domingo, 7 de março de 2021

The Bad Seed (1956): pure evil.


O tema "crianças malignas" não é nenhuma novidade no cinema e na TV. A despeito do boom de filmes que tivemos com essa temática a partir da Samara Morgan, do filme O Chamado - que já era uma cópia até razoável do sinistro Ringu, filme assombrado pela poderosa Sadako, as crianças já assombram as telas do cinema há dezenas de anos. O que não faltam são clássicos e mais clássicos com personagens tão fofos quanto hediondos, nos fazendo pensar - ou nos induzindo a crer - que o mal existe e pode ser inato à algumas pessoas.

Impossível não se sentir incomodado com personagens como a Esther de A Orfã, ou o Henry de Anjo Mau. O magricela Michael Myers, de Halloween, ao se revelar durante aquela cena inicial do clássico de 1978 é de certa forma indicador disso. "O olhar frio e sem emoção denunciava um mal desconhecido" (como sugere Dr. Loomis), que poderia até ser resultado de uma infância perturbada, mas certamente não era o caso ali - isso só pra citar aqueles que não estavam possuídos por demônios, nem eram zumbis e nem espíritos atormentados. Aí a lista ficaria imensa. 

Um dos exemplos mais clássicos de criança perturbada no cinema, e não lembro de nenhuma outra anterior a essa, é o de Rhoda Penmark. O anjinho em questão é protagonista e antagonista do clássico The Bad Seed, romance ficcional lançado em 1954, de autoria de William March, e que ganhou uma excelente versão para o cinema em 1956. Pelo que percebo, é um filme inacreditavelmente menos lembrado entre os clássicos da época de ouro do cinema holywoodiano, e é algo até compreensível. The Bad Seed, mesmo hoje, é surpreendente. Diferente e original.

Com formato teatral, assim como a maioria dos filmes daquela época, com 90% da ação acontecendo em um único cenário e com longas cenas e diálogos que nos engolem, The Bad Seed conta a história dessa criança, inocentemente narcisista, mimada e falsa, capaz de fazer tudo para obter aquilo que deseja. Ela quer ser a mais gostada, a mais esperta, a mais notada, e vai passar por cima de quem tiver em seu caminho - inclusive os próprios pais. O roteiro nos põe diversas questões morais a respeito da criação que os pais dão aos filhos, e a melhor forma de impor  limites, e o faz com muita inteligência e sofisticação. No auge de seus, sei lá, entre 8 e dez anos de idade, Rhoda engana a todos, e entre um crime e outro (sim) sempre consegue o que deseja. 

Apesar da habilidade inata para o mal, característica que aos poucos vai sendo percebida pela mãe, Rhoda consegue criar um conflito psicológico que absorve todos em cena, principalmente sua mãe, que tal hora se vê obrigada a tomar decisões drásticas cujas consequencias, naquele momento, não puderam ser medidas. Sua mãe, aliás, se revela a estrela do filme. Os conflitos que enfrenta são divididos brilhantemente com o espectador, mérito da atriz Nancy Kelly, que também é afetado pela questão - o que fazer com Rhoda? Ela é só uma criança, e não faz ideia da gravidade de seu comportamento. Como proceder?!

E uma coisa interessante sobre Rhoda é que ela é uma criança absolutamente comum: bem criada, estudada, com um lar de amor à sua disposição. Muita alegre e atenta - viva - bem diferente de como esse tipo de personagem costuma ser apresentado em cena. Um único porém é uma tentativa, inconclusiva - ainda bem, de associar a psicopatia à genética. Mas na verdade, essa é só mais uma questão que é colocada na roda para fazer o espectador pensar e filosofar sobre a origem do mal. Mas será que podemos chamar de maldade o que uma criança faz sem entender? Ou será apenas uma vontade sem controle, mais forte que qualquer laço de afeto que se possa desenvolver com qualquer coisa que seja viva?

A narrativa, apesar do clima teatral e com "muita conversa", é dinâmica e cheia de ação. Todos os diálogos contém elementos para produzir uma reflexão sobre o mal e sua origem, o que torna o dilema inevitável pelo qual a mãe de Rhoda passa ainda mais dramático. A resolução desse dilema, entretanto, é uma surpresa.


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