quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Malignant (James Wan, 2021): J-J-James Wan getting better.


James Wan é um diretor que venho acompanhando muito de leve e a certa distância. Ele está envolvido, direta ou indiretamente, em alguns dos trabalhos mais relevantes do horror comercial contemporâneo, e após quase 20 anos desde Saw (2004), seu primeiro grande trabalho, sua carreira o tornou conhecido o suficiente para sermos capazes de antever um “estilo James Wan” de contar história de terror. 

E a história que ele resolve contar em Malignant, sua nova incursão no gênero após cinco anos afastado para passear pelos oceanos da Marvel com sua versão do Aquaman, pode ser vista como o que ele faz de melhor, ou um aperfeiçoamento disso: horror psicológico/sobrenatural com entidades vingativas e insidiosas. Ok, esse não é exatamente o seu padrão, mas é a fórmula base de alguns de seus principais hits, como Insidious (2011) e The Conjuring (2013), este último, algo que alcançou sucesso tal que marcou o início de um “horrorverso”, ampliado por suas continuações e derivados (Anabelle (2014) e The Nun (2018)).

Em Malignant, James Wan nos apresenta o desenlace de um carma familiar profundo envolvendo uma mulher, Madison (Annabelle Wallis), e seu passado misterioso. Madison foi adotada quando jovem após ser abandonada pela mãe em uma espécie de sanatório, onde sua estranha condição psíquica passou a ser estudada pelos cientistas do lugar, sendo posta para adoção quando o problema foi “resolvido”. Já adulta, Madison vive um momento crítico em sua vida ao concluir que não é capaz de gerar filhos, e associar o fato a uma estranha entidade que começa a “aparecer” e assassinar as pessoas que, pensa-se, de alguma forma a prejudicaram.

É um filme que talvez gere reações distintas. O argumento é tão convincente quanto o de qualquer outro filme de Wan, com os momentos mais absurdos podendo ser encarados como “criativos”. Entre vultos, sustos e assassinatos, vemos muito do que o próprio Wan já fez em seus filmes, assim como muita referência a outros sucessos do horror recente sendo repetida aqui com mais maestria e esmero. Impossível não lembrar de Ringu (1998) nas primeiras aparições de Gabriel nas imagens em VHF do hospital, Lights Out (2016) quando a direção brinca com a escuridão, e até o clássico Sisters (1972) e os giallo italianos, se esticarmos um pouco.

Mas James Wan é um excelente realizador, e o que poderia ser um caldeirão de sangue e parapsicologia trash se transforma num criativo e divertido terror sobrenatural, cheio de ritmo e até graça em alguns instantes, podendo nos levar a prender a respiração em uma ótima cena de perseguição, ou mesmo ocasionar algumas reflexões mais profundas propostas pelo drama da personagem central. A trilha sonora tira um pouco da sutileza que o filme poderia oferecer, e talvez o objetivo não fosse esse, realmente. 

O fato aqui é que Malignant ́ é um terror bom e muito divertido, que prende a atenção com capacidade de envolver até um espectador que seja um pouco mais exigente. Acredito que o James Wan ainda não atingiu sua obra máxima mas Malignant é um belo item de sua filmografia.  


Nota: 4/5

Trailer:

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Friday The 13th VII - The New Blood (John Carl Buechler, 1988): Jason buscando novidade.


Me sinto no esgoto mais asqueroso da arte do século XX assistindo sexta-feira 13 parte 7 mas quem disse que não existe poesia na imundície né. Reza o Wikipedia que nessa altura, o estúdio (Paramount) queria dar mais "sustância" à série e de fato eu percebi uma significativa melhora na qualidade de Jason Lives (Part VI), com o filme seguindo coerente após a trama (ainda que absurda) estabelecida.

Esta sétima sequencia tem um mote muito parecido com o Silent Night, Deadly Night 3, sobre o qual coincidentemente postei ontem aqui, e mostra um entrelaço psíquico entre uma garota com poderes telecinéticos e o Jason, agora em sua melhor forma. Assim como no SNDN 3, a garota em questão é "cobaia" de um psicanalista meio inescrupuloso que quer estudar seus poderes, e propõe uma experiência radical (trazendo-a de volta ao local da morte do pai, o Lago Crystal) a fim de explorar as habilidades da paciente.

