Uma série que gostei de acompanhar esses dias foi a The Ripper (O Estripador), da Netflix, que narra a condução do mistério envolvendo os crimes cometidos pelo tal "estripador de Yorkshire" durante a segunda metade dos anos de 1970, na Inglaterra. Já vi que a série foi bastante criticada pelas famílias das vítimas, que viram na escolha do título uma espécie de "glorificação" do assassino serial, o que talvez não seja exatamente justo, apesar de não ser algo totalmente descabido de sentido.
Na verdade, a série é bem atualizada, e apesar de sempre rolar um sensacionalismo nesse tipo de "entretenimento" mórbido, a direção (até o momento não descobri de quem é) nos oferece um panorama que merece ser analisado a partir dos dias de hoje, para percebermos o quanto a desinformação e o preconceito norteou essa investigação, e que se não fosse por um deslize, quase uma ajuda, do próprio assassino, nada teria sido solucionado.
O que salta aos olhos nessa trama é uma investigação burra e limitada à obtenção de resultados rápidos, algo bem característico desse tipo de crime, inclusive. Há toda uma carga do passado ao relacionar os crimes de Yorkshire em 1970 com os de Whitechapel, local de atuação do Jack, o Estripador original, paralelo forçado pelos investigadores o tempo inteiro e que prejudicaram absolutamente as buscas pelo estripador de Yorkshire - do qual o assassino tirou proveito, contabilizando novas vítimas.
Uma boa sacada da direção foi ter dado voz às vítimas, as mulheres, as mais interessadas no caso. Houve sobreviventes do estripador de Yorkshire, que foram simplesmente ignoradas nas investigações da época pra dar vazão a uma narrativa que remetia a história do estripador original, assassino de prostitutas. O leque de possibilidades do estripador de Yorkshire era bem mais amplo, mostrando que sua misoginia, assim como a misoginia da polícia, e a do próprio Jack, não tinha vertente ou classe estabelecida.
Da mesma forma, foi muito interessante ver que, acompanhando os tempos, as mulheres de Yorkshire não ficaram paradas e caladas apenas sendo "orientadas" a se reprimirem ainda mais sob o discurso de que uma conduta "inadequada", pra dizer o mínimo, poderiam leva-las à morte. A efervescência política da época refletiu na reação popular ao fracasso das investigações, o que torna essa trama muito interessante de acompanhar com o olhar de hoje.
São muita lições que essa investigação falida nos lega, mas a mais interessante para quem buscar solucionar crimes, é que a sociedade segue o desenvolvimento do pensamento humano, não só em suas criações, mas também em suas doenças, e o olhar rígidos à tradições desatualizadas na tentativa de aparar as "arestas da moralidade" dos tempos atuais não geram outro tipo de fruto que não seja a violência.
Peter Sutcliff, o assassino de Yorkshire, foi condenado à prisão perpétua pelos 13 assassinatos cometidos entre 1975 e 1980. Em 2020, foi diagnosticado com covid-19, e veio a falecer após recusar tratamento. A minissérie tá disponível no Netflix!
Nota: 4/5
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