breves comentários sobre filmes, música, algumas visões aleatórias e muitos spoilers
sábado, 3 de julho de 2021
The Texas Chainsaw Massacre (Tobe Hopper, 1974): muito insano.
Talvez a coisa mais insana que já vi em termos de arte. Será que se pode chamar isso de arte? Um massacre? À moda slasher? Eu não sei, mas Tobe Hooper deu um salto qualitativo de seu primeiro filme, Eggshells (1969), como realizador, para o The Texas Chainsaw Massacre, lançado cinco anos depois. O Massacre transpira refinamento em suas nuances, e por mais que a insanidade em cena possa levar o espectador a picos de rejeição em determinados momentos, toda a obra parece ter sido construída para nos conduzir a um ápice insano.
O filme narra a história de cinco amigos que vão visitar a antiga propriedade da família de dois deles, irmãos, mas não contavam que a tal propriedade, em ruínas, era vizinha de uma família de maníacos, deficientes mentais e assassinos, responsáveis pela profanação de túmulos e roubo de corpos (ou pelo menos partes deles) que estavam pondo curiosas e temerosas a população local naqueles dias.
Até aí o filme segue todo o rito dos filmes slashers.. ou melhor, do que viria a ser esse rito, mas se diferencia em muitos outros momentos. A começar por ser parcialmente inspirado em uma história real. Ed Gein é um popular psicopata, desses famosos, que assombrou os Estados Unidos por algumas décadas em meados do século passado, e inspirou boa parte das obras com essa temática, de Psicose até o próprio Massacre. É a Ed Gein que a família Leatherface deve toda a sua criatividade para decoração de interiores (=p). U m massacre envolvendo um antigo matadouro e 33 corpos ocorrido em uma cidade de interior texana no ano anterior parece ter sido outra inspiração.
A excelente direção contribuiu de forma muito significativa para fazer uma introdução sombria para o terror que viria a seguir. Toda a sequencia mostrando o primeiro casal a procura do rio e encontrando a casa da família Leatherface por trás da colina, e depois se aproximando dela e cogitando encontrar ajuda para a gasolina (tadinhos), é fenomenal. Hipnotizante, e muito sinistra, rss sério! Sombria ao extremo, ainda que se passe debaixo de um sol escaldante e um céu azul quase sem nuvens. Se você já sabe o que está por vir então, a tensão só falta explodir (em você - em mim, no caso rss).
Essa mesma direção que arrepiou com tanta sutileza nesses momentos iniciais foi também responsável pelos momentos mais delirantes e insanos e doentios que já vi em um filme. A violência com que Leatherface "abate" suas vítimas não provoca os mesmos efeitos que seus "filhos" Jason, Michael Myers e Freddy Krueger provocam. Enquanto nestes a violência gera até divertimento por conta dos péssimos personagens (geralmente), no Massacre, o que mais temos é desconforto e vontade de rejeitar o produto, tamanha brutalidade (não à toa o Massacre foi censurado em muitos países).
Além disso, toda a interação e contexto da família psicótica é um pesadelo surreal e insano. A psicologia ali é indecifrável, mas temos algumas pistas do que pode ter acontecido e podemos fazer conjecturas sobre o porque de toda essa barbaridade.
É um filme que a partir de determinado ponto é difícil de digerir. Tobe Hopper caprichou na escolha dos atores, que, me parece, eram desconhecidos até então, mas ele conseguiu extrair deles todo o desespero e agonia e insanidade que a situação exigia. E apesar da pouca ação da primeira metade do filme, é nesse intervalo que um clima de horror intenso vai se construindo nas sutilezas do espaço em torno dos jovens. Só o cadeirante e a astróloga sentiram a "vibe" no ar, e mesmo assim, por suas vias individuais (cegos de juventude - o medo no caso do cadeirante, o movimento dos astros segundo a astrologa), ainda que os motivos para este clima estivesse pulando por toda parte em cena, pra quem tivesse atento - mas até essa suposta "desatenção", uma das principais críticas contrta os personagens de filmes de terror, é factível e, considerando a situação particular dos personagens, é possível de ser compartilhada.
A sequencia final então é uma das cenas mais desesperadoras e angústiantes, e, inacreditavelmente, BONITAS que já tive o PRAZER de contemplar no cinema de horror, de um alívio desconcertante quando encerra, que faz você agradecer por estar bem e aquilo ser só um filme. Se a serra elétrica funciona a energia, bateria ou combustível, tanto faz. Engulam como licença poética e aproveitem que isso aqui é um espetáculo!
TRAILER
* Tá disponível nos streams dos sites darkflix.com.br, oldflix.com.br e no Youtube na versão dublada.
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