sábado, 7 de agosto de 2021

Cronicamente Inviável (Sérgio Bianchi, 2000): o que tá explícito não precisa ser analisado. ou precisa?


No começo da década de 1990,o cineasta Robert Altman lançou um filme chamado Short Cuts, muito lembrado e destacado em sua filmografia,  não apenas por seu alto teor crítico, a “crítica social foda” rsss mas também pelo elenco, hoje, estelar! A obra conta uma série de micro histórias, relatos cotidianos de uns dez personagens específicos que eventualmente se cruzam na trama. O resultado é uma teia de relações de classe escondida sob o véu da normalidade cotidiana.

Em 2000, o diretor brasileiro Sérgio Bianchi partiu de uma premissa semelhante a fim de contar "um pouco" da realidade social brasileira. Antes de buscar criar situações e ambientes metafóricos a fim de propor uma reflexão sobre o assunto, o realizador opta por apenas mosrar situações reais, conversas reais, cenas reais e cotidianas de todo o Brasil. À maneira do Altman, Biachi tentou narrar as diversas nuances da realidade por meio de diversos personagens, cruzando histórias a fim de criar uma grande rede. O foco, no entanto, está nas relações de trabalho no mundo capitalista como mola propulsora da desordem social.

Assim, Bianchi lança um olhar cru mas fidedigno sobre o caos social brasileiro. Ele usa um restaurante como ponto focal de encontro entre todos os personagens principais, que vão desde os clientes, passando pelo patrão e empregados. Todos com histórias impregnadas de uma visão autocentrada, e à sua maneira, tentando compreender a realidade ao seu redor, que ajudam a expandir perpetuando hábitos convenientes ao sistema capitalista a partir das relações de trabalho, que normaliza a desigualdade e torna o sucesso pessoal em meta única para cada indivíduo.

Patrão pensa como patrão. Sabe que domina, e se puder, ainda humilha. Trabalhador sabe que é o lado mais fraco da corda, e faz o que pode, da revolução à malandragem. Bianchi consegue lançar um olhar muito cirúrgirco sobre a compreensão geral sobre essa divisão de classes fortalecida pelas relações de trabalho, captanto paradoxos sociais inerentes à heterogeneidade da massa, algo que coloca muitas vezes aqueles que estão na posição de luta por uma vida melhor, politicamente falando, repetindo os mesmos padrões sistêmicos que alimentam a dominação capitalista.

Apesar de o roteiro insinuar querer fugir da necessidade de "analisar a realidade brasileira" se preocupando apenas em "mostrar", o que Sérgio Bianchi faz aqui é salientar o desencontro moral, ético e filosófico, em que, principalmente, as classes mais abastadas caem para justificar sua posição no esquema geral das coisas. Ao trabalhador só cabe se virar: a ele só resta a demissão, ou a humilhação, ou o fundo do poço - depende do caráter do patrão. 


FILME COMPLETO no Cine Antiqua:

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