O trampo original seria um filme, mas acabou virando uma minissérie pra televisão de seis episódios. A história conta a a chegada de um vampirão das antigas em Jerusalem's Lot, no Maine (terra do King) (O Maine, e não Jerusalem's Lot), e as repercussões dessa "visita" entre os moradores da cidadezinha, em especial dois deles: um, escritor de histórias de terror, que veio de fora (mas nasceu no local), e uma criança local, muito madura pra idade e com uma atração estranha pelo terror, oculto, monstros e esquisitices em geral. Ambos podem ser lidos como alter egos do King, eu penso - inclusive pela semelhança física entre os dois atores. A constituição da dupla joga uma ideia de que os dois poderiam ser, num nível abstrato e poético, a mesma pessoa (o King, no caso), no passado e no futuro. Ou presente. Enfim...
Os temas básicos que o King costuma tratar em sua obra já se fazem presentes aqui, e costuram a trama: infância, sensibilidade para o sobrenatural, o monstro como representação da opressão social (como veremos), um escritor que retorna a sua cidade natal, etc. Este escritor em questão, Ben Mears, vem investigar a mansão Marsten, localizada no topo da colina na entrada de Jerusalem's Lot. Um casarão antigo, deteriorado, estilo Família Adams, e que abrigou um crime no passado. Ben tem lembranças estranhas de seus momentos na casa na infância, quando a mãe trabalhava como doméstica para os antigos proprietários. Ele teve visões, e jura que um mal "irradia" do local pra toda a cidade.
Esse mal, aos poucos e como geralmente acontece nos filmes do King, começa a tomar forma. A compra da mansão Marsten pelo misterioso sr. Barlow, um austríaco que, inclusive, vai abrir um antiquário na cidade, porém vive viajando, deixando seu empregado, Richard Straker, "resolvendo" os problemas burocráticos em Salem's Lot.
A compra da mansão Marstem por Barlow e a chegada de Ben Mears culminam com o começo dos ataques a pessoas na cidadezinha. Adultos e crianças começam a morrer, ou ter seu sangue drenado, e logo, os mais atentos (os mediums do fantástico) começam a entender que estão lidando com uma praga de vampiros e o foco está localizado na mansão Marsten. Daí foi questão de tempo até a trama começar a correr.
Em Salem's Lot, ou A Hora do Vampiro, Tobe Hopper pegou leve. Stephen King, apesar de ser de "esquerda", como é indicado na série (risos) (série ou filme né, eu assisti uma edição única de três horas de duração), é um cara tradicional, do interior do Maine, branco e com uma relação de carinho e apego com sua infância, algo que reflete MUITO em seu trabalho. Então frequentemente em suas histórias, vemos crianças, jovens, ou adultos complexados com a própria infância, em um mundo que figura entre o ideal, aos olhos de uma criança, e o nostálgico, quase idílico, onde as preocupações com problemas de ordem social não extrapolam os moradores do Maine. Então não vamos esperar o sangue, a selvageria e a insanidade dos dois trabalhos anteriores (eu esperei algo mais denso e me decepcionei um pouco): Jerusalem's Lot é um lugar onde nota-se que tem algo estranho acontecendo porque as pessoas começam a faltar à missa (!!).
O núcleo central de personagens, capitaneados pelos dois clones do King, são interessantes e bem construídos, especialmente os dois principais. Ambos carregam aquele ar de 'incompreendidos', ou outsiders, e a atração pelo terror surge como motivador dessa sensação de exclusão "espiritual". O jovem Mark (o clone mais novo) é visto como alguém altamente esquisito pelos próprios pais, algo preocupante; enquanto Ben já foi e já voltou nessa história. O gosto pelo terror venceu e tornou-o escritor. Ele foi embora pra longe da gente chata de Salem's Lot e voltou buscando inspiração para uma nova história no local mais assustador por onde já passou. As consequencias da religião na psiquê social tem as repercussões mais variadas, tanto na sociedade quanto no indivíduo.
Não obstante, os dois surgem como os herois iluminados, ao tomar para si a obrigação de acabar com a praga de vampiros - um mal surgido no seio de um povo conservador (que chega através de uma loja de antiguidades!), e que só a sensibilidade dos dois é capaz de perceber e antecipar.
A produção caprichou no tratamento dos vampiros. Apesar da cena cômica do garotinho vampiro na janela, o líder do covil, Mr. Barlow, é massa! Ele teve sua fisionomia inspirada no Nosferatu, só que de forma mais animalesca e menos humana. A sensação é de que se se ajusta a perspectiva em dois graus, ele pode ir do assustador ao cômico. Não sei se foi boa ideia ele não falar mas soar como uma motosserra (?!), mas sem dúvida isso contribuiu , assim como todo o conjunto do personagem, para ressaltar o aspecto não humano dos vampiros, lançando sobre eles a perspectiva de uma praga de algum bicho que precisa ser exterminada.
O personagem Straker, interpretado pelo ator James Mason, é outro ponto alto da trama. Como uma ponte para o objetivo de Barlow, ele é diplomático e sorturno ao mesmo tempo, e por isso assustador. As cenas em que ele surpreende o Mears "vigiando" o casarão Marsten são de arrepiar. Parece que foi ele quem escolheu Jerusalem's Lot para "alimentar" seu sócio Barlow pois lá continha tudo que um vampiro precisa: trata-se de uma comunidade reduzida, antiga, isolada em si mesma, de hábitos conservadores e religiosos, e que rejeitam o diferente com mais ou menos violência, ideal para o gosto por "sangue puro" dos vampiros. Quem diria que o coração de uma sociedade tão "pura" seria o local ideal para o foco de irradiação uma praga como essa... mas a realidade também não está muito distante disso, né....
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