domingo, 25 de julho de 2021

Lifeforce (Tobe Hopper, 1985): monstros clássicos perfumados com misticismo extraterrestre ou a vida como ela é.


Boa surpresa, esse Lifeforce. To engatinhando na filmografia do Tobe Hopper como quem pisa em ovos. Ele fez coisas realmente insandecidas em seus primeiros trabalhos, mas desde Salem's Lot, a veia "televisiva" dele começa a se destacar. Em Lifeforce, ou Força Sinistra, filme que eu achei que fosse passar batido, temos mais um bom exemplo de uma história simples com desdobrar interessante, ficando a parte chocante para os efeitos visuais (e não os psicológicos, como em The Texas Chainsaw Massacre e Eaten Alive); um esforço realmente interessante quando pensamos que se trata de um filme da primeira metade da década de 1980.

Na história, uma adaptação do livro Space Vampires (Colin Wilson, 1976), uma equipe de astronautas capta uma presença estranha nas proximidades do cometa Halley. Ao investigarem, descobrem três humanoides hibernando em meio a uma tripulação de aliens semelhantes a morcegos gigantes (!). Mas ok, após esse encontro inicial, a aventura começa com os extraterrestres se revelando como uma espécie de vampiros espaciais drenadores de "ki" (energia vital), bem à moda dos vampiros clássicos mas, no caso, com uma dose interessante de possibilidades. Sendo extraterrestres, porque não, né?!

A parte mais interessante pra mim foi observar  essas possibilidades, algo discutido pelo próprio roteiro, e aqui chamo atenção para um detalhe que percebo, algo que espreita a obra de Tobe Hopper: a presença do misticismo. Não é algo escancarado, e só percebi essas referências em dois filmes dos que vi até agora. Mas em Lifeforce, não são os astros que apontam para um perigo iminente, como em o Massacre da Serra Elétrica, mas uma mistura (mistura não, complementaridade) entre ciência e misticismo, principalmente misticismo oriental. 

O vampiro encarado como alguém que drena energia vital é algo tão tangível entre os seres humanos quanto os objetos materiais à nossa volta. Quem nunca viajou na "energia pesada" de alguém e se sentiu exausto após um encontro que se acuse - ou, pior, estar com o humor ruim (ou com o "astral baixo") a ponto de mudar o humor das pessoas ao redor pode ser outro exemplo. Isso só pra ficar no nível de sensibilidade mais comum (o das pessoas que tem a habilidade de observar). 

A manipulação da energia física e psíquica a partir do controle das emoções, da disciplina mental, exercícios físicos e dieta adequada é algo difundido há milhares de anos pela cultura oriental, por meio das filosofias e doutrinas espiritualistas indianas, chinesas, japonesas, pela filosofia ocidental ao longo dos séculos, e até correntes científicas ainda consideradas como "alternativas" - ou pseudo ciência, pro povo mais brabo e ateístas 'religiosos'. Telepatias, sincronicidades, deja vu, parapsicologia (tema já levantado em Poltergeist) e 'magias' em geral também saem desse bolsão esotérico/metafísico que brota do interior da vida (se é que se pode falar disso dessa maneira) na forma de materialidade fazendo com que a realidade seja, assim, composta de diversas camadas (ou dimensões) mais sutis de matéria e energia de trabalho que podem ser captadas e transmutadas a partir do aperfeiçoamento (treino) da percepção enquanto ponte para a consciência. Poderia mesmo até ser que a origem desses mitos sobre vampiros tenham surgido desses conhecimentos antigos, repassados e percebidos de diferentes formas conforme a cultura e o momento histórico. 

E além de uma sacada ótima como essa, o filme ainda é repleto de cenas legais (a "possessão" de Patrick Stewart, em um de seus primeiros papeis no cinema, e os momentos em que aparecem a enfermeira ruiva, Ellen, são muito interessantes de se ver). Não há perda de tempo com passagens ou diálogos inúteis, e ainda que os efeitos visuais de violência não convençam ou sequer assustem nenhum adulto sério, rsssss há ritmo suficiente para segurar o espectador durante toda a reprodução. Ainda que remeta descatadamente, principalmente a partir da primeira hora de filme, a produções na linha de Invaders of Body's Snatcher, mesmo assim o faz de forma original, coerente, e atualizada para a época. 

Mais uma vez vislumbro um bom diretor na figura do Tobe Hopper, alguém que costura as várias dinâmicas psicológicas e situacionais e cria um todo muito coeso e satisfatório gostoso de digerir, mesmo com alguns excessos.


TRAILER

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