segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Brewster McCloud (Robert Altman, 1972): original, brilhante!


São raros aqueles filmes capazes de nos nutrir (a palavra é essa mesmo) a partir dos olhos e nos contemplar em todas as dimensões imagináveis do nosso espírito. Brewster McCloud, realizado por Robert Altman após o bem sacado M.A.S.H. consegue essa proeza, e antes que se entenda ele por "cult" demais ou pouco simples (é justamente o contrário), eu já adianto que esse é um dos trabalhos mais criativos da década de 1970. É um dos (muitos) pontos altos da carreira de Altman nessa década, e declaradamente um dos trabalhos favoritos do diretor. 

Brewster McCloud é um garoto que mora no subsolo de um grande estádio, o Houston Auditoriun, e, apesar de não ter família ou parentes, possui alguns amigos e um nobre sonho de liberdade, o qual segue de forma ritual, quase religiosa.Essa liberdade, entretanto, só é alcançada a partir do voo, e para isso, Brewster está contruindo, literalmente, um par de asas mecânicas que o auxiliem na realização do seu sonho.

De cara, percebemos se tratar de um roteiro inspirado no mito grego de Ícaro, que também concebeu um par de asas para que conseguisse chegar até o sol. A versão de Altman, no entanto, é mais melancólica, humana, e igualmente emocionante. Assim como à Ícaro, falta à Brewster a sabedoria que vem com a maturidade e que vem em grande auxílio na hora de direcionar nossos voos diários. É uma trama simples e cheia de metáforas, analogias e simbolismos, que tocam cada vez mais fundo à cada nova associação.

O mérito de um argumento repetido que ganha metros cúbicos incontáveis em profundidade é todo de Altman, que recriou todo o argumento original, do qual pouco se aproveitou, para contar a história de um sonho adolescente destruído pela ansiedade juvenil. Assim como faria em diversos trabalhos posteriores, Altman aprofunda o olhar sobre a sociedade mais objetivamente aqui, e não apenas no indivíduo, a fim de desenhar um cenário que justifique a busca do personagem central. 

A escolha narrativa feita aqui é a de uma espécie de crônica cotidiana com nuances fantásticas.  A vida humana é narrada como quem narra um documentário sobre... bem, pássaros, com seus tipos, comportamentos e necessidades específicas, - e aqui Altman nos entrega momentos brilhantes de sua veia crítica dos costumes. Brewster vai se destacar entre tantos, quase como um escolhido do universo, por sua "ingenuidade e vontade não corrompidas". Um anjo da guarda malandro na figura de uma mulher (loira), vem em seu auxílio como uma mãe que não deixa faltar nada, inspira, e o mantem, n'O Caminho. Até que o amor surge na vida de Brewster e ele precisa fazer uma escolha, pois a orientação do seu voo deve ser uma só - não se serve a dois deuses. 

É uma história simples e que vai além da inspiração no mito grego, indo fundo nas próprias fundações do pensamento humano, em que o amor e a liberdade são ideais que orientam as civilizações desde os tempos antigos, consistindo o desejo de Brewster em algo muito básico e instintivo, quase primitivo, do ser humano (por mais mal interpretados que sejam através dos milênios, as religiões se fundamentam nesses ideais, nesse amor absoluto àquilo que liberta, e a própria filosofia alcança essas mesmas leituras sob muitas óticas diferentes).

Brewster McCloud tem um humor ácido e uma grande qualidade comunicativa ao trabalhar símbolos e analogias para explicitar uma ideia (afinal, não há nada que seja mais direto que um símbolo ou uma analogia). O roteiro é primoroso, e um dos mais criativos já realizados por Altman. Ele mesmo já afirmou que teve e se deu toda a liberdade, vejam só, para trabalhar em Brewster McCloud, liberdade essa que nunca voltaria a ter, por a realidade sempre bate e nos acorda do sonho. A consciência veio e foi consumada no ato!


Nota: 4,5/5


Trailer: 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Shock Corridor (Samuel Fuller, 1963): thriller psicológico "apenas ok".




O tema “loucura” sempre fez parte do universo do horror, direta ou indiretamente. Os transtornos psicológicos sempre estão presentes nas tramas, ainda que de forma invisibilizada ou simplificada na batalha simbólica entre bem e mal, comum a maioria geral dos enredos. E mesmo que algumas dessas histórias não descambem no terror propriamente dito, com asilos assombrados e afins, há outras que conseguem nos angustiar só com a possibilidade da loucura.

Esse é o caso de Shock Corridor, que saiu aqui no Brasil como Paixões que Alucinam. Um bom título, inclusive. Lançado em 1963 sob a direção de Samuel Fuller, a obra retrata uma empreitada nada extravagante: um jornalista se infiltra num asilo com a missão de desvendar o assassinato de um interno. Mas não há nada de altruísta nessa missão. O repórter, nitidamente, quer crescer na carreira e até ganhar um Pulitzer, e viu no crime uma grande oportunidade.

Para isso, ele realiza um treinamento junto a um psiquiatra, outro profissional de integridade duvidosa, que vai ajudá-lo em sua atuação. Para ser aceito no hospital como um interno, ele se passará por um homem com tendências incestuosas. Some isso a um comportamento violento (pra lá de caricato), e tem-se as condições necessárias para que o hospital o receba como paciente.

