quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Shock Corridor (Samuel Fuller, 1963): thriller psicológico "apenas ok".




O tema “loucura” sempre fez parte do universo do horror, direta ou indiretamente. Os transtornos psicológicos sempre estão presentes nas tramas, ainda que de forma invisibilizada ou simplificada na batalha simbólica entre bem e mal, comum a maioria geral dos enredos. E mesmo que algumas dessas histórias não descambem no terror propriamente dito, com asilos assombrados e afins, há outras que conseguem nos angustiar só com a possibilidade da loucura.

Esse é o caso de Shock Corridor, que saiu aqui no Brasil como Paixões que Alucinam. Um bom título, inclusive. Lançado em 1963 sob a direção de Samuel Fuller, a obra retrata uma empreitada nada extravagante: um jornalista se infiltra num asilo com a missão de desvendar o assassinato de um interno. Mas não há nada de altruísta nessa missão. O repórter, nitidamente, quer crescer na carreira e até ganhar um Pulitzer, e viu no crime uma grande oportunidade.

Para isso, ele realiza um treinamento junto a um psiquiatra, outro profissional de integridade duvidosa, que vai ajudá-lo em sua atuação. Para ser aceito no hospital como um interno, ele se passará por um homem com tendências incestuosas. Some isso a um comportamento violento (pra lá de caricato), e tem-se as condições necessárias para que o hospital o receba como paciente.

O tiro, entretanto e como é de ser, sai pela culatra. Primeiro porque estamos falando de um um hospital para distúrbios mentais/psíquicos da década de 1960. As terapias por eletrochoque eram comuns, e mesmo que não fosse, um interno não passaria pela experiência sem receber o tratamento direcionado para os seus distúrbios sem as medicações correspondentes.

Eu vejo isso como um furo imenso no roteiro, visto que um hospital não é um SPA, então não justifica que o “choque” e revolta dos superiores do repórter "herói", que estimularam que se aventurasse nessa missão suicida apenas visando projeção. A deterioração psíquica do nosso nada nobre jornalista é o mote da trama, e rende momentos agonizantes.


O filme, como um todo, peca pelo andamento que pode parecer lento, e a interpretação caricata de alguns personagens - principalmente dos loucos e do protagonista. O processo de admissão dele em um hospital como aquele foi deveras simples, fácil, mas damos um desconto por outros assuntos que o roteiro traz à tona.

A compreensão do que é loucura ou distúrbio psicológico, e as causas desses distúrbios, encontram amplo embasamento hoje nas ciências da mente e nas ciências sociais. Shock Corridor aborda de forma muito tímida como as “doenças sociais”, como o racismo e o sexismo afetavam particularmente determinadas categorias de indivíduos, que eram pegos para bode expiatório dos crimes de preconceito tão comuns à sociedade conservadora.

Não é o melhor filme do gênero. Shutter Island (2010) continua sendo o melhor exemplo desse tipo de investida, e até o Suddenly… Last Summer (1968), contemporâneo de Shock Corridor, aborda o tema de forma mais factível e instigante. Shock Corridor é um bom thriller psicológico, no entanto, que não passou despercebido na época.


Nota: 3,5/5

Filme completo no canal Cine Alternativo Filmes Clássicos no Youtube

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