segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Duel (Steven Spielberg, 1971): massa!


O excelente Duel é a primeira produção de Steven Spielberg para o cinema. Lançado em 1971 no Brasil com o título "Encurralado", o filme é um tanto diferente das tramas emocionadas e emocionantes, produções milonárias e cheia de robustos efeitos especiais pelas quais ficaria conhecido. O que temos aqui é um road movie sinistro, a cara da Nova Holywood, movimento cultural do qual Spielberg é fruto juntamente com outros grandes.

Duel, no entanto, também traz algumas das caracrterísticas que marcam a obra de Spielberg. Mesmo sendo um filme que pode até ser visto como terror, e certamente como um suspense de respeito, a condução da ação num crescendo de emoção, principalmente nas primeiras cenas (quando ainda não entendemos direito o que está acontecendo), já faz valer o filme. Os dramas domésticos/familiares também se fazem presentes aqui, e podem ser encarados (ou não) como o centro da trama, ainda que um olhar superficial faça escapar aos olhos. 

Na trama, temos um homem viajando de uma cidade a outra, de volta pra casa. Ele tem hora marcada com a esposa, com quem está mau por um evento ocorrido no dia anterior (um amigo teria tentado agarrar sua esposa a força em uma festa, e ele não fez nada para protegê-la). Com sua masculinidade posta em questão, o bonitão ainda embarca numa trip paranoica (será) com um caminhoneiro sinistro, que corre como o diabo com um veículo enorme numa autoestrada escaldante, assustando e atrasando de todas as maneiras o protagonista viajante.

Aos poucos, percebemos com clareza a metáfora entre a perseguição na estrada por um homem "maior" (com um carro maior), um macho alfa ou aquele que dita as regras, e o drama familiar e sexual que enfrenta com sua esposa. Há quem diga que se dirige o carro como se dirige a vida, e no trânsito, assim como na vida, o protagonista se sente pressionado a uma postura mais agressiva em relação àqueles que tentam intervir em seu destino. O trânsitoé um dos espaços onde nossa civilidade é sempre testada (temos um código específico para isso) e provavelmente nosso protagonista não esperava uma experiência tão radical para internalizar essa "lição" - que deve levar pra casa. 

Eu vejo poucos problemas em Duel. Quase nenhum, na verdade. É um filme de ação/suspense sinistro, bem conduzido (Spielberg consegue transformar um caminhão numa estrada em plena luz do dia em algo assustador), com uma trama objetiva e com boas doses de subjetividade, ou pelo menos o suficiente para nos fazer viajar junto. E, em se tratando de Spielberg, apesar de parecer mais um experimento cinematográfico que um "filme", aos moldes dos blockbusters, é um produto inegavelmente fruto dos anos de 1970 de um dos maiores da Nova Holywood. É quase impossível não ser bom, rssss. Certamente inspirou "algo" no igualmente ótimo Jeepers Creepers.


Nota: 4/5

Filme completo: 

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