domingo, 12 de julho de 2020

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972)


Petra von Kant é feita de carne. Não se engana quem a ver como essa mulher altiva e independente, que enfrentou o marido para viver sua verdade, e construir seu sucesso profissional e financeiro. Que banca a mãe e a filha e gere uma carreira de sucesso. Que é reconhecida, tem admiradores, e até uma escrava pessoal, que a admira pela persona construiu, e não pela sua humanidade. Petra é tudo isso e mais. Ela é fascinante. Quase hipnótica em sua manifestação. Detalhista. Reconhece o valor de seu próprio esforço, e não deseja menos do que sabe que merece. 

Mas Petra vai além. É gente como a gente, e quando se apaixona, falha miseravelmente. Ela tem alma. Ou melhor, ela constroi sua alma. Aperfeiçoa. Modifica. Vivencia intensamente as próprias experiências, principalmente as dúvidas e tristezas, sorvendo até a última gota de cada uma delas. Racionaliza, observa os detalhes. Lapida as arestas dos sentimentos, pois intuitivamente sabe que caminho da salvação é o amor. O amor que não sentimos, apenas intuimos.

O que sentimos, comumente, é paixão, e no terreno da paixão, quem manda é o ego. E nesse terreno arenoso, Petra desliza, com a sabedoria de uma serpente, e cerca seu objeto de desejo. Vê beleza e, por isso, deseja tudo que o compõe. Sua beleza exterior, e a história por trás daquela beleza. Como toda paixão, não vê o outro como  outro. Vê, de forma ampliada, aquilo que se deseja. Mas ninguém sabe do universo do outro. Nem o que o outro pensa, ou suas motivações. E se sabe, não pode mudá-lo.

Petra sabe dos perigos do controle, pois já foi controlada, e no entanto, controla como ninguém. Tem poder. Cria ilusões e imagens de si, para si e para os outros. Cria atmosferas, para si e para os outros. Se auto engana, a fim de possuir aquilo que não é seu. Algo idealizado. Que sequer é real. Mas ela "achou" que poderia ser. E assim, sofre. Sofre como todo diabo que tem o ego ferido. Sofre três vezes mais para não faltar com a palavra, e ser o que disse ser na hora do bote. E por isso, amaldiçoa. Violenta. Violenta-se. Transforma-se no pior dos seres. 

Mas seu desejo de desenvolver sua alma é maior. Sua inclinação ao eterno é seu motor. E ela sabe inconscientemente, e confirma com suas experiências, que amar é não reter. Vai compreendendo, ao longo da vida, e mais a cada experiência vivida, que há um caráter impessoal no amor, que dispensa o apego, uma consciência que as vezes não vem da mera inspiração. às vezes precisa ser vivenciada, analisada, criticada, pisada, sofrida. É a lapidação da alma. A alma de alguém não é "bonita" ou bela, se é que se pode qualificar dessa forma, de graça. Há esse desejo de perfeição. E o desejo atrai (busca) as experiências que levarão a isso. E no processo de maturação do ego, o sofrimento é inevitável. Dele virá o aprendizado. Assim, algumas pessoas divinizam o sofrimento. Algumas gostam de senti-lo na pele. Outras aproveitam as oportunidades e crescem com elas. E há outras, ainda, que dirão que não, e chutam pra longe qualquer indício que leve a algo parecido a ideia de sofrer. Que não precisa disso, e que isso não tem nada a ver com aprendizado e tampouco com a vida. Bom, não é assim com Petra. Nem comigo, e nem com muitas pessoas que conheço.  Mas os tempos estão mudando. 


Filme completo no canal Cine Antiqua Purple, no youtube.

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