Nossa, que surpresa maravilhosa esse filme. NUNCA tinha ouvido falar dele, e fiquei agradecido por encontrá-lo. Trata-se de um filme de 1997, produção australiana/italiana, conforme o que eu pesquisei, e que conta uma história... que na verdade é a história de tudo.
O filme usa como pano de fundo o alerta ambiental/ecológico em níveis cósmicos para tratar das relações humanas... ou seria justamente o contrário?! O contrário também é muito válido, já que o filme é bem didático ao mostrar como, a partir da consciência quanto às nossas relações interpessoais, nos relacionamos com o planeta.
Ou ainda, nos leva a reflexões sobre como a compreensão a respeito do nosso local no mundo, algo que vai além da nossa posição geográfica, afeta nossas relações com nossos iguais, com nossos diferentes, com nosso planeta, e com o universo. A lei da vibração é o tema central do discurso aqui apresentado, que vai soar como sermão pra quem não tá devidamente "ligado".
A direção é primorosa, o roteiro idem. É um filme de encher os olhos, delicado e violento (em níveis psicológicos) na mesma medida, que nos faz questionar muitas coisas, como o que é eterno e o que é passageiro, o que é real e o que é valoroso, e ainda, se temos consciência do que somos e quais nossas prioridades, a partir disso.
Me deixou com muita vontade de conferir outros trabalhos desse diretor, Rolf de Heer, também responsável pelo roteiro, e até então, completamente desconhecido pra mim. Recomendo demais, o barato é certo.
Já me indicaram muitas vezes as série Westworld, mas como sou anti-hype, principalmente quando ele ainda é atual, nunca fui atrás. Mas sem querer cai em cima desse filme, sem nem saber existia um filme original no qual a série se baseia, e, ainda mais, com roteiro e direção do Michael Crichton, o cara que escrebveu os dois livros Jurassic Park.
Aí vamos ao filme: um parque, futurista, apenas para os super ricos, que recria um ambiente que já deixou de existir há alguns séculos, altamente dependente da tecnologia - tecnologia que, basicamente, gere tudo dentro do local. De repente, as máquinas pifam, e os visitantes do lugar começam a ser vitimadas pelos "brinquedos" do parque. Familiar?! Claro, poderia ser o argumento de Jurassic park. E é. E é o de Westworld também (risos).
Só que aqui no caso, não há dinossauros, obviamente. O parque aqui é dividio em, três ambientes, que recriam três cenário extintos (só não foram extintos na alma humana), que é o velho oeste, a Inglaterra medieval, e a Roma antiga. Na trama, esses três momentos históricos são recriados com precisão, para que os visitantes façam uma imersão nessas eras passadas: usam roupas da época, alimentos da época,assim como aventuras da época.
Os protagonistas resolvem passar alguns dias no mundo do velho oeste. A cidade é reconstruída com perfeição, e todos ali são robôs a disposição dos visitantes: as prostitutas, os bartenders, e até os bandidos e os animais. Os visitantes se misturam aos "nativos", e criam e vivem suas aventuras... até que as coisas começam a dar errado. Um defeito na "central" se espalha por todas as máquinas do parque, e os robôs, principalmente aqueles programados para serem os vilões, começam a elimanr os visitantes. À semelhança do Jurassic park, a partir daqui já é possível prever o que acontece.
E assim como em Jurassic Park, as questões levantadas aqui talvez sejam sobre ética. A primeira coisa que nossos protagonistas fazem quando chegam ao parque, é se deitar com as prostitutas do saloom. Devemos lembrar também que é um mundo onde é possível matar. Os robôs "morrem", e retornam no dia seguinte.
Se formos pensar, é um parque de diversões onde adultos podem vivenciar alguns desejos sujos da alma, mas o temor dessa corrupçao se faz presente, assim como em Jurassic Park. Outra obra onde vemos homens querendo brincar de Deus, e as consequencias desastrosas que isso pode gerar.
A história da Mulher de Preto eu conheci através do filme de 2012, lançado para marcar o "retorno" dos estúdios Hammer. Tratava-se de mais uma adaptação do livro A Woman in Black, de Susan Hill, cantada por aí como uma "gothic novel" à moda clássica. Eu não li o livro, mas o filme com o Daniel Radcliff foi desastroso (apesar da fotografia e direção de arte, ambas maravilhosas).
Mas retomo esse tema devido a descoberta (de minha parte) dessa adaptação anterior, lançada em 1989 por uma tal de ITV Granada, que, dizem, é bem mais fiel ao escrito original de Susan Hill. Admito que amei a adaptação, uma legítima história de fantasma, de baixo orçamento e muito respeito à moda clássica, lembrando, inclusive, obras da própria Hammer nos tempos áureos - e por que não dizer, os contos góticos de Edgar Alan Poe e à literatura gótica do século XIX, de um modo geral.
