terça-feira, 19 de abril de 2022

Paranoia (Rob W. King, 2018): paranoia da boa.


O maior fato sobre esse ignorado Paranoia é ele ser estrelado pela Christina Ricci, atriz que conquistou fama na infância com sua versão para a esquisita Wednesday Addams, fama essa que a ultrapassa até hoje. É um fato também a atriz ter boa parte de sua filmografia preenchida por filmes de terror ou outros em que interpreta personagens diferentes do comum. Mas ressalva aqui é que nem sempre ela é a esquisita da história, mas parece ser esse um daqueles casos em que a estranheza impregna no artista. 

É o que acontece em Paranoia, por exemplo, um dos filmes mais recentes do diretor Rob W. King. Nele, Ricci interpreta Lauren Curran, uma pintora que está vivendo um período de transtorno bipolar, condição que leva ela e o marido a mudarem de casa. Eles optam por um luxuoso condomínio “smart”, fora da cidade, mas coisas estranhas começam a acontecer e colocam a sanidade de Lauren em xeque mais uma vez. Entre as idas e vindas no novo lar, Lauren tem que lidar com a energia estranha dos super ricos com quem divide a nova morada, enquanto capta estranhas mensagens vindas nas ondas de tv ou de rádio.

Um dos aspectos positivos desse filme é o roteiro, que apesar de parecer clichê, não é tão clichê quanto se imagina. Há toda uma tentativa, muito bem sucedida, eu diria, de colocar dúvida no espectador quanto ao que Lauren vê. A nem tão distante assim discussão que se faz sobre o poder das grandes corporações e o uso de remédios no controle da população também é levantada, não como em o Laranja Mecânica (1971), Vício Inerente (2014) ou até Bacurau (2019), mas nunca perspectiva realmente "paranóica", o que põe nos em dúvida durante toda a reprodução sobre a veracidade do que estamos vendo. Na verdade, muitas vezes eu quis avançar e terminar logo só pra matar minha curiosidade e ver se “era isso mesmo” que eu estava vendo.

Christina Ricci, inclusive, carrega o filme nas costas. Como já disse, ela não é sempre a figura esquisita das produções. Às vezes as produções são esquisitas e ela se encaixa perfeitamente em determinados papéis. Ela não só dá conta da bipolaridade de Lauren, como consegue nos passar toda a confusão e sensação de irrealidade que volta e meia toma. O mesmo não se pode dizer do restante do elenco, com atuações rasas, mas que até se justificam ao fim. John Cusack, como um dos personagens centrais, também não está em um de seus melhores momentos.

Por outro lado, o filme tem outras características que o tornam bastante diferente. A fotografia é uma delas. Os ângulos e enquadramentos são esquisitos, os cenários parecem artificiais na maior parte das tomadas, e até o posicionamento dos personagens nos espaços da cena parece ter algo “errado” ou desconfortavelmente assimétrico . O trabalho de câmera também é estranho, com muitas cenas parecendo terem sido filmadas de um bom celular. A maior parte dos aspectos técnicos tem “algo” de estranho, que passam a sensação de ser um produto filmado “na mão”, e isso não é exatamente ruim. Desconfortável, talvez. Fora da nossa zona de conforto audiovisual, certamente.

Ao fim, é uma experiência diferente. É perceptível o porquê desse filme ser tão pouco comentado (eu só encontrei uma crítica em português sobre esse filme, e não é de nenhum dos veículos tradicionais sobre cinema). É um filme meio difícil de assistir, principalmente pelos aspectos técnicos mencionados, mas é um filme curtinho e diferente, com uma “viagem” interessante e que ainda nos rende um ou duas boas surpresas.


Nota: 3,8 /5



Ficha Técnica


Título original: Distorted
Ano de lançamento: 2018
País: Canadá
Direção: Rob W. King
Roteiro: Arne Olsen
Companhia Produtora: Bridgegate Pictures, Mind’s Eye Entertainment, Movie Trailer House
Elenco: Christina Ricci, John Cusack, Brendan Fletcher, Julia Maxwell, Vicellous Reon Shannon

TRAILER: 

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