Foram os agentes da fortuna que me trouxeram esse texto. Para além dos significados que nos remetem a dinheiro, a palavra fortuna tem outros significados que se atrelam a este, ora mitológicos, ora filosóficos, mas sempre voltados para a percepção da fortuna como destino, acaso, aquilo que a vida lhe reserva - e por “reserva” e "destino" aqui não precisamos entender como predestinação, mas algo que inevitavelmente acontece, não necessariamente no futuro, mas todo os dias, presentemente. Desígnios que podem nos parecer serem “distribuídos” aleatoriamente, mas que pescamos em nosso caminhar. Parece ser, ainda, algo que só percebemos ao contemplarmos nossa própria vida de forma distanciada e imparcial. Ora, tem algo mais inevitável que o acaso que nos acomete?
Quando digo que os agentes da fortuna me trouxeram a esse texto eu quis dizer que foi uma série de acasos que se interligaram e culminaram nessa escrita. Essa energia começou a se condensar quando a série sobre o John Carpenter que engajei aqui no blog começou a sair da minha imaginação. Inevitável a passagem, então, por Halloween, um filme/amigo (rsss) de infância/adolescência. Amigo de adolescência igual é o disco do Blue Oyster Cult, Agents of Fortune, cuja música tema faz parte da trilha sonora de Halloween. Eu precisava de um texto sobre disco de rock pra cumprir meu programa aqui no blog. A data que deu certo para a postagem ser publicada caiu ~ coincidentemente ~ para a semana em que o álbum faz 45 anos. Isso mesmo, o Agent of Fortune faz 45 anos na próxima sexta, dia 21 de maio, e essa foi uma espécie de "confirmação". Pode parecer pouco e até bobagem, mas são essas pequenas coisas que dão brilho à vida e estimulam o movimento. Enxergar com a alma é básico para o viajante cósmico; apreciar as sincronicidades, então, é uma arte. Esses momentos são mais frequentes do que conseguimos atentar, mas já estou começando a divagar, melhor voltar.
Bom, como eu falei no texto do filme Halloween, tempos sombrios na arte tinham chegado pra ficar. No mundo do entretenimento então, nem se fala. Tempos de sensações muito explícitas para consumo, “naked, exposed like rock n’ roll”, como diz a letra de True Confessions. No mundo do rock, a guitarra pesou como nunca com o Hendrix e depois com o Iommi. O movimento hippie tava meio esfarelado, mas o sentimento resistiu à década de 1970 e resiste até hoje em velhos corações. E é assim que, acompanhando o fluxo dos tempos, o Blue Oyster Cult nos apresenta seu trabalho de maior sucesso, bebendo de todas essas fontes que referenciei, e não sendo associado de fato a nenhuma delas.
Temos aqui uma banda que vinha de três álbuns excelentes com uma proposta definida e muitas músicas boas. O som passeava entre o hard rock e o boogie, mas nada que se compare ao Sabbath ou Zeppelin ou Judas Priest ou os coloque nos mesmo patamar que eles. Talvez entre o Humble Pie, Alice Cooper Group, Aerosmith, e outros dessa categoria, menos pela competência da banda e mais pela discografia irregular. Você só nota como a produção desses primeiros discos é “menor” quando ouve Agents of Fortune, o quarto trabalho inédito do BOC. A diferença é grande, e talvez este seja o marco de transição.
A proposta segue sendo pintar temas sombrios com referências ao horror, à ficção científica e outras histórias estranhas com pitadas de ocultismo, algo que o Black Sabbath fazia com mais peso e diversidade, e menos nuances (até onde cheguei). Aqui, a nova produção “limpa” o som do BOC e abre espaço para as ótimas melodias do grupo brilharem ainda mais. Podem dizer que o apelo comercial é maior aqui mas eu não vejo diferença em relação aos discos anteriores quanto a isso.
Não posso afirmar também que seja um álbum conceitual, mas a ideia geral que movimentou a obra está contida ali em todas as arestas, da música à capa, passando pelas letras. A atmosfera pesada já é percebida na primeira faixa. This Ain’t The Summer of Love sim parece música de serial killer (e não Don’t fear the reaper, trilha do Michael Myers rssss). Pode ser percebida como uma alusão ao sexo aqui (tema que atravessa o álbum como uma assombração), e foi nesse sentido que os dizeres “and this ain’t the summer of love” me causaram algum espanto ao fim daquele refrão tão animado. Pode também não querer dizer nada disso e ser só um rock sobre um cara querendo encontrar uma a garota (mas duvido rsss), mas eu lembro logo dos serial killer da época.
Esse arroubo da primeira faixa oscila de várias formas ao longo do disco, a sonoridade é bem diversa, mas sempre tendo o hard rock como base. Don’t fear the reaper, o hit do grupo, por exemplo, segue caminhos mais soturnos, como um stalker que te acompanha nas sombras. Há algo de sombrio, mas a letra, ao contrário, é de esperança, e aconselha a confiar nos "agentes da fortuna" e seguir conforme o fluxo (seasons don’t fear the reaper/we can be like they are), sem temer por algo que pode vir (the wind, the sun or the rain) atrás de você. É a paranoia usada em favor da iluminação, como deve ser rssss.
Em Extraterrestrial Inteligence, um rock sci fi mitológico nos mostra um “agente da fortuna em formação" em diálogo com seu destino ao descobrir uma “terrível verdade” - verdade que vem de outro planeta. O destino o apresenta um dilema que transcende sua vida individual. Revenge of Vera Gemini também visitou outros terrenos para construir sua história. A Vera em questão parece ser uma espécie de bruxa do universo Marvel (universo ao qual o BOC parece estar bem ligado, há outras referências), e inspira uma música sensual, um jogo de atração deslizante com muitas conotações sexuais. Já Morning Final é um interessante relato dos últimos instantes de um homem logo após matar alguém na rua.
Não vou ficar aqui mostrando onde ou como os agentes da fortuna aparecem ou agem nessas músicas, rsss Seria demais ficar forçando uma interpretação que não é necessária. Eles estão em ação o tempo todo em todos os eventos e situações (e em todas as músicas, filmes, etc), boas ou ruims, e especialmente naquelas que redefinem, alteram ou ajustam nossas rotas de vida. São os ventos e águas que “erodem”, e modificam e dão forma ao nosso destino e à nossa alma. É a paranoia, o tesão, o autocontrole. Não é algo que seja físico ou palpável. E pode ser. Pode ser, inclusive, eu e você. Por isso é interessante garantirmos boas ações para o mundo, pois qualquer ação nossa ressoa e pode mudar o curso do destino de alguém. A vida é transformação, e o mago da capa do álbum, já nos alerta pelas cartas de seu tarô. Viver é algo que requer muita responsabilidade (o Saturno astrológico, cujo simbolismo remete à responsabilidade e respeito aos limites, faz sombra ao longo da trajetória da banda na forma de sua logo estilizada, e é ressaltado de forma especial na arte de Agents of Fortune), e o que não faltam são livros e filmes e outras obras que ressoam isso e nos inspiram a refletir as mais diversas possibilidades.

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