That Cold Day in the Park é um dos filmes mais sombrios que já tive o prazer de assistir. O filme é de 1969 e dirigido por Robert Altman, de uma época em que o nome do diretor, um dos mais refinados da hoje velha Nova Holywood, ainda não havia se tornado uma grife para os melhores nomes de Holywood. That Cold Day é uma adaptação do romance homônimo de Peter Miles, e assim como em seu trabalho anterior, Countdown, Altman segue dando aquele zoom esperto na "alma" humana, e dessa vez traz assuntos que acho fortes demais para o conservadorismo da década de 1960, e até de 2022, se olharmos bem.
A trama nos apresenta Frances Austen (Sandy Dennis), uma quarentona (talvez) solitária e consciente da sua solidão, oriunda de um grupo social velho e conservador, e com muitas questões sexuais a serem destravadas. Um belo dia ela se depara com um garoto sentado num banco de parque, debaixo de uma chuvarada, e conclui que ele precisa de ajuda. Ninguém sabe se há algo intencional por trás deste ato de grande humanidade, mas o fato é que ela o leva pra casa e resolve hospedá-lo, e deste encontro, começa a surgir uma grande tensão entre ela e o garoto, que nunca fica claramente definida a que se refere.
Isso porque o garoto, the boy, não se comunica de forma alguma com Frances, que logo pensa que ELE tem algum disturbio psicológico, ou deficiência de algum tipo. Ela, por outro lado, encontra a pessoa perfeita pra derramar tudo que seu silêncio solitário cotidiano guarda, e o que não se sabia antes, logo fica claro, pois seu interesse pelo garoto se torna visível, e ela passa não apenas a "abastecê-lo", com alimentação, roupas e moradia, como passa a tentar mantê-lo preso em sua casa.
Esse estranho "pacman" que se estabelece entre os dois é o "ouro" desse filme. A atitude do garoto (Michael Burns), de se manter em silêncio e sem revelar seu nome, aumenta o mistério sobre sua intenção (que é revelada no decorrer do filme). Sua atitude jovem e infantil e seu desinteresse por sexo também reforçam a ideia de "adolescente sendo assediado por uma jovem senhora", algo que só se torna realmente explícito nos últimos segundos do filme.
Essa é uma discussão que requer cuidado até nos dias de hoje, então vejo como extremamente ousada a ideia de levar esse tipo de conceito às telas do cinema. Isso é tão verdade que algumas boas atrizes, como Ingrid bergman, recusaram o papel de Frances por achar "nojento" demais.
A sexualidade feminina era um tabu maior do que é hoje em dia no final da década de 1960, tabu que passaria, justo nesse período, por uma revolução, e ainda que ao fim a narrativa reproduza certos discursos que poderiam ser mal vistos nos dias de hoje (a mulher que reage histericamente ao desejo sexual não consumado, mas que na verdade é uma crítica à opressão sexual), Altman mais uma vez olha "perto demais", agora para um tópico primitivo demais e que o costume torna difícil encarar. Com That Cold Day in the Park, Altman nos entrega um suspense psicológico da melhor qualidade, com todo o refinamento que lhe é característico.
Nota: 4,5/5
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