domingo, 15 de agosto de 2021

O Anjo da Noite (Walter Hugo Khouri, 1974): interessante, mas envelheceu mal.


Fazendo um retrospecto (conhecendo, na verdade) nos primeiros experimentos de terror/suspense do cinema brasileiro esses dias, me deparei com esse O Anjo da Noite, que deve ser clássico, e deve ser cult, apesar de eu nunca ter ouvido falar sobre. O diretor é o Walter Hugo Khouri, realizador de filmografia extensa e propostas interessantes, pelo que percebi. Fiquei interessado em conferir outros títulos de sua obra, pois apesar da estranheza inicial que me causou essa primeira impressão, vi aqui muitas qualidades técnicas apesar da péssima qualidade do vídeo que encontrei (Vi no youtube).

Falo de qualidade técnica porque a história não é lá das mais originais. Ou seria? Não sei, nem tenho como afirmar, pois não sei se houve algo do gênero antes no Brasil. A história de uma moça que vai trabalhar como babá numa casa isolada e começa a sofrer as pressões do isolamento, alimentadas por telefonemas ameaçadores não é lá algo muito original. Poderia ser uma mistura de The Turn of the Screw (A Volta do Parafuso, Henry James), The Shining (O Iluminado, 1977) e outros, mas que ganha muitos pontos justamente pela qualidade técnica da realização. 

Direção e trilha sonora (de Rogério Duprat) trabalham alinhados na criação de atmosferas claustrofóbicas, dúvidas e medos, altamente controlados e bem conduzidos pela babá e protagonista Ana (Selma Egrei, gatíssima). Desde o início do filme, somos levados junto com Ana à fazenda onde se passa a história, localizada na cidade de Petrópolis, fazendo todo o longo percurso de sua casa, que não sei exatamente onde fica. Ana é trabalhadora, estudante de psicologia, concentrada e atenta, de olhar fixo, sempre refletindo. Talvez ela nem seja exatamente assim, mas todo o contexto exige dela esse comportamento, afinal, ela aceitou uma grande responsabilidade ao se propor passar aquela noite cuidando das crianças - e o fato de a babá anterior estar hospitalizada não significou muito para ela num primeiro momento. Nem deveria, né.

Outro personagem é o caseiro Augusto, interpretado por Eliezer Gomes, figura que poderia ser comum mas se torna intrigante devido o mistério que começa a se materializar no casarão naquela noite solitária e silenciosa. Seu comportamento oscila entre a gentileza e uma bem vinda espontaneidade, que aos poucos se torna numa estranha imprevisibilidade. Uma figura que percebemos como solitária, mas que não vemos muito além disso.

Intrigante igual é o casarão onde se desenrola a trama. Enorme, com estátuas que lembram túmulos de cemitérios, e que refletem muito bem a personalidade do casal de patrões (que só aparecem nas primeiras cenas do filme): ela, uma mulher rica, prática e controladora, que lida com a realidade; ele, igualmente rico, mas com um humor depressivo, depressivo demais para ser simpático. 

O Anjo da Noite envelheceu mal. Por mais que o motivador do argumento seja o isolamento, o elemento racista inerente à estrutura social brasileira é presente, e certamente hoje não passaria despercebido (até porque o isolamento em questão não é tão "isolado" assim, não como em The Shinning, por exemplo), o que torna esse "detalhe" ainda mais escancarado. E tampouco essas confusões provocadas pela reclusão são visíveis nos personagens. Ana está incomodada por estar naquela situação, mas ela está mais pensativa do que claustrofóbica. Ela quer entender, e óbvio, tem medo. Mas não pode vacilar. O caseiro também é muito focado em seu papel, deixando pouco para elucubrarmos.

No entanto, a ideia talvez seja justamente essa. Talvez sejamos conduzidos a não achar nada sobre ninguém, para garantir o efeito surpresa final. Só uma das crianças percebeu o espectro da loucura em torno dos personagens, e o medo que ela tinha dito pouco antes gostar de sentir, se apresentou de maneira real, e tudo que ela pôde fazer foi correr pra debaixo das cobertas.

Nota: 3,2/5


FILME COMPLETO NO YOUTUBE!

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