O que ele não contava é que a garota traumatizada com os próprios poderes (que ocasionaram a morte de seu pai no passado), na ânsia de sentir a presença do pai mais uma vez, erra o defunto e acorda o Jason, preso no fundo do lago Crystal desde o filme anterior. Enquanto isso, o cardápio do assassino vai sendo composto com os desavisados que por todos os lados chegam para passar o fim de semanaàs margens do lago. - e Jason, é claro, não deixa por menos.

Essa sequencia manteve o padrão de qualidade do filme anterior, que já era superior às partes 3, 4 e 5 (a pior até agora), e ainda que seja menos engraçadinho que o 6, esse The New Blood segura a onda misturando slasher com ficção científica, promovendo um novo momento para a franquia, onde Jason extrapola o próprio inferno pessoal e dá um passo além da matança de instrutores de acampamento. O Jasonverso se amplia em busca de sangue novo (tudum tss) rssss.

Os personagens não estão entre os piores da franquia e tirando o sexo burocrático que todos os adolescentes" precisam" fazer nesses filmes, rendem alguns momentos razoáveis até quando Jason não está em cena. É isso, ele agora nos aguarda em Manhattan!



Nota: 3,5/5

TRAILER

domingo, 26 de dezembro de 2021

Silent Night, Deadly Night 3 - Better Watch Out! (Monte Hellman, 1989): esse deu certo!


Não sei porque eu engatei de ver a série Silent Night, Deadly Night. Me parece que rever o primeiro filme depois de tantos anos me fez perceber as possibilidades interessantes que a história "disponibiliza". 

O primeiro filme engata um slasher clássico, com serial killer vestido de papai noel - e acho que a primeira ideia do brainstorm que deu origem a esse filme deve ter sido essa - mas o faz com alguma classe. Há toda uma trama psicológica que condiciona os eventos do filme, e que é narrada meticulosamente apontando as causas para os diversos porques que envolvem o papai noel assassino, tornando SNDN já muito diferente dos slashers habituais dos anos de 1980.

Na segunda parte dessa franquia, teríamos um filme razoável não fosse o fraquíssimo desempenho de todos os envolvidos ali: de péssimas atuações até uma direção que opta por reprisar o filme anterior quase inteiro na forma de flashback, mas ok, conseguiu fazer uma ponte entre o primeiro e o intrigante terceiro filme e encerrar essa parte como uma trilogia. E é sobre esse intrigante terceiro filme que quero falar sobre aqui.

Intrigante porque ele é basicamente ume pérola perdida num mar de bobagem rsss E sinceramente não entendo essa sequencia ter a pior votação nos fóruns sendo facilmente melhor que os dois filmes anteriores. Se não fosse atrelado a uma franquia e pudesse ser acompanhado de forma independente (e até pode, se for reparar..), a recepção talvez tivesse sido melhor. 

O que temos aqui nessa terceira parte é mais uma mistura de thriller psicológico com slasher, e que ainda consegue se conectar com os fatos dos filmes anteriores, apesar de a produção já dar claros sinais de querer mudar o objeto da franquia. O que me parece é bolaram essa trama como última tentativa de salvar a série, e o diretor pegou esse limão e conseguiu fazer uma bela limonada.

Nesse episódio, o irmão mais novo do papai noel assassino, Ricky, o que protagonizou o segundo filme, está agora em coma, enquanto é usado por um neurocientista como ferramenta para auxiliar nos tratamento de uma garota com deficiência visual, mas que parece ter estranhos dons psíquicos. Sim, quando vc olhar para atriz, a semelhança com o Phenomena (Dario Argento) aumenta. 

O objetivo da experiência é conectar ambos os personagens por meio da mente, o que acontece e desperta o assassino do coma. A partir daqui, o que temos é uma deliciosamente tensa perseguição ao estilo Michael Myers vs Laurie Strode, com um pouco menos de voyerismo e mais de sensibilidade extra-sensorial. As atuações e o roteiro aqui, senão ótimos, ao menos razoáveis, fazem toda a diferença na hora de nos envolver com a trama, sem forçar situações ou diálogos inverossímeis. Tudo muito "normal". 

