Esse filme me fez soltar um "uaau!!" e eu quase nem percebi que há muito tempo (muitos filmes) isso não acontece. Em Paprika, Satoshi Kon mais uma vez traz a psicologia como subtexto (ou pano de fundo) da narrativa, dessa vez, com um olhar surrealista/futurista (se é que posso definir assim) a partir do sonho.
Eu admito que sou meio "assim" com filmes sobre sonho, porque sonho é aquela coisa né... pra mim, que me acho extremamente racional (o que não quer dizer cético), o sonho, em ultima instância, "salva" qualquer embaralho de roteiro que possa ocorrer, jogando o que poderia ser uma falta de sentido pro universo do "onírico" e tudo se explicando assim. Parece uma saída muito fácil rsss. Mas confesso também que quando vi os filmes sobre sonho que me passaram tal impresão, eu ainda não conhecia nada do Carl Jung, o que na minha percepção pode ter feito toda a diferença.
Foi a ideia do Jung, ao usar com simbolos e sonhos para compreender as diversas camadas que ele identifica na psiquê humana, que me abriu os olhos pra significância psicológica de símbolos, mitos, da religião, e também dos sonhos, para nossa psicologia. O sonhador sabe o significado do sonho, mesmo que não consiga traduzir em palavras. Claro que há sonhos que são pura misturada sensorial reservada na memoria manifestada de forma criativa (espontânea, ou só aleatória mesmo), mas nem por isso necessitam de significado, mas num filme, trabalhar com um sentido objetivo e usar esses artifícios para montar uma narrativa, confere inúmeras possibilidades criativas que podem render um filmão nas mãos de um bom roteirista e diretor.
E é isso que eu acho de Paprika. O Satoshi Kon mais uma vez arrasaou, contando a história de um trio de personagens e seus complexos piscológicos a partir de uma perspectiva completamente psicológica. O argumento que faz o "chão" onde a trama se desenvolve é o roubo de um aparelho novo e inovador, recém criado, que permite o compartilhamento de sonhos, e está sendo usado, acho que em fase de teste, pela indústria terapêutica.
O momento David Lynch se dá com a confusão que se instala como consequencia do compartilhamento de sonhos: o aparelho passa a conectar a mente de todos os que o usaram, misturando sonho e realidade e fazendo com que todos compartilhem da mesma bolha ou profundeza psíquica. E da-lhe personagens coloridos, sons alucinantes, surrealismo, e também memórias reprimidas, vontades reprimidas, o que de certa forma é o mesmo que ter acesso e o compartilhar da alma de cada um. Seus recantos mais estranhos e primitivos, ou simplesmente aquilo sobre nós que evitamos mostrar por insegurança.
Apesar de se tornar autoexplicativo em determinado momento (a analogia da personagem Paprika com o condimento paprica), o filme é ainda uma VIAGEM em caixa alta pra quem curte literalmente observar e viajar nas doidices da mente.
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