O tiro, entretanto e como é de ser, sai pela culatra. Primeiro porque estamos falando de um um hospital para distúrbios mentais/psíquicos da década de 1960. As terapias por eletrochoque eram comuns, e mesmo que não fosse, um interno não passaria pela experiência sem receber o tratamento direcionado para os seus distúrbios sem as medicações correspondentes.

Eu vejo isso como um furo imenso no roteiro, visto que um hospital não é um SPA, então não justifica que o “choque” e revolta dos superiores do repórter "herói", que estimularam que se aventurasse nessa missão suicida apenas visando projeção. A deterioração psíquica do nosso nada nobre jornalista é o mote da trama, e rende momentos agonizantes.


O filme, como um todo, peca pelo andamento que pode parecer lento, e a interpretação caricata de alguns personagens - principalmente dos loucos e do protagonista. O processo de admissão dele em um hospital como aquele foi deveras simples, fácil, mas damos um desconto por outros assuntos que o roteiro traz à tona.

A compreensão do que é loucura ou distúrbio psicológico, e as causas desses distúrbios, encontram amplo embasamento hoje nas ciências da mente e nas ciências sociais. Shock Corridor aborda de forma muito tímida como as “doenças sociais”, como o racismo e o sexismo afetavam particularmente determinadas categorias de indivíduos, que eram pegos para bode expiatório dos crimes de preconceito tão comuns à sociedade conservadora.

Não é o melhor filme do gênero. Shutter Island (2010) continua sendo o melhor exemplo desse tipo de investida, e até o Suddenly… Last Summer (1968), contemporâneo de Shock Corridor, aborda o tema de forma mais factível e instigante. Shock Corridor é um bom thriller psicológico, no entanto, que não passou despercebido na época.


Nota: 3,5/5

Filme completo no canal Cine Alternativo Filmes Clássicos no Youtube

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Texas Chainsaw Massacre - The Next Generation (Kin Henckel, 1994): jesus maria josé, o que foi isso?!


Acabo de me deparar com o PIOR filme que já vi na vida, e vai entrar aqui no blog como curiosidade e alerta rsss. 

Quatro anos após o lançamento do mediano Leatherface, resolveram nos jogar mais uma "continuação" de o Massacre da Serra Elétrica, e dessa vez com a proposta afrontosa de ser uma continuação do filme original. A participação de Kin Henckel, roteirista do filme original, agora na direção, gera alguma expectativa, mas logo nos primeiros minutos de filme, percebemos logo que pretensão arrogante. O filme se mostra uma bomba tão logos os personagens engatam o primeiro diálogo. O roteiro se pretende um remake, e apresentar uma "next generation" da família Sawyer, mas até o fim do filme a gente sequer entende direito o que raios acontece. 

A trama é a mesma dos outros filmes. Dessa vez, quatro jovens se perdem nas proximidades do sítio dos Sawyer - que aqui já não é mais no meio do nada e sim próximo a uma cidade pequena onde, na noite em questão, está acontecendo um daqueles detestáveis bailes de formatura. Esses jovens saem do baile de carro a esmo devido uma situação fajuta, e depois de uma conversa estúpida dentro do carro, sofrem um acidente no perímetro do lar dos Sawyer, e uma noite de alucinação se inicia.

Alucinação porque não faz sentido nenhum nada que nos é apresentado em cena. Resolveram ignorar toda a mitologia e nos jogar, pela segunda vez, uma família Sawyer completamente diferente daquela que aparece no filme original e na parte 3. Ainda temos Leatherface, numa fase feminina (?!) e o vovô, que também não aguenta muito aquela besteirada toda, se levanta e vai embora no meio do filme. 

A tentativa do diretor de fazer um novo produto que resgate a atmosfera clássico ficou por conta de várias cenas copiadas do original e do clima de desespero e insanidade - que aqui não é desepero e nem insanidade, é só gritaria mesmo. A pobre Renee Zellweger, ainda novata, em seu sexto papel, parece tão perdida quanto nós, sem saber pra que lado OLHAR, tamanha BAGUNÇA em cena. 

Leatherface aqui está cada vez mais infantilizado. Além de está passando por uma fase confusa em relação ao gênero (parecendo uma tia cinquentona), está apagadíssimo, reduzido a mero coadjuvante, e ainda passa vergonha na cena final ao imitar sua cena clássica do filme original. O vilãozão na verdade é interpretado pelo Matthew McConaughey, numa atuação que não vou criticar porque nunca vi nada parecido. E como se não bastasse, o roteiro ainda me vem com a pachorra de tentar associar a família Sawyer a uma espécie de seita sadomasoquista, à semelhança do que tentaram fazer com o Michael Myers nos Halloweens 4 e 5. 

Enfim, esse filme é ruim pra caralho. Eu costumo ver coisa boa em todo tipo de filme, por achar que são obras únicas e que até seus problemas de produção compõem a "mística", mas não resumem as propostas. Mas esse "Retorno", como foi chamado no título brasileiro, era melhor não ter acontecido. Ou não, nem sei. Ainda to em choque.


Nota: 1/5

Trailer

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...