sábado, 6 de março de 2021

Crime Scene: Vanishing of Cecil Hotel (2020): hotel mal assombrado



O caso do desaparecimento da jovem Elisa Lan, canadense e uma das "vítimas" do Cecil Hotel, hotel famoso e completamente mal assombrado - e isso sou eu que estou afirmando, apesar de não estar falando sobre "assombrado" da forma como provavelmente se imagina quando se ouve essa palavra - localizado no centro de Los Angeles, California, é o foco da série documental Crime Scene: Vanishing of Cecil Hotel, em cartaz no Netflix.

Esse foco do programa na morte da canadense de ascendência chinesa parece uma premissa errada para um protagonista como aquele (o próprio hotel), e acaba se tornando uma pegadinha para aqueles que estão na busca de mistérios sem solução, mas, curiosamente, é justamente aí que a coisa fica interessante.

O hotel foi construído em 1924 e nasceu como hotel de luxo, mas não resisitiu à crise econômica do fim da década, iniciando, já no momento seguinte, seu processo de decadência que crescia paralelamente à sua fama de local infame. No centro de Los Angeles, nos arredores do Cecil, o desgaste que seguiu à crise levou à acumulação de moradores de rua em toda a região, formando praticamente um "bairro" conhecido por "skid row", e cujas principais características são a grande concentração de vulnerabilidade social, algo que frequentemente está acompanhado de situações de violência. Essa condição levou a uma inevitável mudança do público frequentador do hotel, talvez obrigando a queda dos preços do serviço, e abrindo o espaço para o Cecil se tornar a moradia temporária de sem tetos e desabrigados, além de atrair bandidos, assassinos, e viciados. Pra se ter uma ideia, o hotel foi lar temporário de figuras "célebres" no mundo do crime, como os serial killers Richard Ramirez, o Night Stalker, e o estripador de Viena, Jack Underweger. No documentário, a última gerente do Cecil (porque ele foi vendido em 2017) diz que em dez anos que trabalhou no local, ocorreram "apenas" 80 mortes, entre assassinatos, overdoses e suicídios. A morte de Elisa nem se associa a essa realidade, mas foi marcada por eventos que se perderam na atmosfera de mistério que atravessa o prédio. 

O mais interessante desse documentário pra mim foi, além de saber sobre o skid row, observar a curiosidade mórbida das pessoa chegar a patamares que... até que não são tão estranhos assim nos dias de hoje. O clima de mistério por trás do desaparecimento de Elisa incitou os fãs de mistério a investigarem o caso junto com a polícia via internet, mas não em solidariedade a Elisa, mas sim para reforçar a fama do hotel (percepção minha) - ou sendo ainda mais psicológico, desejosos de que o que queriam fosse verdade, e tentando manipular a realidade para isso. Parece WandaVision mas não é. 

Vários internautas seguiram investigações próprias apoiadas nas informações divulgadas pela polícia, como relatórios, e vídeos, com a investigação se tornando quase interativa. O perigo de proceder uma investigação com esses elementos dessa maneira parece óbvio, e realmente é: a galera viajou, de teorias da conspiração até bem sacadas contra o Governo, que, segundo eles, poderiam estar tentando acabar com os moradores de rua do skid row (olha só), à acusação de pessoas inocentes pelo crime, passando pela negação dos fatos. Não surpreende o mundo está no lugar psíquico que está hoje. 

Ainda assim a série conseguiu em seus poucos episódios passar a limpo a história do lugar. O fato de ser até óbvio de onde vem a quantidade de eventos mórbidos que ali ocorrem, na realidade não o torna menos assombrado. Não assombrado da forma retratada em American Horror Story: Hotel, onde o diretor da série, Ryan Murphy, presta homenagem ao Cecil Hotel na temporada mais romântica e triste (no bom sentido) do programa, mas assombrado da forma de um lugar onde assassinatos ocorreram, suicídios ocorreram, e todo tipo de violência física e psicológica que afetou não apenas aqueles que protagonizaram esses momentos sombrios como também impregnou esses acontecimentos na memória do lugar, à moda dos filmes de terror e dos sistemas de crenças mais "holísticos". Um desavisado, mais influenciável, menos atento,menos estável e, por isso, menos resistente às ~ energias ~, poderia facilmente se perder naqueles corredores. Foi o que aconteceu com Elisa Lan.


Trailer: 

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