quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Shock (Jair Correia, 1984): ponto fora da curva.


Outra grata surpresa desses dias, o filme Shock me deixou chocado (dã) por diversos motivos, e o fato de se tratar de um slasher nacional nem foi o mais curioso deles. Logo que soube desse filme, fui dar uma pesquisada no nome "Jair Correia", o mestre por trás dessa realização, e descobri um publicitário, com poucos trabalhos na área do cinema, sendo Shock sua última produção. O filme poderia ter sido um exercício vanguardista caso o cinema nacional mantivesse a aposta no tema. Não o fez, e não sei se isso é bom ou ruim.

O fato é que Shock é um filme muito superior à maioria dos slashers norte americanos - inclusive superior a alguns clássicos do gênero. Mas também não ouso dizer que essa comparação seja exatamente justa. Talvez numa comparação ao gênero giallo percebamos mais semelhanças, e mesmo assim nosso Shock se sobressai, para melhor. Ainda assim, o filme não vai muito na contramão dos enredos típicos do gênero. Pelo contrário: usa-os de forma muito inteligente e coerente, criando um ambiente e situações absolutamente possíveis. 

Tudo começa numa festa numa casa afastada, localizada no meio de uma floresta ou de um matagal, e após a festa, um grupo de pessoas que é impelido a passar a noite na casa até o amanhecer. Nesse meio tempo, as pessoas começam a ser assassinadas uma a uma. Não é uma trama complexa, e apesar da produção ser muito precária (se não me engano, trata-se de um filme independente), se destaca por uma inesperada profundidade.

Essa "profundidade" a que me refiro está no cuidado dado pelo realizador no sentido de não transformar sua obra em mais um filme de violência sensacionalista, tão na moda nos anos de 1980. Em Shock, os personagens são verdadeiramente cativantes, não no sentido de agradáveis, mas no sentido de humanos e falhos, característica muito valorizada pelo roteiro, que focou com excelência as relações entres as pessoas em cena. 

Esse refinamento ultrapassou, inclusive, a mera tridimensionalidade dos personagens, nos fazendo mergulhar nas nuances psicológicas de cada um, algo determinante para o impacto da resolução dessa jornada de terror noite adentro. O destaque aqui vai para a personagem da atriz Cláudia Alencar, em um de seus primeiros papeis no cinema, e final girl dessa chacina à brasileira. 

Os atores, apesar de não estarem no seu ápice profissional, encarnam perfeitamente complexidades que fazem com que os personagens de Shock destoem completamente de todos os clichês dramáticos desse gênero, tornando-o um ponto fora da curva no cinema slasher. A "virgem", geralmente a sobrevivente nesses filmes (o que sempre é analisado como um conservadorismo enrustido nessas produções), é uma das primeiras a rodar após se perder em uma reflexão existencial esticada, proporcional ao baseado que fumou antes, sobre o porque estar "se guardando sexualmente" por tanto tempo. Em contrapartida, a única sobrevivente é uma garota sexualmente ativa e bem resolvida, inteligente, e que carrega o emocional de todos os outros nas costas durante toda a trama. E diferentemente das outras final girls, essa aqui não termina nada bem.

Sobre a figura do assassino, ela se aproxima mais dos relacionados italianos do giallo. Como espectadores, só temos acesso à visão de suas suas botas e ao som dos seus passos, assim como os personagens em cena, cujo único contato com o matador é pelo som que ele faz ao caminhar pela casa, ou quando resolve pisar nos pedais da bateria, sendo os pés do assassino, então, o principal canal de comunicação entre ele e as vítimas. Esse detalhe é aproveitado como um artifício muitíssimo bem utilizado na maravilhosa cena final. Esse finale, inclusive, é dos bons, sendo ao mesmo tempo ousado, coerente, poético, psicologicamente bem sacado, fechando essa pequena obra de arte dark do cinema nacional com chave de ouro. Recomendo demais!


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