domingo, 26 de julho de 2020

April Wine - April Wine (1971)


Andando aqui pelas playlists acabei tropeçando sem querer na estreia do April Wine, de 1971. Àquela altura, tratava-se de mais um grupo canadense de hard rock. Apesar de artistas e bandas canadenses terem certo respaldo em termos de qualidade, quando se comparados aos estadunidenses, talvez tenha sido difícil para a turma do April Wine se destacar lançando seu trabalho de estreia num ano onde as bandas expoentes do estilo que eles se propunham levantar a bandeira estavam lançando seus melhores e maiores trabalhos. 

Por isso o álbum April Wine soe "menor" num primeiro instante, e ele é, vamos combinar, se compararmos aos grandes daquele ano como Zeppelin, Sabbath e Deep Purple, e numa esteira onde estava sendo lançado um álbum atrás do outro por quase todas as bandas que estavam lançando discos. 

Mas menor não quer dizer ruim, e pra mim foi uma grata surpresa me deparar com essa estreia, mesmo sabendo que o auge da banda só viria dez anos depois. Em April Wine, a banda vem fazendo um hard rock bonito, não farofa, que talvez se desvencilhe dos reflexos da psicodelia mais a frente, mas cuja tendência aponta para uma versão canadense do Wishbone Ash - que naquela altura já tinha lançado seu primeiro disco e, talvez, o segundo. 

Oceana abre o disco. Linda e curtinha, e com uma qualidade "etérea", talvez provocada pelos arranjos, que nos faz flutuar junto com ela. Há outras faixas ótimas pra quem curte boas viagens de guitarra, solos esticados e elaborados, e nem por isso com menos feeling. Fast Train (o single do álbum), Listen Mister (com muita percussão) e Page Five seguem bem essa linha. Can't Find The Town é mais minimalista, mas não chega a ser uma balada, e Wench soa como algo dos primeiros álbuns do Love - com mais guitarras. 

A banda nesse momento era composta por Jim, Ritchie e David Henman (devem ser parentes) e Myles Goodwyn. April Wine (o álbum) é um cinquentão soft e despretensioso, que ainda lhe sacode quase sem querer. Não é tão falado, nem a é a pedra fundamental do estilo, mas tem seu valor. 



April Wine - Oceana 

domingo, 19 de julho de 2020

A Negra de... (La Noire de..., 1966)


Esse é um daqueles filmes que nos deixa reflexivos. O tema poderia não ser tão atual. Poderia ser uma realidade distante, do passado. Poderia ser, ainda, uma viagem muito localizada, regional. Mas não é nada disso. A força desse filme não está em apenas em sua atualidade e onipresença no mundo. Para além de um retrato frio tanto da putrefação espiritual dos algozes quanto das feridas na alma de suas vítimas, o filme do senegalês Ousmane Sembène traz algo mais. 

Apesar do aspecto social do filme ser gritante, o diretor não deixa de mostrar a ação a partir de uma perspectiva muito individual, pessoal, por parte da protagonista Diouana. Ela, enquanto mulher  jovem e sonhadora, em nenhum momento parece questionar as razões maiores para o que vivencia em sua primeira viagem para o estrangeiro, providenciada pelos seus patrões.

O filme acompanha toda a viagem da protagonista, da busca por emprego, à contratação como babá, a descoberta do amor,  à mudança com a família que a contrata pra outro país, e a transformação da alegria em apatia, da destruição dos sonhos, até o sufocamento total de sua pessoa. Ela não entende porque as coisas não estão saindo como ela deseja, e passa a nutrir uma raiva contida, profunda, silenciosa, ressentida contra os patrões, eles que a colocarão em tal situação.

Mas ela não se contenta com o mero desligamento do vínculo empregatício. Até porque não era disso que se tratava. Era escravidão doméstica. Ela podia não perceber nesses termos mas sentia em sua alma. Seus algozes deterioraram sua autoestima. Nem os rituais diários para manter o espírito altivo a salvaram. Pelo contrário, estes foram atacados constantemente pelos patrões. Não, ela não vai simplesmente embora. Ela quer ensinar uma lição, uma lição que não será aprendida com gritos, rebeldia, ou queixas ao serviço social. É gente rica, o dinheiro compra a consciência. Ela deseja ferir a alma deles, de uma forma que eles jamais irão esquecer....


