Em 1974, Robert Altman já tinha lançado trabalhos grandiosos e era um dos maiores expoentes do cinema daquela década. Sua carreira vinha num “crescendo” desde 1968, e já havia atingido alguns picos com o subversivo M.A.S.H. (1970) e o romântico McCabe e Mrs. Miller (1971). Um novo “pico” foi encomendado - ele viria a ser seu clássico maior, Nashville, de 1975 - mas antes disso Altman quis realizar um projeto menor e mais pessoal, que deveria sair, e saiu, do jeito que Altman queria.
Thieves Like Us, ou Renegados até a Última Rajada, é adaptado do livro homônimo de Edward Anderson lançado em 1937. A história gira em torno do trio de ladrões de banco Bowie (Keith Carradine), Chicamaw (John Schuck) e T-Dub (Bert Remsey), recém fugidos da prisão e que precisam completar uma “cota” de assaltos a fim de garantir suas aposentadorias.
Mais uma vez, Altman volta a narrar a vida de personalidades vistas como “comuns” por olhos desinteressados, ainda que essas personalidades sejam de “foras da lei”. Com ambientação da década de 1930, o diretor narra o cotidiano dos três bandidos durante essa última missão a partir do olhar de Bowie, o mais novo dos três, que se apaixona pela imatura Keechie (Shelley Duvall), típica garota de interior sulista que vê nos relacionamentos amorosos a solução para os problemas da vida.
Apesar de ser considerado um filme menor, Thieves Like Us contém toda a arte de Altman em sua forma mais pura - e saber que ele teve total controle na produção do filme talvez justifique isso. Sua técnica cada vez mais refinada já permitia bons mergulhos nos “espíritos” dos personagens, possibilitando aqui uma ligação empática junto aos protagonistas, mesmo estes sendo de moral duvidosa e manifestação irresponsável.
Uma característica interessante do filme é a ausência de trilha sonora, sendo as transmissões de rádio a principal atmosfera sonora que envolve a trama: todos estão atento ao rádio, seja acompanhando as notícias esperando novidades sobre os três foragidos nos programas policiais, seja se entretendo com as músicas da época e as populares radionovelas. Há uma cena marcante onde todos os personagens estão envolvidos com um episódio do programa O Sombra, popular novela de mistério sobre um vingador que age nas ~ sombras ~ com habilidades hipnóticas que permitía controlar a mente humana.
A ambientação aprofunda a nossa experiência com o cotidiano dos personagens, e a cenografia faz com que o clima western transpire em cada quadro. Sobre isso, mais uma vez é interessante observar como Altman subverte a lógica do western hollywoodiano: longe dos dicotômicos filmes de bang-bang da era de “ouro” de Hollywood, Altman nos presenteia com o oeste sentimental, povoado por corações rudes mas também por almas sensíveis, que muitas vezes estão apenas perdidas em meio a crueza da realidade. À exemplo do que já havia sido feito em Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas (Arthur Penn, 1967), Altman, que também assinou o roteiro da produção, nos aproxima (com aquele seu zoom característico), de três perspectivas diferentes (a partir dos três personagens centrais) sobre a vida fora da lei, e nos lembra que há muito mais vida entre aqueles que a moral vigente não contempla (ou exclui mesmo) do que nosso preconceito permite supor.
Nota: 4,2 /5


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