mark Canton, T.S. Nowlin, Ridley Scott, Courtney Solomon
Elenco: Florence Hartigan, Luke Spencer Roberts, Chelsea Lopez, Justin Matthews, Clint Jordan, Cyd Strittmatter, Jeanine Jackson, Matt Biedel


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segunda-feira, 23 de maio de 2022

O Pássaro Sangrento (Micheli Soavi, 1987): slasher elegante como um giallo


O filme Pássaro Sangrento é um slasher no mínimo diferente da maioria. Não só por ser italiano. Da mesma maneira, não se pode associá-lo ao giallo, sendo mais adequado, de fato, ligá-lo à “escola americana” de slashers. Pode se até considerá-lo uma boa mistura dos dois, já que repete as fórmulas do estilo americano mas é realizado com o apuro técnico característico, beirando o artístico, do giallo.

Na história, um grupo de teatro numa intensa maratona de ensaios de uma peça que deverá estrear em breve tem seu trabalho sabotado por um serial killer que acabou de fugir de uma clínica psiquiátrica. O maníaco tinha acabado de ser recolhido, e logo cismou e fugiu em perseguição a uma das atrizes que, de passagem rápida pela clínica, cruzou seu olhar com o assassino tornando-se sua nova obsessão.

A trama não é exatamente inovadora. O que garante um bom entretenimento aqui é a manha do diretor Michele Soavi para criar ambientes e atmosferas. Conduzidos por sua câmera que percorre todos os espaços do enorme teatro onde se desenrola boa parte da ação, somos envolvidos por aquela trupe de atores, com seus problemas, aborrecimentos e medos genuínos, tão logo a ação se inicia. 


Apesar de usar uma máscara que não possibilita a sua identificação, à moda dos slashers americanos, aqui o mistério sobre a identidade do assassino não existe, com sua grande máscara de coruja criando um forte apelo visual para o filme, e que de forma alguma, dado o contexto em que a trama se desenvolve, soa forçado ou deslocado. Sem maiores mistérios sobre a identidade do assassino, sobra tempo e espaço para o suspense criado a partir da perseguição do assassino aos jovens atores, o que rende ótimas cenas.

Os personagens também ganham por serem críveis e fugirem absolutamente do estereótipo clássico, e se o extermínio do elenco pelo cara de coruja se dá de forma rápida e agressiva, o terceiro ato se inicia basicamente como um número solo da final girl da rodada, que durante a meia hora final do filme percorre os espaços vazios do teatro e luta de forma genuína pela sua sobrevivência. 

O Pássaro Sangrento é um dos bons slashers dos anos 1980. Curioso como, pelo que ando percebendo, os piores filmes vem daquelas franquias mais aclamadas (Sexta-Feira 13, Halloween, etc), sendo esses produtos isolados, perdidos debaixo da fama imerecida de algumas sequências toscas de franquias famosas, verdadeiras pérolas que, mesmo nos dias de hoje, correm o risco de cair facilmente no esquecimento geral. O Pássaro Sangrento é uma dessas pérolas que merecem um pouco mais de visibilidade, pois além de bem elaborado, garante uma diversão que não nos aborrece. O filme tá disponível na plataforma Darkflix.

Nota: 3,8/5



Ficha Técnica

Título original: Delíria
Ano: 1987 - País: Itália
Direção: Michele Soavi
Roteiro: George Eastman, Sheila Goldberg
Produção: Joe D'Amato, Donatella Donati
Elenco: David Brandon, Barbara Cupisti, Domenico Fiore, Robert Gligorov, Mickey Knox, Giovanni Lombardo Radice, Clain Parker, Loredana Parrella, Martin Philips, James Sampson


TRAILER:

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