sábado, 28 de novembro de 2020

Paprika (2006)

Esse filme me fez soltar um "uaau!!" e eu quase nem percebi que há muito tempo (muitos filmes) isso não acontece. Em Paprika, Satoshi Kon mais uma vez traz a psicologia como subtexto (ou pano de fundo) da narrativa, dessa vez, com um olhar surrealista/futurista (se é que posso definir assim) a partir do sonho. 

Eu admito que sou meio "assim" com filmes sobre sonho, porque sonho é aquela coisa né... pra mim, que me acho extremamente racional (o que não quer dizer cético), o sonho, em ultima instância, "salva" qualquer embaralho de roteiro que possa ocorrer, jogando o que poderia ser uma falta de sentido pro universo do "onírico" e tudo se explicando assim. Parece uma saída muito fácil rsss. Mas confesso também que quando vi os filmes sobre sonho que me passaram tal impresão, eu ainda não conhecia nada do Carl Jung, o que na minha percepção pode ter feito toda a diferença. 

Foi a ideia do Jung, ao usar com simbolos e sonhos para compreender as diversas camadas que ele identifica na psiquê humana, que me abriu os olhos pra significância psicológica de símbolos, mitos, da religião, e também dos sonhos, para nossa psicologia. O sonhador sabe o significado do sonho, mesmo que não consiga traduzir em palavras. Claro que há sonhos que são pura misturada sensorial reservada na memoria manifestada de forma criativa (espontânea, ou só aleatória mesmo), mas nem por isso necessitam de significado, mas num filme, trabalhar com um sentido objetivo e usar esses artifícios para montar uma narrativa, confere inúmeras possibilidades criativas que podem render um filmão nas mãos de um bom roteirista e diretor.

E é isso que eu acho de Paprika. O Satoshi Kon mais uma vez arrasaou, contando a história de um trio de personagens e seus complexos piscológicos a partir de uma perspectiva completamente psicológica. O argumento que faz o "chão" onde a trama se desenvolve é o roubo de um aparelho novo e inovador, recém criado, que permite o compartilhamento de sonhos, e está sendo usado, acho que em fase de teste, pela indústria terapêutica.

O momento David Lynch se dá com a confusão que se instala como consequencia do compartilhamento de sonhos: o aparelho passa a conectar a mente de todos os que o usaram, misturando sonho e realidade e fazendo com que todos compartilhem da mesma bolha ou profundeza psíquica.  E da-lhe personagens coloridos, sons alucinantes, surrealismo, e também memórias reprimidas, vontades reprimidas, o que de certa forma é o mesmo que ter acesso e o compartilhar da alma de cada um. Seus recantos mais estranhos e primitivos, ou simplesmente aquilo sobre nós que evitamos mostrar por insegurança. 

Apesar de se tornar autoexplicativo em determinado momento (a analogia da personagem Paprika com o condimento paprica), o filme é ainda uma VIAGEM em caixa alta pra quem curte literalmente observar e viajar nas doidices da mente. 

Filme completo no blog Pequi Filmes Online.

TRAILER

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Ceddo (1977)

Em 2020, já nos acostumamos a certas discussões. A relação política x religião se entranhou de tal forma na nossa sociedade e tantas reflexões já foram feitas e continuam acontecendo sobre isso, seja em estudos, artigos, em séries de TV, HQs e até novelas, que quando o tema surge de forma tão explícita numa trama, mesmo em trabalhos mais antigos, não surpreende assim, de imediato.  

Em Ceddo, Ousmane Sembène nos traz essa discussão novamente, dessa vez num ambiente tribal, em algum ponto da quente África subsaariana, provavelmente o Senegal, país de origem do diretor. A localização no tempo é difícil de precisar. A internet aponta para um momento entre a conversão dos senegaleses ao islamismo e a colonização francesa, o que nos remonta a algum momento antes do século XX, mas torna difícil precisar quando, já que a islamização dessa região na África, também de acordo com a internet, começou por volta do século X (acredito que se passe entre fins do século XIX e início do século XX).

