quinta-feira, 1 de maio de 2025

"Trilogia do Inferno" de Lucio Fulci: hiperfoco zumbi cheio de arte.

 Acabei de assistir aqui numa tragada única os três filmes da Trilogia do Inferno, de Lucio Fulci. Apesar de tramas independentes, são três obras de temática semelhante e que parecem ter como ponto comum um mal iminente ocasionado pelo suicidio de um padre no primeiro filme - se formos forçar uma lógica de sequência, que na realidade, não há. Também, os filmes foram gravados em um curto período de tempo (todos foram lançados entre 1980 e 1981), e já seguindo o embalo de Zombie 2, que Fulci havia lançado um ano antes, em 1979. 

Outra coisa em comum aos três filmes é a presença da atriz Catriona MacColl, que dá vida às três protagonistas, uma boa presença em cena nos três trabalhos, todos pontos altos da carreira de Fulci. 


PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS (1981)


A primeira parte da trilogia envolve uma médium, Mary (Catriona Maccoll), que tem a visão de um padre cometendo suicídio, ato que, de acordo com ela, liberou um “mal” que se consolidaria no Dia de Todos os Santos. Esse mal é associado a abertura das “sete portas do inferno”, que trarão mortos de volta à vida. 

Após a visão, Mary é dada como morta, mas acorda logo após seu sepultamento, quando é salva pelo jornalista Peter (Christopher George), que está investigando exatamente a sua morte. Esta é de cara uma das cenas mais angustiantes dos três filmes. Mary acorda dentro do caixão já há sete palmos da superfície do solo, e apenas fragmentos de seus gritos desesperados são ouvidos por Peter lá de cima. Os momentos de dúvida de Peter sobre o que está ouvindo ou não, até a conclusão de que os sons vem de um caixão já enterrado são de pura tensão, daqueles que só Fulci sabe criar. 

Ambos resolvem ir até a cidade em que o padre se suicidou na tentativa de reverter o “grande mal” que se desencadeará em breve, mas percebem que, desde o suicídio, coisas estramnhas passaram a ocorrer no lugarejo. Logo, se juntam a Gerry (Carlo de Mejo) e Sandra (Janet Agren), moradores que também estão às voltas com as estranhezas envolvendo os mortos da cidade. 

Apesar dos erros já comuns a esse tipo de filme, como os mortos saindo de suas tumbas como se não estivessem presos em caixões, o resultado final é um bom filme de zumbis em que a trama se desenvolve numa escala menor, envolvendo apenas os poucos habitantes de uma cidade pequena, além de ser um dos poucos filmes (na verdade, não lembro de outro), que associa uma epidemia zumbi à paranormalidade. 

Aqui temos também algumas das cenas mais brutais da filmografia de Fulci, do tipo que o qualificam com a alcunha de “padrinho do gore”. Também contém a melhor música dos três filmes, embalando sequencias sinistras. De menor, só a tentativa de associar os eventos na cidade ao fato de ali ter sido palco da queima de bruxas na Inquisição. 

4/5 


Titulo original: Paura nella città dei morti viventi

País: Itália

Ano: 1981

Direção: Lucio Fulci

Elenco: Catriona Maccoll, Christopher George, Carlo de Mejo, Janet Agren








TERROR NAS TREVAS


Na segunda parte, Fulci segue em terreno sobrenatural e nos apresenta, em parte, a mitologia que embasa a questão das tais portas do inferno. A trama se passa em uma destas ditas portas: um hotel assombrado, conhecidíssimo localmente devido o desaparecimento de pessoas, e linchamento de um bruxo décadas antes. Abandonado, o hotel se tornou herança de Liza (Catriona Maccoll), que tenta reformá-lo e pô-lo para uso, mas é obrigada a lidar com as maldições que contaminam o lugar. 

É considerado um dos melhores de Fulci. Particularmente, considero o mais fraco da trilogia, apesar de ser ainda muito bom. Conta com várias sequências de arrepiar, e é aqui que os zumbis dão de cara pra valer. Mas é um filme cheio de furos e, apesar de os excessos gráficos divertirem, vai por um caminho que não curti muito, apesar de ser um caminho lógico e estar escancarado inclusive no título inglês. 

3,8/5


Titulo: ...E tu vivrai nel terrore! L'aldilà

País: Itália

Ano: 1981

Direção: Lucio Fulci

Elenco: Catriona Maccoll, David Warbeck







A CASA DO CEMITÉRIO (1981)


A Casa do Cemitério finaliza a saga infernal de Fulci com a história da família Boyle, que aluga uma ~ casa ~ que contém um ~ cemitério ~ em seu terreno, por seis meses enquanto o pai, Norman Boyle (Paolo Malco), finaliza o trabalho de pesquisa de um colega. Este colega também estava hospedado na tal casa do cemitério e obcecado pelas estranhas coisas que aconteciam em seu interior, até que é encontrado morto por motivos misteriosos. 

Óbvio que a família Boyle logo também começa a testemunhar estas estranhezas - que envolvem barulhos, sons de vozes, e uma estranha presença que parece se esconder no porão.

A parte final da trilogia foge um pouco do que foi feito nas partes anteriores. Mais atmosférico e soturno, A Casa do Cemitério também tem forte apelo sobrenatural, apesar de a trama em si passar longe disso. É o único dos três filmes que propõe uma explicação científica quanto aos estranhos acontecimentos narrados - ainda que seja uma explicação fajuta.

Tem os melhores climas da trilogia, e sequências de gelar o coração, especialmente envolvendo o filho do casal Boyle, Bob. Fulci inclusive parece usar de todos os artifícios possíveis para captar o terror em cena. Câmera e edição não param um minuto, com a mesma sequência sendo mostrada por diversos ângulos, enquadramentos diferentes e muitos closes, especialmente nos olhos do elenco, em cortes rápidos que acrescentam muita tensão às cenas.  

O ato final é muito teatral, o que retira boa parte da angústia gerada nas duas primeiras partes do filme. Apesar de captar boas tomadas, a “beleza” do quadro apresentado só se justifica com muitos furos na condução do encerramento da trama, mas passamos pano pois, cinema né?!

4/5  


Titulo: Quella villa accanto al cimitero

País: Itália

Ano: 1981

Direção: Lucio Fulci

Elenco: Paolo Malco, Catriona Maccoll, Giovanni Frezza






Uma coisa que eu gostaria de ressaltar, não só sobre estes filmes, mas algo que parece ser comum a toda a filmografia de Fulci, que são os bons roteiros. Vendo estes filmes em sequencia, me pareceu não haver cenas inúteis, ou diálogos inúteis. Tudo é importante e crível, seguindo a continuidade lógica dos eventos. É possível se ver protagonizando vários dos diálogos em cena, ou com os tipos de problemas que as personagens enfrentam. Uma das coisas que mais odeio nos filmes estadunidenses, e especialmente nas séries, é quando se pergunta algo a alguém e a personagem não responde. Fala todo tipo de coisa, grita, pede socorro, mas não responde coisas básicas, como “o que aconteceu?, “o que houve?”. Algo irritante, só pra empurrar um clímax ou momento importante pra frente. 

Mas enfim. Após a trilogia infernal, Fulci se dedicou a uma sequência de filmes inspirados em Nova York, tendo giallo como orientação. Desta leva, saíram o Estripador de Nova York (1982), o Bebê de Manhattan (1982), e Nova York - Cidade Violenta (1984). Em breve trago algo sobre esta trinca animalesca, obras de arte do giallo. Inté lá!


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