A história já é conhecida: uma viúva solitária, moradora de uma cidade pequena de litoral, morre, e um advogado é enviado à seu casarão, isolado, para fazer o inventário de seus bens para por tudo à venda. Ao chegar na cidadezinha, percebe que todos se assustam quando entendem que ele pretende passar alguns dias no tal casarão. Se mostram reticentes quanto à ideia, mas oferecem toda ajuda possível - à distância, claro - ao jovem advogado. A partir daqui, uma série de sensações, vislumbres, um constante clima de paranoia começam a se fazer sentir, além do desvelar de um grande mistério.
Nada aqui é exagerado. Sem sustos fáceis (como na versão de 2012), o horror aqui cresce no silêncio, seja nas trevas da mansão sem luz na calada da noite, seja em plena luz do dia, com a visão de alguém que todo mundo prefere evitar,ou, ainda, no peito e nas expressões do jovem advogado, cada dia mais engolido pela dor da estranha presença que paira nos entornos do casarão.
São poucos os filmes de fantasma que ainda apostam nessa forma elegante de causar medo. O erro da Hammer, em sua adaptação, foi apostar na forma atual de fazer terror, com muito sustos gratuitos e um apelo ao grotesco em cena. Na adaptação de 89, o que temos é um filme simples, mas com todo o peso que um fantasma, rancoroso como deve ser, carrega em sua memória.
Em Trágica Obsessão, Brian de Palma revisita Alfred Hitchcock mais uma vez, agora, prestando "homenagem" (sejamos delicados) a Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958). Uma mudancinha aqui e outra li, pra não ficar igual né, mas o enredo permanece basicamente o mesmo.
Aqui, um homem (Cliff Robertson), ricaço, perde esposa (Geneviève Bujold) e filha num resgate absurdo de tão mal planejado (as duas haviam sido sequestradas). No luto, ele viaja com o sócio (John Lithgow), cujo caráter só vamos ter certeza mais a frente, para a Itália, país onde ele conheceu a esposa, e na igreja onde ele conheceu a esposa, ele conhece um novo amor... uma jovem idêntica a sua falecida esposa. Assim como fez com sua primeira companheira, ele leva a garota embora para os Estados Unidos e vivem um relacionamento, e a medida que a obsessão dele por ela aumenta, uma obsessão dela pela esposa falecida começa a surgir. A partir daqui, o filme se desenrola como um romance tenso com muito suspense
Justiça seja feita, o de Palma sabe fazer suspense. Ele nos entrega aqui cenas primorosas, hipnóticas, além de belas e detalhadas. Tudo tecnicamente perfeito. Alguns exageros já típicos se fazem notar mas nada que estrague o resultado final. A trilha sonora orquestrada carregam o clima até nas cenas mais cotidianas.
O filme tem algumas surpresas a partir da metade, e qualquer coisa que eu conte aqui pode estragar a viagem. É uma história de obsessão, apego, posse, desejo... um clima pesado.
Eu não sei o que andou acontecendo ali pela terceira temporada de FTWD. Sempre vi nos fóruns os fãs reclamando tudo de que os personagens faziam, e eu não sei se foi por motivos de audiência, porque não acompanho essas coisas, mas eis que os produtores de FTWD resolveram renovar a série inteira nessa quarta temporada. Deram um salto no tempo, limaram metade dos personagens principais, mudaram o tom da série, e até a "paleta de cores" rss deixando ela muito parecida com a série original, TWD. E sabe de uma coisa? Adorei a mudança.
A FTWD sempre foi mais charmosa né, mais ensolarada, mais "latina", mais colorida que a série original, mas um mundo pós-apocaliptico não é colorido e esparançoso, convenhamos. Desconsiderando qualquer motivo externo à narrativa que tenha causado essa renovação completa da série, eu poderia até pensar que nada foi feito "nas coxas", e que foi tudo muito bem planejado.
Aqui temos uma temporada de transição, em que o espírito dos personagens que restaram estão em processo de transformação. Os episódios vão alternando entre flashbacks (com uma fotografia muito colorida e viva), em que vemos o que aconteceu após a aventura na represa que encerrou a terceira temporada, e cenas do momento presente, com uma fotografia mais escura, sombria, suja, e com os sobreviventes visivelmente despedaçados.
A morte de Madison (Kin Dickens) e Nick (Frank Dillane) alterou completamente o esquema de liderança e as relações do que sobrou grupo, deixando Alícia, Strand e Luciana completamente a mercê. Alícia (Alycia Debnam-Carey) com raiva pela morte da mãe e do irmão, e na obrigação de manter o grupo restante (que ela não é tão apegada assim) unido. Strand (Colman Domingo) ficou sem a amiga que o acolheu e protegeu até ali (Madison), e Luciana (Danay Garcia) sem o namorado (Nick, que, diga-se de passagem, fez ela deixar o lugar que ela estava muito bem para entrar em uma jornada de incertezas junto com a família DELE). Os três estão, agora, sozinhos no mundo. Desesperador, não?!
