sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.


Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, digamos, no topo da carreira como distribuidor de pó nas ruas do Harlem. Ele quer sair do tráfico e planejou um último esquema, mexeu com os chefões da área e precisa se desenrolar das tramas que o prenderam durante esse rolê.

Não chega a ser um filme policial. A não ser que seja um filme policial ao contrário. Está mais para um desses filmes de máfia, ainda que não ao estilo dos grandes, mas fazendo o melhor possível de forma muito bem realizada. É de se pensar em um arco de redenção, mas ao fim, ele é apenas realista em sua conclusão. No mais, a rotina dos viciados e os "corres" são bem representados, com mais estilo que fantasia.

A associação da comunidade negra às drogas feitas pelo roteiro levou muitos a torcerem o nariz, mas ainda assim, o filme foi apoiado financeiramente pelos moradores do Harlem, e distribuído por um grande estúdio, a WB, assim como outros bons representantes da blaxploitation, como Shaft. Destaque pro figurino maneiríssimo e a igualmente cool trilha sonora de Curtis Mayfield, que de forma vista (ouvida) poucas vezes, descreve à perfeição a energia representada no longa. Vale o rolê, total!





Titulo: Super Fly

País: Estados Unidos

Ano: 1972

Direção: Gordon Parks Jr.

Elenco: Ron O’Neal, Carl Lee, Julio W. Harris, Sheila Frazier


segunda-feira, 23 de junho de 2025

A Marca da Forca (Ted Post, 1968): lavado e passado depois de se lambuzar no spaghetti...


A Marca da Forma é visto por aí como um filme de transição entre o cowboy Clint, que fez seu nome na década de 1960, e o Eastwood Cop, persona que o ator que incorporaria em boa parte de seus filmes a partir de então. A produção americana, no entanto, difere muito da sequência de spaghettis que o ator trilhava até ali, e que alçou seu nome como uma das principais referências da produção western.

O filme conta a história deste ex-homem da lei, Jed Cooper, que, em uma andança, é quase enforcado por engano por um grupo de linchadores da cidade mais próxima, Fort Grant. Como não terminaram o serviço e Jed foi salvo na última hora, o justiceiro sai em busca de de sua vingança pessoal, ingressa na polícia de Fort Grant, e sai em busca de seus algozes.

A narrativa tenta elaborar temas maiores, como justiça, igualdade e outros, mas não engrena o suficiente a ponto de fazer o olho brilhar. A produção também é “limpa” demais, algo que me incomoda bastante nos westerns estadunidenses: as ruas do oeste selvagens limpas, sem um fiapo de poeira nos estabelecimentos, sem uma teia de aranha nos barris dos saloons, além de ser um western povoado por beldades e homens engomados demais pros EUA de 1800 e lá vai pedra.

Enfim, ainda é um filme ok, e ainda é um dos westerns legais dos EUA. Tá disponível no Prime, mas logo não estará mais. 
2/5


Titulo: Hang ‘em High
País: Estados Unidos
Ano: 1968
Direção: Ted Post
Elenco: Clint Eastwood, Inger Stevens, Ed Begley, Pat Hingle

sexta-feira, 30 de maio de 2025

A Morta-Viva (Jean Rollin, 1982): na França até o zumbi é existencialista.

A Morta-Viva, do cineasta francês Jean Rollin, é um filme de “zumbi” bem diferente dos demais. Lançado em 1981, após uma carreata de filmes, obras de nome como George Romero e Lucio Fulci, que solidificaram o subgênero dentro do mundo do horror, o representante francês já inova ao apresentar uma abordagem mais melancólica e existencial, rompendo alguns padrões que haviam sido recentemente impostos. 

Tudo começa quando dois ladrões de ocasião invadem uma cripta no subsolo de um castelo francês, onde estão os mortos da família no local com a pretensão de encontrar alguma joia ou objeto de valor nos caixões. Eles também carregam consigo, não se sabe porque, um galão de material tóxico, que convenientemente é derramado e atinge um dos caixões, o que jaz a última falecida da família, a jovem Catherine Valmont. Esta, retorna a vida com um desejo insaciável por sangue humano. 

A partir daqui, o filme se distancia de seus semelhantes, e foca no processo de “tornar a vida” da morta, que aos poucos e com a ajuda da irmã, começa a retomar a vida orgânica, com todas as memórias e vivências, as antigas capacidades (de quando viva) e uma autoconsciência que é o que diferencia A Morta-Viva de todos os filmes de zumbis. A interessante relação de Helene com a irmã morta-viva também é um destaque, visto que a sede de sangue da irmã parece despertar algum impulso assassino despertado pelo medo da perda da irmã, também amiga e companheira. 