Aqui temos, mais uma vez, aquele conflito talvez primordial entre religião e identidade cultural. Enquanto as religiões dominantes tentam absorver as culturas "menores", estas resistem. E é isso que essa obra nos apresenta, mais uma dentro da filmografia de Ousmane, que parece bater de forma muito enfática nessa tecla. 

Dessa forma, para os olhos de quem vê pelo filtro do século XXI, o interessante aqui é observar o ambiente, a cultura. As roupas, os costumes, as relações, as formas de pensar, a linguagem, que apesar de simples e basear o pensamento em máximas diretas ("o mesmo vento que derruba o baobá só dobra o caule do trigo", entre outras), tem muita profundidade existencial. E apesar de parecer tudo tão distante da nossa realidade, não estamos nada longe do que vemos em cena. 

Ainda vivenciamos as mesmas disputas por poder político, poder religioso, golpes, corrupção, e uso da força para subjugar. Esse é o modus operandi de uma parte da humanidade desde o início dos tempos, e, juntamente com o sexo (que também tem suas implicações no poder) parece ser a única coisa que ultrapassa as diferenças culturais e regionais. Já o modus operandi de outra parte da humanidade é resistir (coisa que os ceddo, algo como "os de fora", ou "fora da lei", fazem commuita firmeza), pois é assim que se sobrevive.   



FILME COMPLETO:



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Star Trek: DS9 (7ª temporada, 1998/1999)

Eis aqui um dos encerramentos de série mais louváveis. Deep Space Nine nos entregou o que a franquia Star Trek poderia nos oferecer de melhor, e com um final digno daquilo que nos foi tão bem apresentado ao longo de sete anos. 

Eu não sei o quão perceptível é ou propositais são os subtextos da franquia Star Trek, mas DS9 matou a pau no tratamento aos temas religião, fé, Deus, e tudo aquilo que está além da nossa compreensão racional (e toda os sistemas de dominação provocados pelo fanatismo que se seguem). Esses temas são levantados aqui de forma protagonista, não apenas pela trama bajoriana, povo cuja sobrevivência está literalmente nas mãos de seres "extrabajorianos" mas que são vistos como deuses, mas pela própria analogia que se pode fazer entre o Dominium e aquilo que entendemos comumente por Deus. A dominação (opa) prospectada pelo deus dos Vorta para recuperar seu filho perdido (Odo) é um exemplo claríssimo de como esse tema é discutido e chega a ser proeminente em toda a série. 

Sem dar muitos spoilers, o destino de todos os personagens seguiu de forma coerente. O único ponto aqui é a entrada de Ezri Dax, como a nova Dax. Muitos episódios voltados pra ela, numa tentativa de consolidar ela como personagem na reta final da série, mas ela se saiu bem. Menos dura e sarcástica que Jadzia, a sensibilidade de Ezri surpreende aqui e ali com decisões fortes e diretas, bem refletidas, ao contrário de Jazdia que era dada a arroubos de rebeldia (sempre emocionais).

Sinceramente, achei que depois de The Next Generation, seria só ladeira abaixo pra essa franquia, cheia de altos e baixos. Mas DS9, com seu formato original (ao se passar em uma estação espacial), possibilitou uma nova gama de situações, interações, e aprofundamento de temas e conflitos diplomáticos, algo que a série sempre bateu muito. Ao contrário de TNG, mais idealista, em DS9 perdemos a inocência em relação à Federação, e percebemos os caminhos subterrâneos que os meandros da diplomacia implica. Esse clima mais soturno é percebido até na fotografia da série, sempre em tons escuros, e nos roteiros profundos e densos. 

Essa última temporada também tem seus episódios brilhantes, seus fillers, mas no geral, é uma temporada bonita, resolutiva, que encerra a série de forma coerente e sem decepcionar. Fica muito claro porque essa série é tao apreciada pelos fãs roots de Starr Trek, e desde já ficamos no aguardo de sua possível continuação, já anunciada como Star Trek: Sisko.


