Uau! Uau duas vezes! Como fiz bem em rever esse filme!
O insano The Texas Chainsaw Massacre não foi suficiente pro Tobe Hopper descarregar toda a selvageria escondida dentro de sua mente perigosa. E mais uma vez o faz com tanto refinamento que chega a ser estranho. O velho Judd, dono do Starlight Hotel, ultrapassa em muito seus contemporâneos psicopatas, principalmente por se tratar, se for como tô pensando, de uma figura não muito difícil de se esbarrar por ai, mesmo sendo o recorte dessa trama muito específico em sua localização.
Em Eaten Alive, o que temos é a encenação teatral (e excepcional) de uma noite de insanidade, explorando uma mistura de histórias, lendas e personagens do "deep south" norte americano, fonte onde Tobe Hopper mais recorreu até então. Sem dúvida, uma casa deteriorada à margem de um pântano com jacarés, e uma névoa perturbadora formam um cenário muito comum entre as histórias que nos empurram "de lá para cá", seja por meio dos filmes, quadrinhos e até desenhos animados (Bernardo e Bianca usa bem esse clima), e sim, dependendo da proposta, é possível compartilhar dessa atmosfera.
Esse, então, é o ambiente que Tobe Hopper reproduz pra contar a história do velho Judd, em Eaten Alive. A fonte de inspiração original é, mais uma vez, um serial killer real, desta vez um chamado Joe Ball, que nos anos de 1930 nos Estados Unidos (claro), possuía um bar na beira de um lago ou pântano, onde vivia um enorme crocodilo. Na época, Joe matou diversas mulheres e surgiu a lenda de que ele usava as vítimas para alimentar o réptil de estimação.
A despeito de quem quer que seja esse tal Joe Ball, alguém que não merecia ser imortalizado de forma alguma, Tobe Hopper acabou contando a história de um personagem que, considerando o que se comenta sobre (no filme), é muito fácil de identificar na sociedade, principalmente naqueles grupos reduzidos, recolhidos, atrasados culturalmente (comparado à dinâmica das grandes cidades) ou conservadores.
O ator Neville Brand tornou o velho Judd num dos vilões mais insandecidos e furiosos do cinema, com seu Judd, um velho recluso, socialmente inapto, e com uma estranha relação de empatia com o "seu" crocodilo - que veio direto da África e vive tantos anos que é preciso que alguém o mate para que ele morra. Judd se perde constantemente entre "previsões" neuróticas acerca das consequencias das diabruras do seu pet, e numa noite excepcionalmente movimentada, onde há mais interações no jogo do que ele consegue controlar, ele perde a cabeça - ou termina de perder.
Eaten Alive narra uma noite de chacina realizada por um velho que se permite ultrapassar o limite da sanidade. Ele talvez não seja nem pior do que qualquer um dos que riem dele, ou de qualquer outro homem que aparece nesse filme: TODOS atrasados, instáveis, e violentos. As mulheres seguram todo o peso das (problemáticas mas interessantes) relações em cena, relações essas que tornam o filme ainda mais tenso e envolvente. É um filme que rende sustos (!) e cuja condução das cenas de violência rendem muitos momentos que seriam até dispensáveis, mas o impacto também seria outro. Dá medo.
O fato de ter sido todo gravado em um único estúdio talvez colabore para a imersão na história. A direção preza pelos personagens e por uma dinâmica teatral, por meio da qual podemos acompanhá-los e à sua surpresa a cada nova deixa narrativa. Acho essa uma grande qualidade nesse filme, que por si só já o diferencia. A insanidade geral que segue contribui com o choque.
Eaten Alive seguido de The Texas Chainsaw Massacre é a promessa de um novo gênio do terror e, efetivamente, uma pequena obra de arte. Ainda to seguindo na filmografia do Hopper, e pelo pouco que vi, acho que dificilmente ele retoma essa linha, o que deve ter sido muito favorável pra sua saúde.
PS: qualquer semelhança com Psych (1960) deve ser proposital.
TRAILER


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