A Morta-Viva é um representante tido como “menor” da filmografia de Rollin, com menos efeitos gráficos e mais ambientação do que seus outros trabalhos. Vale a pena pelo olhar diferente sobre um subgênero que dificilmente sai do lugar comum, especialmente nos dias de hoje.  

3,5/5



Titulo: La Morta Vivante

País: França

Ano: 1982

Direção: Jean Rollin

Elenco: Marina Pierro, Françoise Blanchard, Carina Barone


sábado, 24 de maio de 2025

Tarântula (Jack Arnold, 1955): clássico B de monstro by Jack Arnold.

Tarântula é um daqueles filmes B por excelência, e assim como quase todos os produtos de sua época, explora de forma criativa as possibilidades mais absurdas que a ciência poderia conferir à humanidade. Aqui, temos um trio de cientistas que tenta estabilizar um tipo de nutriente que, segundo ele, é capaz de solucionar o problema da fome no mundo. O tal nutriente produz efeitos adversos em humanos, na forma de uma doença que aumenta partes do corpo, algo que afetou dois cientistas do grupo.

Nos animais, no entanto, o aumento de tamanho poderia sugerir uma grande quantidade de alimento para humanos. Mas ainda na fase de teste em pequenos animais, algo sai errado e o resultado é uma tarântula de dezenas de metros de altura e comprimento invadindo a cidade.

Aqui, uma coisa legal da década de 1950. Marcou o início da corrida espacial e todo o progresso científico daqueles tempos. No cinema, a ficção científica emergia com um infinito de possibilidades absurdas, mas não menos possíveis por isso: seres de outros planetas, invasões alienígenas, monstros mutantes, crescer e encolher em tamanho - e Jack Arnold deu vida a muitas destas possibilidades.

Tarântula é um filme divertido e bem produzido, com belíssimas paisagens desérticas e efeitos especiais que provavelmente são o que havia de melhor na época. Guarda semelhança com outros produtos do período, como os diversos filmes de ameaça espacial que tomavam conta das produções do período, algo entre o clássico e o B, muito teatral, altas doses de ação e monstruosidades misturadas com interessantes reflexões sobre o presente da humanidade. Pra ver no sabadão a tarde comendo pipoca. 3/5



Titulo original: Tarantula

País: Estados Unidos

Ano: 1955

Direção: Jack Arnold

Elenco: Leo G. Carroll, John Agar, Mara Corday


quarta-feira, 21 de maio de 2025

A Ameaça que Veio do Espaço (Jack Arnold, 1953): paranoia nossa de cada dia.

Quando se fala em alienígenas invasores de corpos, o primeiro filme que me vem à mente é sempre Vampiros de Almas, clássico paranoico de Don Siegel lançado em 1956 e que marcou o cinema fantástico da década de 1950. Três anos antes, no entanto, a mesma premissa já havia sido apresentada nas telas no bom-quase-excelente A Ameaça que veio do Espaço, de Jack Arnold. 

Primeiro filme de ficção científica lançado em 3-D e estreia de Jack Arnold no gênero, que adentraria cada vez mais no mundo dos monstros com produções como Tarântula (1955), O Monstro da Lagoa Negra (1954), O Incrível Homem que Encolheu (1957) e outros, A Ameaça que Veio do Espaço é mais um representante do sci-fi claustrofóbico estadunidense daqueles tempos, marcado pelo medo do “perigo vermelho” que “sempre” ameaça aquele povo criado a base de macdonalds e paranoia servida em refil.

No filme, um astrônomo amador e sua namorada testemunham a queda de uma nave espacial nas proximidades de uma velha mina no meio do deserto californiano. As autoridades acreditam tratar-se apenas de um meteorito, enquanto reagem de forma incrédula às afirmações do tal astrônomo sobre a nave espacial. No entanto, alguns moradores da região começam a agir de forma estranha, como se não fossem eles mesmos, cometendo pequenos furtos de ferramentas e outros materiais de reparo.

Iniciando uma investigação por conta própria, o astrônomo descobre que a tal ameaça que veio do espaço chegou à Terra por engano, por um defeito na espaçonave que, agora, precisa de conserto. 

