"M.A.S.H. (Mobile Army Surgical Hospital) is what the new freedom of the screen is all about". Essa frase, contida num dos posters originais de M.A.S.H., define bem essa que é a empreitada e teatral de Robert Altman mais bem sucedida comercialmente. Aqui, o cineasta inicia uma fase ainda mais experimental, por assim dizer, onde revisita os gêneros tradicionais estadunidenses holywoodianos com seu olhar único, dando novas dimensões àquilo que vinha sendo banalizado pela indústria cinematográfica. E em M.A.S.H., o que temos é um filme de guerra que está longe de ser convencional.
A narrativa acompanha a passagem de três novos cirurgiões pelo 4077º M.A.S.H., estabelecido nas florestas coreanas durante uma guerra - que no filme se passa na Coréia mas com alusões evidentes à guerra em curso no Vietnã. A unidade hospitalar militar, entretanto, é uma grande bagunça, não no sentido do que uma comédia convencional nos mostraria, mas no sentido de conter ali um grupo de personagens arrasados pela guerra, salvando vidas diariamente com recursos mínimos, isolados numa floresta e sem previsão de retorno ao lar. As horas vagas são preenchidas por grandes doses de bom humor, molecagem, sexo, bebidas, drogas, e tudo que possivelmente aliene ou pelo menos "dilua" o peso de encarar tudo aquilo que é inevitável.
Altman aqui já traz novos elementos à sua expressão como cineasta, que é o olhar focado sobre a realidade imediata de uma profusão de personagens em constante interação, dinâmica impulsionada por um grande elenco com passe livre para o improviso, e um domínio completo do espaço onde a ação acontece. Dessa forma, Altman flui de personagem em personagem, as vezes um ou ou dois dialogando, as vezes dezenas, todos falando ao mesmo tempo, pelo espaço construído quase milimetricamente de forma a facilitar esse fluxo.
Entre a profusão de personagens, temos críticas ácidas à guerra, ao sonho americano, ao conservadorismo e à rigidez militar, temos pilhérias, diálogos nonsense, conversa fiada, e quando se pensa que a história não vai pra canto nenhum, basta reajustarmos um pouco o olhar do detalhe para o todo para percebermos ali um mosaico social, ainda em pequenas dimensões se comparado ao que faria em Short Cuts (1993), de teor crítico e provocativo.
O grande destaque vai para o realismo em cena, tão evidenciado pela geração de diretores que se destacava naquela virada de década. Apesar do tom debochado e satírico, vemos em cena profissionais ainda compromissados no meio de toda aquela festa que se arma para esquecer por alguns instantes a grande quantidade de mortes que ocorrem naquele momento (no campo de batalha) por uma empresa falida (o tal sonho americano). O nível de articulação compromissada que se estabelece entre as diferentes hierarquias dessa unidade hospitalar muito peculiar é de uma sinergia tal, seja na farra, seja no trabalho, que só a intensidade proporcionada pelo estresse e pelo isolamento é capaz de provocar. A s cenas de cirurgia são lindas de ver, pois ilustra bem a união entre todos ali e a sensação de estarem no mesmo barco.
M.A.S.H. marca um novo momento do cinema de Robert Altman. O filme venceu como melhor filme em Cannes em 1970, e marcou mais um estágio de amadurecimento técnico de Altman como realizador. Esse "estilo" definido em M.A.S.H., o olhar aproximado sobre um grupo que pode ser análogo a uma microrrealidade, se tornaria uma espécie de fórmula que Altman repetiria em alguns de seus melhores filmes .
Nota: 4,2/5
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