A série SNDN a meu ver, carrega muito forte essa marca de "criminosos fugitivos de manicômios", que sempre carrega boas possibilidades para o suspense psicológico, mas que se perde na correria dos slashers. SLDN III se sobressai nessa primeira trilogia por conseguir administrar um tom "correto" para equilibrar um suspense sutil  e o slasher, sem cair na bobagem adolescente. Eu fiquei muito feliz com esse filme, é o melhor da série até agora. 


Nota: 4/5

TRAILER

sábado, 25 de dezembro de 2021

Black Christmas (Bob Clark, 1974): então é natal, e o que você fez?


Natal né, resolvi me estender um pouco mais sobre esse clássico natalino sobre o qual falei tão pouco em outra postagem. Trata-se de um filme que dizem ser um pouco mais "obscuro" que os hits da década de 1970, e isso, muito em parte, por se tratar de uma produção canadense, em parte por ser um daqueles bons filmes "sérios" daquela época, um filme que ainda preza pela coerência no roteiro e dispensa um bom trabalho na criação dos personagens, que, se não fogem dos estereótipos, pelo menos convencem. 

A trama é baseada, dizem, numa série de crimes que ocorreram em Montreal naquela época, e também em lendas urbanas locais, numa em particular envolvendo um assassino escondido dentro da casa da vítima. Nisso, o que vemos na tela é um bom slasher, antes mesmo de esse gênero se tornar popular. Antes disso, era o cinema italiano que se debruçava com mais expertise  em tramas investigativas com assassinos seriais, perseguições e muito mistério. Mario Bava já pintava esse quadro desde a década anterior, e os contemporâneos Lucio Fulci e Dário Argento seguiam esse rastro. 

Em Black Christmas, entretanto, temos outro tipo de apelo. Deixando de fora os detalhes que definitivamente marcam o cinema de terror italiano, como a estética em que se sobressai o gore e muita violência "gráfica", Black Christmas nos envolve com seu clima melancólico, próprio talvez das celebrações natalinas das quais decorrem toda a trama. O clima de despedida, férias e de finalizações que envolvem o casarão da fraternidade feminina é mesclado com suas cores escuras, mobiliário antigo, e um grupo de garotas nada infantilizadas ou alienadas, que é o que costumamos esperar em filmes que se passam nesse tipo de ambiente. 

O desaparecimento de duas garotas joga uma sombra de terror sobre a comunidade, e os estranhos telefonemas recebidos por uma das protagonistas podem ajudar a solucionar esse mistério. Até a solução desses desaparecimentos, somos presenteados com boas cenas de suspense, que podem parecer até mais interessantes do que o que é mostrado na maioria dos filmes desse gênero na época, visto que as informações nos são passadas de forma mais sutil, sem tanto exagero gráfico.

Os personagens também conseguem nos envolver com tramas nada pueris, e é muito interessante ver a personagem de Olivia Hussey (Jess) em cena. Apesar de jovem, Jess encarna uma postura firme e decidida tão logo as coisas começam a complicar. Ela "resolve" tudo nesse filme, sem perder o pulso e as rédeas da situação. Suas colegas também não são muito diferentes, nos fazendo perceber ali um grupo de garotas de alma política e atenta às questões de sua geração. O esquema de fraternidade aqui é levado de forma  muito responsável pelas garotas. 

O filme segue uma linha investigativa comum a maioria desses filmes, com um investigator seguindo os rastros do criminoso enquanto a protagonista tenta sobreviver aos seus sucessivos ataques. O clássicão John Saxon marca presença aqui como o investigador chefe responsável pelo caso, o que por si já é algo interessante, visto que o ator já participava de produções do gênero (pelo qual se tornaria mais conhecido), lá na primeira metade da década de 1960, nas produções de mario Bava. Vão sem medo que Black Christmas dá rock! 

Nota: 4,2/5


Filme completo no Youtube (Dublado)

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