quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Funhouse (Tobe Hopper, 1981): pitoresco, atmosférico, sinistro, e cheio de referências.



Após a adaptação do "familiar" Salem's Lot, Tobe Hopper parte para mais uma ideia original, ou nem tanto, mas mais uma vez, oferecendo um terror sério e "funcional", e ainda que não consiga repetir a sensação de angústia proporcionada pelos perfeitos Texas Chainsaw Massacre e Eaten Alive, Funhouse consegue ser contagiante de outra forma.

Eu não sou capaz de fazer um retrospecto sobre quantas obras do cinema abordaram o tema "parques de diversão macabro" até ali. De cabeça, me vem o Freaks (1932), e o Carnival of Souls (Parque Macabro, 1962). Ambos os filmes oferecem o terror de formas diferentes. O primeiro, pelo grotesco - e que hoje, além de não assustar, poderia ser referido como um terror "social", e o segundo, pela condução que privilegia o suspense atmosférico e psicológico. Funhouse talvez alinhe um pouco da proposta de Freaks com o cinema slasher, que chegava ao ápice (e já começava a decair) da criatividade quando foi lançado, em 1981. 

O título brasileiro (Pague para Entrar, Reze para Sair) foi muito bem sacado e apesar de soar engraçado num primeiro momento, resume bem toda a trama. Quatro jovens vão a um parque de diversões e um deles (que se mostrará um campeão em ter ideias de jerico, misteriosamente acatadas por todos) tem a "brilhante" ideia de passar a noite no trem fantasma, chamado de Casa do Riso (Funhouse). Lá dentro, eles tem acesso à dinâmica da "família" que mantém o equipamento, e descobrem o mistério por trás de estranhos assassinatos ocorridos poucas semanas antes nas proximidades. 

É uma premissa satisfatória, eu achei, não fosse pelo personagem absolutamente burro que teve essa ideia de passar a noite dentro de um brinquedo PRA NADA - apenas porque ouviu falar que alguém fez antes (e a pessoa desapareceu depois). Achei que a situação que os leva a passar a a noite no brinquedo poderia ser outra. Mas enfim, coisa de jovem. Esses problemas de enredo nem são tão graves assim, visto que a direção conduz tudo de forma satisfatória.

A trilha sonora e a abertura do filme, com os créditos iniciais, já assustam por si. As tomadas das sequencias de suspense também surtem efeito positivo na criação da atmosfera de suspense, à maneira do que foi feito no Massacre da Serra Elétrica, e isso fica claro já na primeira cena, em que Tobe Hopper reproduz as cenas principais de Psicose (1960) e Halloween (1978) numa mistura que, sim, dá certo, e já nos entrega um dos motes do filme.

Os personagens também são curiosos. A despeito do rapaz muito burro que tem a ideia de passar a noite no parque, temos duas garotas "legais", que conseguem ser genuinamente cativantes (na cena final, dá até dó da sobrevivente). Os pais da protagonista/sobrevivente também são curiosos e me pergunto o que o diretor quiz dizer com essas duas personalidades. Ambos parecem liberais com os filhos (pelo menos, mais do que maioria dos pais que vemos nesses filmes), apáticos, e parecem não ter controle sobre os filhos, ou apenas cumprem a função básica de alertá-los e deixar que façam suas próprias escolhas (tudo de forma muito apática). Tal comportamento se justifica com a filha mais velha, mas não com o filho mais novo. O garoto vai escondido para o parque, pensando em encontrar a irmã mas não a vê sair da Casa do Riso. Esperando a irmã até tarde da noite, ele vive suas próprias experiências traumáticas enquanto absorve o ambiente e as figuras do parque depois que as luzes se apagam, totalmente à revelia dos pais. (O garoto, inclusive, é encontrado por um dos funcionários do parque, que o acolhe e chama seus pais para buscá-lo. A cena que mostra os pais buscando-o no parque e que o funcionário descreve como o encontrou é absolutamente estranha, e um dos momentos que achei sinistros no filme, apesar de não acontecer nada especialmente grave. Tem uma energia muito estranha rolando ali entre todos em cena.).

Os trabalhadores do parque também são personagens bem típicos desses filmes e séries de circo de aberrações (quem já viu a temporada Freakshow de American Horror Story e a série Carnivalle conhece): pessoas grosseiras, sujas, pobres, deficientes, prostitutas, e todo tipo de gente excluída, e que apela para o crime quase sempre, na tentativa de sobreviver. 

Tobe Hopper acertou a mão nesse filme, criando uma narrativa coesa, visualmente bonita e interessante, repetindo clichês mas sem fazer o espectador de idiota. E ele parece acertar mais ainda quando não está "tentando" fazer medo ao espectador: cenas como as do garoto sendo amparado pelo funcionário parque e entregue aos pais, a qual já me referi aqui, a do mágico contando a história do Drácula, e até a da cartomante expulsando a turma da sua tenda conseguem provocar arrepios sem forçar nenhuma barra. Tobe Hopper está  surfando na crista da sua onda em Funhouse, e ainda que não seja tão "traumático" quanto seus primeiros experimentos para o cinema de horror, consegue criar um clima denso e pitoresco, num ambiente que percebo como pouco explorado pelos bons diretores.

Nota: 4/5

Ta disponível no Darkflix.



TRAILER

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