terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Crise (Kris, 1946)


A primeira vez que vi uma história de alguém infeliz cujo motivo da infelicidade é justamente a felicidade (!!) foi no livro O Fardo (1956) de Agatha Christie. Não sei se expliquei isso direito mas é isso mesmo. O sofrimento da protagonista na trama vem do fato de ela ter todos os ventos soprando a seu favor, o que provoca muitas reviravoltas ao longo da sua vida e na vida daqueles que a rodeiam.

O primeiro filme dirigido pelo Bergman, esse Crise, aponta nessa mesma direção, e chegou primeiro em relação ao livro da Agatha Christie. A crise aqui irrompe na vida da jovem Nelly através de outras três personagens que, vejam só, por não enfrentarem suas próprias crises, projetam toda a sua felicidade em cima da jovem que, imatura, sonhadora e ainda submissa às paixões, não tem força para decidir por si. 

Esse primeiro trabalho do diretor sueco já é rico em profundidade psicológica, apesar de não ousar tanto em simbologias como faria mais a frente. Bergman aqui já nos mostra que as narrativas cotidianas são recheadas de intervalos obscuros, onde as forças da nossa pisquê se perdem e passamos a viver de forma automática ou meramente reativa. Mas chega uma hora em que essas forças precisam ser resgatadas - é o momento da crise. 

De um modo muito distanciado, podemos absorver as questões principais da narrativa por meio do conflito de mentalidades existentes entre as pessoas que moram no interior e as que moram na capital, ambientes que dividem a trama. As diferenças são gritantes e se relacionam diretamente com os medos, ânsias e alegrias (se é que se pode chamar de alegria - 'prazeres' é uma palavra melhor) e demais nuances psicológicas dos personagens. Apenas Nelly escapa a Samsara intransponível, e apenas porque ainda não conhece a vida o suficiente. Mas logo ela vai conhecer e ter de decidir por si.


Filme completo na página do Cine Antiqua Purple, no youtube: 

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