Premissa coerente quando se pensa em visitantes alienígenas, A Ameaça que Veio do Espaço não faz feio ao retratar os seres visitantes não como invasores, e a consequente recepção violenta dos terráqueos, movida pelo medo do diferente, do estrangeiro, muito alinhada à mentalidade daquela época. Inspirado na história The Meteor, de Ray Bradbury, Tem um final mais otimista que seu sucessor, Vampiros de Almas, mas deixa uma conclusão aberta, reiterando uma esperança ou temor sobre um possível contato futuro, quando a humanidade estiver preparada para lidar com o que existe fora de seus muros. 

Os efeitos práticos são bem feitos mas não são a melhor representação alien em tela. Vampiros de Almas se sai muito melhor aqui ao estabelecer a sugestão como artifício de terror. Ainda assim, uma boa história, carregada de dúvida e esperança, do tipo que faz falta no cinema sci-fi dos dias de hoje.   

3,5/5




A Ameaça que Veio do Espaço

Titulo original: It Came From Outer Space

País: Estados Unidos

Ano: 1953

Direção: Jack Arnold

Elenco: Richard Carlson, Barbara Rush, Charles Drake


sábado, 17 de maio de 2025

Esfera (Barry Levinson, 1998): bem bonzinho mas falta espírito.


Esfera é produto da ótima safra de 1998, ano em que fomos presenteados com algumas joias do cinema pipocão, como Impacto Profundo, Godzilla, Armagedom, Perdidos no Espaço e outros, e segue esta mesma linha de entretenimento - boa produção, uma história instigante, elenco maduro mas que já passou do auge.

Baseado em romance de Michael Chricton, o que, por si, já é uma quase garantia de coisa boa, conta a história de um grupo de cientistas que são escalados pelo governo americano para investigarem uma nave que foi descoberta no fundo do oceano. A exploração descobre a existência de uma grande esfera, em proporções perfeitas, e que parece exercer certa influência no ambiente, especialmente na mente humana. De que forma, não se sabe. Após o primeiro contato com a esfera, os cientistas começam a ter seu humor influenciado e estranhas manifestações passam a ocorrer.

É uma boa ficção científica com diversos elementos atrativos ao curtidor ocasional e até para os bons fãs do gênero. Os atores estão muito divertidos em seus personagens, especialmente o Liev Schreiber e o Samuel L Jackson, numa disputa divertida em cena. E tudo nesse filme é potencialmente legal, na verdade. Do elenco aos efeitos visuais, ambientações claustrofóbicas.

Por algum motivo, Esfera não deslanchou. Talvez pelo lançamento de Enigma do Horizonte, pouco antes, filme de proposta muito semelhante. O que sei é que percebo esse filme como perdido em um certo limbo de obras esquecidas - limbo esse em que figuraram muitos filmes B que tempos depois passamos a amar. Esfera poderia muito bem se incluir neste meio.

3,5/5 



Titulo: Sphere

País: Estados Unidos

Ano: 1998

Direção: Barry Levinson

Elenco: Dustin Hoffman, Sharon Stone, Samuel L. Jackson


segunda-feira, 12 de maio de 2025

Dia das Mães Macabro (Charles Kaufman, 1980): referência violenta em clássico da Troma


Dia das Mães Macabro é um dos mais famosos representantes da produtora Troma, clássica produtora e distribuidora de cinema independente, bem conhecida pela produção de O Vingador Tóxico. Mas aqui temos algo “diferente” do exemplar mais conhecido da produtora, algo bem mais alinhado ao hype do cinema de serial killer que estava em andamento naquele momento. 

Sem muita originalidade, o filme pega carona na esteira de O Massacre da Serra Elétrica (1974), contando a história de dois irmãos perturbados e carniceiros que, a mando de uma mãe ainda menos equilibrada que eles, sequestram três amigas que estão por ali curtindo uma trilha no fim de semana. O que se segue é um show de horrores ao estilo Aniversário Macabro (1972), tão brutal quanto, talvez melhor executado.

Desconsiderando o título enganoso - e eu aqui assisti no dia das mães pra fazer uma alusão à data -. Dia das Mães Macabro é um filme que se apoia na violência e na insanidade de seus antagonistas, com referências muito claras. Ainda que descambe para os extremos do rape and revenge, tem como destaque uma boa condução, bom roteiro e bons personagens. Não se explica muito sobre a família de assassinos, mas quem liga?!

3/5





Titulo original: Mother’s Day
País: Estados Unidos 
Ano: 1980
Direção: Charles Kaufman
Elenco: Tiana Pierce, Nancy Hendrickson, Deborah Luce

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...