quarta-feira, 17 de março de 2021

Sunfighter (Paul Kantner/Grace Slick, 1971): montado na esperançapor dias melhores.


Há um sentimento de nostalgia no ar nos últimos dias, e talvez até por isso mesmo eu ando ouvindo MUITA música. Muita mesmo, principalmente músicas do meu passado adolescente: muito metal e um ou outro som bicho grilo daqueles pra deixar o corpo leve. Aliás, hoje, data em que seria comemorado o aniversário do meu querido Paul Kantner, se fosse vivo, passei os momentos livres do dia ouvindo  trabalhos seus, sem a marca Jefferson Airplane, mas ainda ligados ao grupo - até porque a turma de San Francisco é uma só, parece que todo mundo faz tudo junto.

Os dois trabalhos que me debrucei hoje acabaram sendo o Planet Earth Rock n Roll Orchestra Blows Against The Empire, distopia hippie interplanetária que ouvi pouco mas que sempre me causa uma sensação maravilhosa, como se eu flutuasse dentro de uma bolha tão bem conhecida e explorada na minha adolescência espiritual - que é o som hippie californiano. Outro disco que acabei escolhendo foi o Sunfighter, sempre referido como álbum solo da Grace Slick mas que na verdade é creditado tanto a ela quanto ao Kantner, com participação especial da turma toda: Jack Cassady, Jerry Garcia, David Freiberg, Papa John Croach, Spencer Dryden, Jorma Kaukonen, David Crosby, Grahan Nash... só a nata.

Sunfighter é um disco sombrio. Eu nunca vi nada muito substancial sendo dito sobre ele. As informações que sempre ficaram na minha mente em minhas primeiras pesquisas foram as de que o bebê na capa é a filha de Grace e Kantner, China, e que a música China é sobre ela. Grande coisa! rs Mas dizer que o disco é sombrio é altamente estranho, e penso isso a começar pela análise da capa: um bebê saindo do oceano (útero das formas de vida do planeta) com um por do sol, ou nascer do sol, gritante ao fundo. É de se esperar algo de esperança vendo uma imagem dessa, e talvez seja em esperança que culmine as sombras sob as quais Sunfighter foi composto. Pode ser um sentimento de finalização também, em vez de esperança, e o motor por tras da criação seja a raiva gerada pela falta de esperança em dias melhores. Ainda assim, o disco  não deixa de soar como um pacifico e singelo manifesto.  

Ainda não vi ninguém dizer que Sunfighter de fato é um álbum conceitual, mas eu de cara já afirmo que é sim - e que não se trata de uma viagem sobre a filha do casal de protagonistas. E até se trata, mas não exclusivamente sobre ela. Pra começar, o disco já abre com uma faixa pra lá de sombria e ameaçadora, onde Grace Slick sobe e desce de tom como quem anda numa montanha russa e o recado é basicamente um "vocês vão ter que me engolir", e até aqui ainda é difícil saber do que estão falando. Mas de cara, percebe-se uma referencia à pessoas de poder que "comem" pessoas que que estão abaixo na cadeia social. 

A faixa seguinte fala em tiros, crianças, e em se tratando de um disco lançado em 1971, parece que temos aqui mais um trabalho crítico à guerra. Do Vietnã? Provavelmente, mas pode ser a qualquer outra, já que sempre está tendo guerras por aí, e os Estados Unidos frequentemente estão patrocinando elas de uma forma ou de outra. 

Daqui pra frente uma série de músicas estranhas se apresentam diante de nós, mas um pouco mais longe da crítica mais violenta da primeira faixa. O tom aqui é de alguém que adquiriu um olhar mais terno (talvez devido à experiencia da maternidade/paternidade), e que toma uma postura mais mística/espiritual, não exatamente no sentido esotérico (mas pode ser), mas num sentido mais pacifista mesmo. Um olhar para o passado ao reconhecer os erros de quem veio antes, e um olhar para o futuro ao ver na figura da criança a esperança por dias melhores. 

Todas as faixas são carregadas desse espírito, até a estranha Titanic, que nem chega a ser uma música - tá mais pra uma intervenção sonora, muito bem localizada dentro do álbum e cujo simbolismo é perfeito dentro do contexto. 

É um disco estranho, sem dúvida, com músicas estranhas, como sempre foi estilo do Airplane (ainda que a banda seja muito popular), fruto do humor estranho da dupla principal de compositores. Mas por baixo de toda estranheza, temos canções bonitas que falam de infância, passado, velhice, futuro, vida, morte, e prega a esperança por dias melhores, ainda que o presente de então não fosse dos mais promissores. E quem diria, hoje, exatos 50 anos depois desse lançamento, ainda não é.  


Paul Kantner/Grace Slick - Silver Spoon 

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