quinta-feira, 14 de abril de 2022

Destacamento Blood (Spike Lee, 2020): sobre as guerras sem fim.

A Guerra do Vietnã foi um dos conflitos mais marcantes do século passado e deixou várias sequelas em todos os que vivenciaram o conflito, de uma forma ou outra, de uma forma ou outra. Num saldão geral, mais de um milhão de vietnamitas (alguns falam em 3 milhões) foram mortos em confronto. Do outro lado, 58 mil estadunidenses padeceram. Dos dois lados, a maioria jovem demais para sequer compreender o que estava acontecendo. O cinema estadunidense já nos presenteou com algumas boas obras referentes ao momento, e que marcaram o cinema, hoje, “standard”, sendo Platoon (Oliver Stone, 1986) e Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979), dois dos melhores exemplos. 

Outros exemplos mais aleatórios, mesmo não tratando exatamente sobre a Guerra do Vietnã, trazem personagens que vivenciaram o conflito (em outros casos, conflitos mais atuais, no Afeganistão ou Síria), e nos lembram que a guerra nunca acaba para estas pessoas. Os horrores permanecem bem vivos na mente daqueles que porventura conseguem voltar à segurança do lar, sempre a um custo muito alto que pagam para o resto de suas vidas. O mais recente filme de Spike Lee, Destacamento Blood, bate muito nessa tecla da “continuidade” da guerra, mesmo tantos anos depois.

A narrativa segue um grupo de quatro amigos que, algumas décadas após o Vietnã (não se especifica exatamente quando), resolvem retornar ao lugar para recuperar os restos mortais de um quinto amigo, Stormin’ Norman (Chadwick Boseman), morto durante o conflito, e que exercia uma grande influência moral e espiritual no grupo de amigos. Era visto por eles como um líder, e era amado e respeitado como um irmão. Com um guia vietnamita, eles seguem floresta adentro em busca do local exato onde o corpo está enterrado, mas aqueles caminhos, tão conhecidos, guardam mais lembranças e dores do que eles imaginavam estar preparados para aguentar.

Destacamento Blood então é Spike Lee em sua melhor forma. Com o argumento, o realizador constrói o cenário ideal para contar uma outra história da Guerra do Vietnã, a história daqueles que estavam na ponta dos conflitos, e que provavelmente eram retratados como coadjuvantes em outros filmes sobre o assunto. Ao longo da história, acompanhamos quatro amigos compartilhando lembranças, dificuldades, as consequências da guerra, e as violências a mais oriundas do racismo. Compartilham também, com muita camaradagem, seus heróis, seus ídolos, e uma sensibilidade há muito “instigada” pela figura estimulante de Stormin’ Norman.

O respeito que os amigos detêm pela personagem maravilhosamente interpretada por Chadwick Boseman é inspirador. Norman era uma pessoa altamente “presente”, consciente dos problemas do mundo e da própria condição, e foi a base espiritual de seus amigos em muitos momentos durante o conflito, sem nunca deixá-los esquecer quem eram e por que estavam ali.

Apesar de longo e de ritmo moderado, o longa (bem longa, mais ou menos 2h30 de duração, Destacamento Blood impressiona pela narrativa, que poderia até ser mais dramática, mas o roteiro dividiu de forma muito equilibrada os momentos mais dramáticos com outros realmente felizes, além de umas boas cenas de suspense (que mesmo previsíveis, surpreendem).

Mas mais uma vez Spike Lee nos construiu uma ficção sobre algo real, com nomes e registros dos que viveram a “vida real”. É uma tentativa de resgatar a honra daqueles que lutaram na guerra “real”, sempre negligenciados nas produções do tipo. Heróis como Milton Olive, primeiro negro condecorado em ocasião da Guerra do Vietnã e amplamente destacado nos diálogos entre os quatro amigos, mas também herois como Marvin Gaye, que de longe imprimia o questionamento sobre o que estava acontecendo (what’s goin’ on) nas mentes do seus “bloods”. Em suma, Destacamento Blood é um bom filme, bonito, feito com carinho e respeito, e apesar de alguns probleminhas de ritmo, supera muitos filmes sobre guerra que sempre ignoram o principal em relação a estes conflitos: eles nunca acabam pra quem esteve lá.

Nota: 4,5 /5



Ficha Técnica


Título original: Da 5 Bloods
Ano: 2020
País: Estados Unidos
Direção: Spike Lee
Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Kevin Willmott, Spike Lee
Companhia(s) produtora(s): 40 Acres and a Mule Filmworks; Rahway Road; Lloyd Levin/Beatriz Levin Production
Distribuição: Netflix
Elenco: Delroy Lindo, Chadwick Boseman, Jonathan Majors, Clarke Peters, Mélanie Thierry, Paul Walter Houser, Norm Lewis

TRAILER:

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