segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Peter, Paul and Mary (1962)

É difícil olhando daqui (2020) saber qual a realidade "radiofônica" de um ano específico, ainda mais quando esse ano já faz quase 60 anos rssss mas recentemente andei fazendo as pazes com a música dos EUA dos anos 60 e, inspirado por um livro que estou lendo, de autoria de um grande amigo, ando imerso na bolha cultural do ano 1961. 

Essa virada dos anos 50 para os 60 nos Estados Unidos foi marcada por muitas mudanças, grandes mudanças, daquelas que definem os rumos do futuro. Tendo como pano de fundo a luta pelos direitos civis, que ganhou uma força extraordinária com a eleição de John Kennedy e começou a se infiltrar inclusive nos lares confortáveis da América branca, uma mudança cultural que se alastraria (na verdade, se evidenciaria) por todo o mundo ocidental nos anos seguintes, começou a ser fomentada ali.

A popularização do jazz e do blues rural e elétrico, estilos negros por excelência, deu a tônica do ambiente contracultural dos anos anteriores e alcançou um patamar que até então não havia atingido naquela virada de década, com muitos dos jazzman lançando seus grandes discos naquele período de grande fertilidade (John Coltrane tem até quatro álbuns (ou mais) lançado em apenas um ano ali, enquanto Ornette Coleman "fundava" o free jazz com seu disco Free Jazz, antecipando em uma década o estilo que, até onde eu entendo, só ganharia força na virada para os anos 70). 

Paralelo a isso, a politização da juventude ocasionada pela guerra protagonizada pelos EUA no sudeste asiático, assim como das lutas antisegregacionistas encabeçadas por novas lideranças negras também serviram de apoio para o resgate de estilos tradicionais pelos jovens brancos e engajados, daquele período, que "ressucitaram" o blues rural e o folk tradicional, dessa vez, em formato de música de protesto. Essa retomada foi protagonizada por artistas como Joan Baez, Dave Van Ronk e outros mais ou menos populares que, seguindo o embalo dos tempos, ajudaram a "asfaltar" a estrada contracultural que gerações anteriores já vinham batalhando, como a turma do jazz, do blues, os beatnicks, etc.

O trio Peter, Paul & Mary foi um dos grupos que ascendeu nesse período de resgate, sendo um dos primeiros a obter grande sucesso radiofônico, antes mesmo de Bob Dylan. O trio misturava folk raiz e composições próprias com harmonias vocais que certamente influeciariam outros grupos populares que surgiriam naquela década (o que não quer dizer que tenham sido os primeiros a apostar nisso). Albert Grossman, produtor musical que se tornou conhecido por apadrinhar Bob Dylan, sacou o potencial dos tempos e fez do trio Peter Paul and Mary uma "máquina folk", suave e consistente - e acessível, à moda do que a juventude "intelectual e politizada" do período reivindicava em termos de entretenimento. 

Nesse seu primeiro álbum, lançado em 1962, somos presenteados (sim) com maravilhosas releituras de nomes como Reverend Gary Davis, Pete Seeger, Hedy West (cantora folk daquela geração), Dave van Honk (idem), além de alguns canções tradicionais já clássicas (This Train, Sorrow, It's Raining) e outras  de autoria própria (Autumn to May, Cruel War, e a maravilhosa apesar de muito cristã pro meu gosto rsss Early in the Morning).

O compilado, de fato, reflete bem o momento político daquele ano, trazendo canções que apontam, entre outras coisas, para a realidade do conservadorismo e o desejo por salvação, guerra e morte, além de amor e temas melancólicos. O resgate de If I Had a Hammer, If I Had My Way e Where Have All The Flowers Gone?, clássicos do cancioneiro folk dos EUA, são impactantes dentro desse contexto (não que já não fossem), e figuram como os pontos altos do disco. Clássicão!


Pra curtir no Deezer.

Peter, Paul and Mary - If I Had a Hammer

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...