Brewster McCloud é um garoto que mora no subsolo de um grande estádio, o Houston Auditoriun, e, apesar de não ter família ou parentes, possui alguns amigos e um nobre sonho de liberdade, o qual segue de forma ritual, quase religiosa.Essa liberdade, entretanto, só é alcançada a partir do voo, e para isso, Brewster está contruindo, literalmente, um par de asas mecânicas que o auxiliem na realização do seu sonho.
De cara, percebemos se tratar de um roteiro inspirado no mito grego de Ícaro, que também concebeu um par de asas para que conseguisse chegar até o sol. A versão de Altman, no entanto, é mais melancólica, humana, e igualmente emocionante. Assim como à Ícaro, falta à Brewster a sabedoria que vem com a maturidade e que vem em grande auxílio na hora de direcionar nossos voos diários. É uma trama simples e cheia de metáforas, analogias e simbolismos, que tocam cada vez mais fundo à cada nova associação.
O mérito de um argumento repetido que ganha metros cúbicos incontáveis em profundidade é todo de Altman, que recriou todo o argumento original, do qual pouco se aproveitou, para contar a história de um sonho adolescente destruído pela ansiedade juvenil. Assim como faria em diversos trabalhos posteriores, Altman aprofunda o olhar sobre a sociedade mais objetivamente aqui, e não apenas no indivíduo, a fim de desenhar um cenário que justifique a busca do personagem central.
A escolha narrativa feita aqui é a de uma espécie de crônica cotidiana com nuances fantásticas. A vida humana é narrada como quem narra um documentário sobre... bem, pássaros, com seus tipos, comportamentos e necessidades específicas, - e aqui Altman nos entrega momentos brilhantes de sua veia crítica dos costumes. Brewster vai se destacar entre tantos, quase como um escolhido do universo, por sua "ingenuidade e vontade não corrompidas". Um anjo da guarda malandro na figura de uma mulher (loira), vem em seu auxílio como uma mãe que não deixa faltar nada, inspira, e o mantem, n'O Caminho. Até que o amor surge na vida de Brewster e ele precisa fazer uma escolha, pois a orientação do seu voo deve ser uma só - não se serve a dois deuses.
É uma história simples e que vai além da inspiração no mito grego, indo fundo nas próprias fundações do pensamento humano, em que o amor e a liberdade são ideais que orientam as civilizações desde os tempos antigos, consistindo o desejo de Brewster em algo muito básico e instintivo, quase primitivo, do ser humano (por mais mal interpretados que sejam através dos milênios, as religiões se fundamentam nesses ideais, nesse amor absoluto àquilo que liberta, e a própria filosofia alcança essas mesmas leituras sob muitas óticas diferentes).
Brewster McCloud tem um humor ácido e uma grande qualidade comunicativa ao trabalhar símbolos e analogias para explicitar uma ideia (afinal, não há nada que seja mais direto que um símbolo ou uma analogia). O roteiro é primoroso, e um dos mais criativos já realizados por Altman. Ele mesmo já afirmou que teve e se deu toda a liberdade, vejam só, para trabalhar em Brewster McCloud, liberdade essa que nunca voltaria a ter, por a realidade sempre bate e nos acorda do sonho. A consciência veio e foi consumada no ato!
Nota: 4,5/5
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