Esse é um daqueles filmes que nos deixa reflexivos. O tema poderia não ser tão atual. Poderia ser uma realidade distante, do passado. Poderia ser, ainda, uma viagem muito localizada, regional. Mas não é nada disso. A força desse filme não está em apenas em sua atualidade e onipresença no mundo. Para além de um retrato frio tanto da putrefação espiritual dos algozes quanto das feridas na alma de suas vítimas, o filme do senegalês Ousmane Sembène traz algo mais.
Apesar do aspecto social do filme ser gritante, o diretor não deixa de mostrar a ação a partir de uma perspectiva muito individual, pessoal, por parte da protagonista Diouana. Ela, enquanto mulher jovem e sonhadora, em nenhum momento parece questionar as razões maiores para o que vivencia em sua primeira viagem para o estrangeiro, providenciada pelos seus patrões.
O filme acompanha toda a viagem da protagonista, da busca por emprego, à contratação como babá, a descoberta do amor, à mudança com a família que a contrata pra outro país, e a transformação da alegria em apatia, da destruição dos sonhos, até o sufocamento total de sua pessoa. Ela não entende porque as coisas não estão saindo como ela deseja, e passa a nutrir uma raiva contida, profunda, silenciosa, ressentida contra os patrões, eles que a colocarão em tal situação.
Mas ela não se contenta com o mero desligamento do vínculo empregatício. Até porque não era disso que se tratava. Era escravidão doméstica. Ela podia não perceber nesses termos mas sentia em sua alma. Seus algozes deterioraram sua autoestima. Nem os rituais diários para manter o espírito altivo a salvaram. Pelo contrário, estes foram atacados constantemente pelos patrões. Não, ela não vai simplesmente embora. Ela quer ensinar uma lição, uma lição que não será aprendida com gritos, rebeldia, ou queixas ao serviço social. É gente rica, o dinheiro compra a consciência. Ela deseja ferir a alma deles, de uma forma que eles jamais irão esquecer....
Filme completo no canal Cine Antiqua Purple, no Youtube

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