Filme completo no canal Cine Antiqua Purple, no Youtube

domingo, 12 de julho de 2020

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972)


Petra von Kant é feita de carne. Não se engana quem a ver como essa mulher altiva e independente, que enfrentou o marido para viver sua verdade, e construir seu sucesso profissional e financeiro. Que banca a mãe e a filha e gere uma carreira de sucesso. Que é reconhecida, tem admiradores, e até uma escrava pessoal, que a admira pela persona construiu, e não pela sua humanidade. Petra é tudo isso e mais. Ela é fascinante. Quase hipnótica em sua manifestação. Detalhista. Reconhece o valor de seu próprio esforço, e não deseja menos do que sabe que merece. 

Mas Petra vai além. É gente como a gente, e quando se apaixona, falha miseravelmente. Ela tem alma. Ou melhor, ela constroi sua alma. Aperfeiçoa. Modifica. Vivencia intensamente as próprias experiências, principalmente as dúvidas e tristezas, sorvendo até a última gota de cada uma delas. Racionaliza, observa os detalhes. Lapida as arestas dos sentimentos, pois intuitivamente sabe que caminho da salvação é o amor. O amor que não sentimos, apenas intuimos.

O que sentimos, comumente, é paixão, e no terreno da paixão, quem manda é o ego. E nesse terreno arenoso, Petra desliza, com a sabedoria de uma serpente, e cerca seu objeto de desejo. Vê beleza e, por isso, deseja tudo que o compõe. Sua beleza exterior, e a história por trás daquela beleza. Como toda paixão, não vê o outro como  outro. Vê, de forma ampliada, aquilo que se deseja. Mas ninguém sabe do universo do outro. Nem o que o outro pensa, ou suas motivações. E se sabe, não pode mudá-lo.

Petra sabe dos perigos do controle, pois já foi controlada, e no entanto, controla como ninguém. Tem poder. Cria ilusões e imagens de si, para si e para os outros. Cria atmosferas, para si e para os outros. Se auto engana, a fim de possuir aquilo que não é seu. Algo idealizado. Que sequer é real. Mas ela "achou" que poderia ser. E assim, sofre. Sofre como todo diabo que tem o ego ferido. Sofre três vezes mais para não faltar com a palavra, e ser o que disse ser na hora do bote. E por isso, amaldiçoa. Violenta. Violenta-se. Transforma-se no pior dos seres. 

Mas seu desejo de desenvolver sua alma é maior. Sua inclinação ao eterno é seu motor. E ela sabe inconscientemente, e confirma com suas experiências, que amar é não reter. Vai compreendendo, ao longo da vida, e mais a cada experiência vivida, que há um caráter impessoal no amor, que dispensa o apego, uma consciência que as vezes não vem da mera inspiração. às vezes precisa ser vivenciada, analisada, criticada, pisada, sofrida. É a lapidação da alma. A alma de alguém não é "bonita" ou bela, se é que se pode qualificar dessa forma, de graça. Há esse desejo de perfeição. E o desejo atrai (busca) as experiências que levarão a isso. E no processo de maturação do ego, o sofrimento é inevitável. Dele virá o aprendizado. Assim, algumas pessoas divinizam o sofrimento. Algumas gostam de senti-lo na pele. Outras aproveitam as oportunidades e crescem com elas. E há outras, ainda, que dirão que não, e chutam pra longe qualquer indício que leve a algo parecido a ideia de sofrer. Que não precisa disso, e que isso não tem nada a ver com aprendizado e tampouco com a vida. Bom, não é assim com Petra. Nem comigo, e nem com muitas pessoas que conheço.  Mas os tempos estão mudando. 


Filme completo no canal Cine Antiqua Purple, no youtube.

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...