Divino Amor foi o primeiro filme distópico brasileiro que vi. Dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro, que também dirigiu o elogiado (mas que ainda não vi) Boi Neon, lançado ano passado, Divino Amor nos apresenta uma possibilidade pavorosa para nosso Brasil: um futuro próximo, a lá Black Mirror, dominado pelo fundamentalismo cristão, onde a proposta do Governo para a sociedade fica claro no slogan do país: "Brasil, um país que cuida da Vida" (algo do gênero).... Cuida da vida dos outros, esqueceram de explicar! E nem precisa... ao longo do filme, vemos intervenções tecnológicas, a princípio sem sentido, mas que aqui e ali vão nos explicando o que acontece.
Trata-se de um país "do futuro", ou de um futuro onde as rtelações interpessoais adquiram outro patamar de importância, e talvez outro significado: há detectores de estado civil, de gravidez e até de paternidade em portas de estabelecimentos comerciais, drive thru de oração e outras marmotas do gênero, que tem como fito único controlar o comportamento e a vida do cidadão.
A filosofia por trás dessa tecnologia, desse slogan, dessa viagem toda, pelo que entendi, é controlar o cidadão no sentido de promover a Vida, mas não suas vidas individuais, mas a Vida, com V maiúsculo, que corre dentro de todos os seres vivos, e a qual muitos atribuem o nome de Deus. Uma ideia que até poderia dar bom mas só dá e continua dando merda nos mais diversos níveis desde os primórdios da humanidade.
Pois bem, Dira Paes, fenomenal e em sua melhor forma, interpreta uma burocrata que, literalmente, se mete na vida de casais que procuram o Governo em busca de divórcio. Ela intervém a ponto de fazer os casais desistirem de seus objetivos e voltarem às vidas infelizes que tinham, sob o discurso do amor, de Deus, da família, dessa conversa fiada toda que é mal interpretada pelos cristãos desde que Jesus foi crucificado.
Dira Paes salvou muitos casamentos, mas se encontra em conflito em busca de salvação para o seu, que passa por dificuldades devido à impossibilidade do casal em gerar um filho. E aí entra a igreja (ou seita, ou casa de swing) Divino Amor. Eu compreendi que, nesse futuro bizarro, apesar do cristianismo ser o modelo de pensamento predominante, existem muitas igrejas com as mais variadas perspectivas sobre o tema (apesar de isso não ser comentado e nem sugerido no filme), assim como hoje e desde sempre.
Divino Amor é uma igreja onde só casais congregam e dividem suas histórias, suas esperanças, suas angústias, e suas parcerias. Sim, há troca de casais, orgias, muito sexo desinibido e com vontade. Eu ainda não compreendi bem qual a ideia por trás da troca de parceiros (que transam com outros mas só gozam com o 'conje'), mas eis que o dilema surge: ante a infertilidade do marido, e a ocasional troca de parceiros, Dira Paes, infeliz buscando o motivo divino por trás do fato de não gerar um filho, engravida.... de ninguém.
A parte daqui o filme nos joga reflexões sobre a verdade por trás das relações, sobre a intervenção da religião e do Estado na vida privada, essa coisa toda. A reflexão que ME fica é algo que ouvi hoje e ontem em diversas situações diferentes,: devemos estar prontos para acolher o divino amor quando Ele estende as mãos para nós. Seja numa seita, numa igreja ou numa casa de swing, até porque no fim Ele é a mesma coisa em todo canto: um fluxo de amor tão impessoal quanto universal - divino. Vale a ida ao cinema!
Trailer: Divino Amor (2019)


Nenhum comentário:
Postar um comentário