Aproveitando o hype em torno da nova continuação do Candyman, ontem rolou de ver o original, e foi mais uma vez o tipo de caso em que me perguntei "por que não assisti isso antes?". Esse Candyman tá sempre relacionado nas listas de melhores slasher ou "filmes imperdíveis do gênero", e fui meio despretenciosamente até ele achando que nada mais nesse universo particular poderia me abalar, e, bem, não fui abalado, mas encontrei um filme muito bom, haha, bem acima da média!
O Candyman é um fantasma tipo loura do banheiro só que com um gancho na mão (!!) que aparece pra quem repete o nome dele cinco vezes. É uma lenda urbana antiga (e estou lembrando aqui de Ringu e de Lenda Urbana), que retorna ao bate boca popular após um assassinato ocorrido num gueto e atribuído ao fantasma, e se torna objeto de interesse de duas pesquisadoras que querem comprovar algum "fenômeno" social para validar sua tese.
Uma das pesquisadoras é a protagonista, interpretada pela atriz Virginia Madsen (eu vi essa atriz recentemente em Anjos Rebeldes, lançado um ano antes, e tão clássico quanto Candyman, mas infinitamente mais fraco). Ela é daquelas criaturas muito determinadas (e brancas e loiras) que vão até seus limites para conseguir o que deseja. Ela passa por poucas e boas em sua tentativa de negar a existência do Candyman, e mesmo com todo o embate físico que há ao longo da trama, é no campo psicológico que acontecem as movimentações mais violentas.
Isso porque, de fato, o Candyman talvez não exista. Após ser "chamado", Candyman começa a "cercar" Helen (a pesquisadora) por dentro de sua mente. Sua influência é paralizante e totalizante, e sua manifestação é atraente, sedutora. Uma vontade irrecusável. Não há como não ceder. E ao mesmo tempo, é difícil crer! E a resistência de Helen ao Candyman (sua manifestação pede um sacrifício, é uma troca) provoca mais confusão do que solução. Aos poucos, seu conflito interior começa a transparecer como loucura aos olhos de quem vê de fora, e as coisas começam a se tornar freneticamente tensas a partir da segunda metade do filme.
Engraçado que essa relação do mal com o "material" já é algo trabalhado em Hellraiser, a outra obra famosa do Clive Barker. O mal se confunde com a própria materialidade, sendo o máximo dela, ou seu ápice, ou algo do gênero, sempre havendo uma relação de barganha entre o que se tem e o que se poderia ter. O sacrifício exigido pela concessão do desejo (nota mental: pesquisar sobre os gênios) geralmente é uma porção da nossa alma, da nossa inocência, e quanto maior o desejo, maior essa porção.
Em Hellraiser, é o êxtase eterno por meio do tato o objeto da barganha, sendo o corpo sacrificado a uma vida de prazer e dor (ou simplesmente êxtase) físicas. Em Candyman, a necessidade natural de autoafirmação da mulher dentro do meio masculino (o mundo profissional, no caso, a universidade) ultrapassa o limite da competição saudável e leva Helen aos "buracos" mais profundos da existência. Quando a preocupação em ultrapassar o colega profissional deixa de ser científica e passa a ser pessoal, Helen passa a ter que barganhar pela própria sanidade, e pela vida daqueles a seu redor, e as coisas que ela faz nesse trajeto a tornam irreconhecível até para si mesma quando se olha num espelho - ela, que tava até metade do filme tentando se afirmar com muita objetividade, haha, tadinha.
Candyman, escravo morto pelos seus senhores com abelhas, das categorias mais "civilizadas" do reino animal, também poderia servir como metáfora para a violência a qual a organização da nossa realidade imediata nos condiciona e impulsiona, e também nos submete. Assim como Candyman, essa realidade violenta, em que pessoas poderosas matam, escravizam, subjugam, não é perceptível para a maioria na "paisagem" imediata, mas é muito presente no "sussurro" daqueles que mantém esses sistemas operantes. E essa galera sussurra bastante, não repara quem não quer.
De fato, acabo de constatar que apesar de me causar estranhamento (o roteiro me pareceu meio desleixado a princípio, com todas as coisas acontecendo muito facilmente, sem nenhum conflito), o filme não seguiu a tendência alienante que o slasher frequentemente segue, chegando a causar surpresa em alguns momentos, tanto por boas sacadas do roteiro/direção quanto por propor reflexões críticas (sociais) e existenciais, mesmo com todas as limitações impostas pela cultura geral de entretenimento da época.
É um filme massa! É baseado no conto Forbidden do Clive Barker, tem uma direção levemente requintada do tal Bernard Rose (ele tem um filme interessante sobre a vida do violinista Paganini, o The Devil's Violinist, de 2013) com o tempero maravilhoso da música do Philip Glass. O Tony Todd tá massa, um olhar assustador/sedutor do qual você não consegue fugir; a Virgina Madsen tá massa, comecei fazendo chacota dela e no final tava quase oferecendo um oscar, e até o Xander Berkeley ta lá, bem novinho e fazendo o que ele sabe fazer melhor (nos filmes, no Walking Dead. E na vida?), que é ser um traíra covarde. Tudo nesse filme é ótimo!
Nota: 4,8/5
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