Uma das coisas que considero mais marcantes no cinema de Robert Altman é o olhar cirúrgico que lança sobre os contrastes entre a vida pessoal e coletiva, característica que pode ser vista ao longo de toda a sua filmografia. A marca do costume e da cultura no indívíduo é profunda e fonte de muitos complexos que os indivíduos trazem em sua constituição, e são essas nuances que moldam a realidade em que vivemos. Altman parece saber disso, assim como parece não à toa sua fixação com os bastidores das situações, local onde a "realidade" se constroi, seja no teatro ou na vida real e um cenário recorrente em seus filmes, e com o uso do zoom.
Countdown, lançado em 1968, foi talvez a segunda experiência de Altman com cinema (a primeira foi The Deliquents, ainda na década de 1950, e que foi seguida de vários trabalhos para a tv), e, apesar de alguns problemas, ele já entrega tudo aquilo pelo que viria a ser reconhcido. É também nessa produção que conhece e adota o uso da lente zoom, que também marcaria sua obra. Os closes passariam a marcar a passagem entre uma cena e outra, fixos em objetos, cenários, e principalmente, das expressões dos atores - o zoom na alma.
O filme é uma adaptação do livro The Pilgrim Project, que narra uma - até então - ficção sobre a chegada do homem a lua. Foi lançado em plena corrida espacial (o homem chegaria à lua no ano seguinte), e a discussão política não apenas movimenta a trama como é o argumento do texto. E nos bastidores está acontecendo de tudo: medos, inseguranças, desentendimentos, e muita alma sendo exposta - especialidade de Altman.
Em sua fixação por mostrar "aquilo que não é visto", Altman arranja com perfeição, seja por meio de diálogos as vezes explícitos, as vezes sutis, e closes certeiros, situações que expõem, para nós, os personagens em suas nuances mínimas (acho que daí o diretor ter construído um séquito de bons atores trabalhando consigo ao longo de sua carreira). De forma quase "dostoieviskiana", ele literalmente dá um zoom e nos mostra os terrores individuais de seus personagens, e por que não dizer, os nossos.
O astronauta Lee Stegler (James Caan), polido e ordeiro (com arroubos de ira, como é de sernos tipos controlados), é posto à prova com sua missão de viagem à lua, o que exige muito, não só profissional e tecnicamente, mas psicologicamente, não apenas de si, mas de sua esposa e amigos
O filme não é perfeito. Tem problemas grosseiros (a gravidade da lua) e encerra com uma manifestação genuína da personagem principal. É um filme que vale não pela sua conclusão e nem por alguns desses detalhes grosseiros (que se resume a esse lance da lua, na verdade), mas por tudo que acontece até ela (como todo filme, rsss). Um thriller político/científico que se converte em drama psicológico e que, ao fim, é Altman até o talo!
Nota: 3,9/5
Trailer:
Nenhum comentário:
Postar um comentário