sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Ceddo (1977)

Em 2020, já nos acostumamos a certas discussões. A relação política x religião se entranhou de tal forma na nossa sociedade e tantas reflexões já foram feitas e continuam acontecendo sobre isso, seja em estudos, artigos, em séries de TV, HQs e até novelas, que quando o tema surge de forma tão explícita numa trama, mesmo em trabalhos mais antigos, não surpreende assim, de imediato.  

Em Ceddo, Ousmane Sembène nos traz essa discussão novamente, dessa vez num ambiente tribal, em algum ponto da quente África subsaariana, provavelmente o Senegal, país de origem do diretor. A localização no tempo é difícil de precisar. A internet aponta para um momento entre a conversão dos senegaleses ao islamismo e a colonização francesa, o que nos remonta a algum momento antes do século XX, mas torna difícil precisar quando, já que a islamização dessa região na África, também de acordo com a internet, começou por volta do século X (acredito que se passe entre fins do século XIX e início do século XX).

Aqui temos, mais uma vez, aquele conflito talvez primordial entre religião e identidade cultural. Enquanto as religiões dominantes tentam absorver as culturas "menores", estas resistem. E é isso que essa obra nos apresenta, mais uma dentro da filmografia de Ousmane, que parece bater de forma muito enfática nessa tecla. 

Dessa forma, para os olhos de quem vê pelo filtro do século XXI, o interessante aqui é observar o ambiente, a cultura. As roupas, os costumes, as relações, as formas de pensar, a linguagem, que apesar de simples e basear o pensamento em máximas diretas ("o mesmo vento que derruba o baobá só dobra o caule do trigo", entre outras), tem muita profundidade existencial. E apesar de parecer tudo tão distante da nossa realidade, não estamos nada longe do que vemos em cena. 

Ainda vivenciamos as mesmas disputas por poder político, poder religioso, golpes, corrupção, e uso da força para subjugar. Esse é o modus operandi de uma parte da humanidade desde o início dos tempos, e, juntamente com o sexo (que também tem suas implicações no poder) parece ser a única coisa que ultrapassa as diferenças culturais e regionais. Já o modus operandi de outra parte da humanidade é resistir (coisa que os ceddo, algo como "os de fora", ou "fora da lei", fazem commuita firmeza), pois é assim que se sobrevive.   



FILME COMPLETO:



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