segunda-feira, 13 de setembro de 2021

The Ripper (2020): contabilizando prejuízos do pensamento conservador 40 anos depois, pois antes tarde do que nunca.


Uma série que gostei de acompanhar esses dias foi a The Ripper (O Estripador), da Netflix, que narra a condução do mistério envolvendo os crimes cometidos pelo tal "estripador de Yorkshire" durante a segunda metade dos anos de 1970, na Inglaterra. Já vi que a série foi bastante criticada pelas famílias das vítimas, que viram na escolha do título uma espécie de "glorificação" do assassino serial, o que talvez não seja exatamente justo, apesar de não ser algo totalmente descabido de sentido.

Na verdade, a série é bem atualizada, e apesar de sempre rolar um sensacionalismo nesse tipo de "entretenimento" mórbido, a direção (até o momento não descobri de quem é) nos oferece um panorama que merece ser analisado a partir dos dias de hoje, para percebermos o quanto a desinformação e o preconceito norteou essa investigação, e que se não fosse por um deslize, quase uma ajuda, do próprio assassino, nada teria sido solucionado. 

O que salta aos olhos nessa trama é uma investigação burra e limitada à obtenção de resultados rápidos, algo bem característico desse tipo de crime, inclusive. Há toda uma carga do passado ao relacionar os crimes de Yorkshire em 1970 com os de Whitechapel, local de atuação do Jack, o Estripador original, paralelo forçado pelos investigadores o tempo inteiro e que prejudicaram absolutamente as buscas pelo estripador de Yorkshire - do qual o assassino tirou proveito, contabilizando novas vítimas.

Uma boa sacada da direção foi ter dado voz às vítimas, as mulheres, as mais interessadas no caso. Houve sobreviventes do estripador de Yorkshire, que foram simplesmente ignoradas nas investigações da época pra dar vazão a uma narrativa que remetia a história do estripador original, assassino de prostitutas. O leque de possibilidades do estripador de Yorkshire era bem mais amplo, mostrando que sua misoginia, assim como a misoginia da polícia, e a do próprio Jack, não tinha vertente ou classe estabelecida. 

Da mesma forma, foi muito interessante ver que, acompanhando os tempos, as mulheres de Yorkshire não ficaram paradas e caladas apenas sendo "orientadas" a se reprimirem ainda mais sob o discurso de que  uma conduta "inadequada", pra dizer o mínimo, poderiam leva-las à morte. A efervescência política da época refletiu na reação popular ao fracasso das investigações, o que torna essa trama muito interessante de acompanhar com o olhar de hoje. 

São muita lições que essa investigação falida nos lega, mas a mais interessante para quem buscar solucionar crimes, é que a sociedade segue o desenvolvimento do pensamento humano, não só em suas criações, mas também em suas doenças, e o olhar rígidos à tradições desatualizadas na tentativa de aparar as "arestas da moralidade" dos tempos atuais não geram outro tipo de fruto que não seja a violência. 

Peter Sutcliff, o assassino de Yorkshire, foi condenado à prisão perpétua pelos 13 assassinatos cometidos entre 1975 e 1980. Em 2020, foi diagnosticado com covid-19, e veio a falecer após recusar tratamento. A minissérie tá disponível no Netflix!

Nota: 4/5





TRAILER

domingo, 5 de setembro de 2021

Poltergeist II - The Other Side (Brian Gibson, 1986): ótima continuação!


É, e mais uma vez eu tendo a sorte de aprender com o acaso. Topei ontem com esse Poltergeist II e coloquei pra assistirmos já avisando que não era um filme muito bom, julgamento imbuído de diversos preconceitos  estilo white people problem, como por exemplo o fato de ser uma continuação. Pra mim, essas franquias sempre detonam a aura da obra original e mudam seu impacto, algo que pode ser bom ou ruim. Dei a sorte, porque é sempre uma sorte ver um filme desses realmente bonzão nessa altura do campeonato, de a primeira sequencia de Poltergeist ser tão boa quanto o filme original. É ainda melhor, na minha opinião. 

Não que a história se diversifique muito da anterior. É literalmente uma continuação, visto que a história anterior não tinha exatamente "acabado". Mas aqui, para além da experiência no ambiente sobrenatural, temos agora as consequencias dessas aventuras no mundo ~ sutil ~ na vida da família de Carol Anne. O núcleo poltergeist da novela também volta com força, apostando menos em efeitos especiais, e mais em tensão e suspense, o que nos proporcionas umas baitas cenas, daquelas hipnotizantes.

Alguns anos se passaram desde os eventos do filme anterior, mas não muitos anos. A família Freeling está tendo problemas com dívidas por conta da perda da casa, e o poltergeist que sequestou Carol Anne anos antes continua à sua procura, materializado na figura de um pastor estranho, pálido e de semblante cadavérico, que passar a rodeá-la como um urubu rodeia um animal prestes a morrer. A analogia serve pois é justamente esse o seu intento: Carol Anne é energia vital pura, e tudo que esse "encosto" precisa para se manter preso à existência terrena. Pelo menos por um tempo.

Dessa vez, nossos amigos contam com a ajuda de um indígena, Taylor, cuja sabedoria norteia a família nos momentos mais obscuros, se transformando num porto seguro para todos em diversos momentos. Principalmente para o pai de Carol Anne, Steve, que passa por uma intensa jornada de "autodescoberta" para lidar com a frustração de não proteger àqueles que ama.

Achei um roteiro maravilhoso, equiparável ao original, quase melhor. A impossibilidade de fuga e o desespero e claustrofobia que acompanham essa realidade leva os Freeling a determinados limites, éticos e morais, nos fazendo contemplar aquilo de nós que o medo traz à tona: nossos preconceitos, nossa carência, nossa impotência. O mal é esperto e articulado, e nos manobra pelo medo. 

Esse jogo de luz e sombra é perfeitamente encenado naquela que VIAJEI que é amelhor cena do filme, quando o pastor Kane encontra Carol Anne pela segunda vez e dialoga com a  família e tenta entrar em sua casa. É de arrepiar!!! Aliás, eu tive que pesquisar para descobrir quem era o ator que fez o pastor Kane, e descobri que é um tal de Julian Beck. Esse cara é um arraso em todas as cenas em que aparece, e nem que seja só pra apreciar sua arte, Poltergeist II é altamente recomendável.

Apesar de manter o elenco original (até a personagem Tangina Barrons volta a dar as caras, numa participação menor), essa sequencia não tem a assiantura de Tobe Hopper e nem do Spielberg, o que é curioso. isso porque a trama não parece forçar tanto pra ser assustadora, e consegue ser de um jeito que o original não consegue. A direção dessa sequencia é de Brian Gibson. Chequei a filmografia dele aqui mas não vi nada que eu conheça, mas esse Poltergeist é um belo item do seu portfólio. 

Nota: 4/5



TRAILER:

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