Trailer:

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

The UFO Incident (1975)

Em mais uma das coincidências ou manifestações do fluxo divino que "enfeitam" a minha vida rssss após ter passado um dia absorvido em um papo com uma amiga sobre hipnose e transmutação mental programada, e ter me iniciado no estudo da ayurveda por meio do livro "Uma Visão Ayurvédica da Mente" que me chegou pelos correios coincidentemente nesse mesmo dia, na noite de ontem escolhi no aleatório um filme sobre abdução alienígena no youtube, e eis que o filme trata basicamente dos conflitos mentais gerados por esse tipo de contato na mente dos contatados. Como não poderia deixar de ser (e até poderia), a narrativa é contada através das sessões de hipnose (olha só) do casal Betty e Barney Hill.

Para quem não sabe, assim como eu que só fiquei sabendo ontem, o filme The UFO Incident foi lançado exclusivamente para TV em 1975, e conta a história real dos Hill, casal norte americano que alega ter sido abduzido por alienígenas em 1961. A narrativa foca nos distúrbios provocados pela abdução, como a perda de memória, em sessões de hipnose que resgatam não apenas a memória como também o equilíbrio e felicidade do casal.

O que me chamou atenção no filme não foi nem tanto a questão da absdução, mas a sensibilidade com que foi abordada certas questões que dificilmente são lembradas nesse tipo de filme. Para além da confusao mental que a visão de seres extraterrestres possa causa nos contados, há nesse caso específico diversas nuances que tornam a jornada destes mais angustiantes. 

Primeiro porque se trata de um casal interracial vivendo em um subúrbio branco norte americano no início da década de 60. Só isso já é o suficiente para deixar a estabilidade dos protagonistas a flor da pele, não sem motivo. O tempo todo a narrativa lembra as situações de racismo vivenciadas por Barney, que é negro, na infância, e a dificuldade que é mudar de ambiente para ficar com a esposa, que é branca, morando num bairro branco, com amigos brancos, colegas de trabalho brancos, e por aí vai. Dizer que foi abduzido por aliens não ajuda muito na inserção em uma comunidade que o respeita mais por conformidade social que por sentido humanidade.

Betty Hill já tem outras questões. Ela não compartilha dos medos e paranoias derivados das questões raciais que o marido enfrenta, e apesar de bem intencionada, tem todas as limitações que uma cultura estruturada no racismo impõe inclusive às melhores pessoas. Ainda, ela se acha feia, tem autoestima limitada, e isso associado à informação de que ela é assistente social e ao restante do contexto que envolve o marido me faz olhar torto para os interesses pessoais dela. Mas não chega a ser uma pessoa de caráter totalmente questionável. Ambos tem história pregressa, casamentos anteriores, filhos, são relativamente felizes, e vivem uma relação bonita e sensível fundamentada no apoio mútuo. 

A parte "alien" do filme remete aos melhores clássicos do gênero (pra mim), como Intruders e Fire in the Sky. As sessões de hipnose são uma delícia a parte de acompanhar. O terapeuta que os acompanha é muito sensível às questões de cada um e não as deixa de fora do processo de análise, algo que, inclusive, complica chegar a uma resolução definitiva. Ao fim, por exemplo, não se sabe o que é real ou não, mas descarregar as memórias reprimidas foi fundamental para que o equilíbrio do casal voltasse a fluir, e tudo isso é mostrado de forma muito sensível durante todo o filme. 

Conforme o Wikipedia, o Caso Hill, também conhecido como Abdução dos Hill, trata de uma abdução de curto período por um OVNI, sendo esta a primeira alegação de abdução por alienígenas amplamente divulgada, tendo sido, ainda, adaptada em 1966 para o livro The Interrupted Journey. O filme ta completo no Youtube no link abaixo. Quem quiser assitir, não esqueça de curtir o vídeo e  boa viagem.


Filme

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