A solução encontrada pelos roteiristas foi trazer Morgan (Lennie James), lá da outra série, para orientá-los nessa nova jornada,uma escolha que agora vejo como muito sábia. Alicia ainda não é uma lider, então não tem sentido o protagonismo passar pra ela após a morte de Madison. Ela é muito jovem, e nessa temporada elá está com muita raiva. Quem vai acalmando o espírito dela aos poucos e trazendo ela de volta à realidade é o Morgan e sua filosofia de ajudar os outros.
Junto ao Morgan, novos personagens chegaram, bons personagens, pra quem quis dar uma chance a eles, assim como uma tempestade seguida de furacão, cujo ápice foi na metade da temporada, pra lavar de vez o clima pesadíssimo de luto em que os personagens estavam afundados. Eles se separaram depois que as coisas deram errado no ginásio, que foi o ponto de apoio deles durante toda a parte "flashback" da temporada, e Morgan foi reunindo um a um aos poucos, como um verdadeiro messias pós-apocalíptico.
Eu não conheço o Morgan, pois não vi TWD toda ainda. Mas os "fãs" estão apostando que ele vai arruinar FTWD. Eu já acho que a série só cresce. Seria muito irreal a família Clark permanecer unida se arriscando tanto como eles fazem. No apocalipse as coisas não duram. As pessoas morrem, e é assim que é. Percebi que um dos trunfos dessas séries é unir pessoas completamente diferentes com o objetivo comum de sobreviver. Alicia, Strand e Luciana eram os mais afastados (entre si) do grupo original. Agora vão ter que aprender a conviver entre eles e lidar com novas pessoas. Como Alicia disse em tal ponto, as coisas só vão piorar, até ninguém estar mais vivo para ver o quão ruim podem ficar. E é assim que, tem sido até agora.
Muitas sensações esse filme provoca... aqui, temos um retrato real de como o bicho homem-branco-macho-hétero-'marido' se comporta íntima e socialmente. É um filme desagradável de se ver. Mas ele é ruim? Ainda não decidi.
Vi poucos filmes do John Cassavetes, e quero falar sobre todos os que vi aqui, porque gostei muito, e até por isso, julguei desde o princípio ser ele um cara muito sensível. Um roteirista que conheço usou a palavra "intensidade" para definí-lo certa vez. Daí, tal foi minha surpresa quando assisti esse Husbands, filme que é considerado entre os melhores da carreira do diretor. Agora não sei para o que os críticos estavam olhando quando fizeram este elogio. Porque isso é apenas um elogio.
O filme conta a história de três caras, ali pelos seus quase 40 anos de idade (e entendo que 40 anos em 1970 era bem mais que hoje em dia, em termos de experiência), que acabaram de perder um amigo da turma, e o processo de luto que os três enfrentam nos dias seguintes ao enterro.
Os três amigos passam alguns dias juntos relebrando a juventude, bebendo, dormindo na rua, jogando basquete, conversando, brigando, refletindo sobre a vida e sobre a morte. Um deles, o mais velho, é o mais responsável, sério, e enfrenta problemas conjugais. Um outro é um dentista, possui um bom emprego e relacionamento com a esposa e filhos, tem um humor mais leve. E o último, também é casado, cumpre obrigações matrimoniais, mas ainda não entendeu o sentido de nada, nem de por que está casado, nem de por que está vivo. Este seria o filósofo da turma. Fofo né?!
Mas essas qualidades traçadas aqui desaparecem quando vemos, por trás de todo esse sucesso material, o machismo, a misoginia, a infantilidade, e até autoritarismo que move o pensamento de todos os três. O filme é um show de maus tratos, ignorância e desprezo pelas mulheres que cruzam o caminho dessa turma. Aliás, nada existe para eles, a não ser eles mesmos. As mulheres viram alvo mais evidente por que, pra tudo que precisam, são a elas que o trio recorre, tamanha dependência. É um filme desagradável de assistir. O que vai tornar ele bom ou não será o serviço que ele tá prestando, que confesso, ainda não entendi.
É um filme ofensivo para as mulheres, apesar de elas não precisarem de um filme pra saber como as coisas são. E os homens devem vê-lo com o olhar bem atento. É possível ver uma história de juventude perdida, que não volta mais, e saudosismo e amor aos amigos e aos velhos tempos. Mas é possível ver também três caras que envelheceram infantilizados e engolidos pelos próprios privilégios, dados de mão beijada pelo sistema patriarcal, sem a menor maturidade ou noção de consciência social, fraternidade verdadeira, e sequer respeito ao próximo.