Após o colorido dark de Funhouse, Tobe Hopper se envolve em um projeto que consegue ser ainda mais "família" do que Salem's Lot, e este talvez viesse a ser o maior sucesso comercial de sua carreira. Tudo por causa da "tutela" de Steven Spielberg, que atuou em Poltergeist como produtor e roteirista. Ainda, Spielberg estava em franca ascenção como realizador naquele momento de sua carreira, então foi uma colaboração que ofuscou definitivamente a participação de Tobe Hopper no projeto.
Mas Hopper ainda estava lá. E pelo que acompanhei de sua filmografia até aqui, tratou-se de mais uma oportunidade para o realizador desenvolver algumas ideias que aos poucos vinham sendo trabalhadas em seus filmes. Se uma filosofia hippie se apresenta desde seu primeiro trabalho (Eggshells, 1969), e se reflete nos trabalhos seguintes com a presença tímida de um misticismo bicho grilo leve e superficial (Texas Chainsaw Massacre, Funhouse) como complemento anedótico em suas tramas, em Poltergeist, o roteiro o conduz a uma experiência que aprofunda esses conhecimentos superficiais, trazendo à tela aquilo que pode(ria) ser real por trás de todo o discurso místico charlatão.
Só que desta vez, em vez de referências à leitura de astros ou das mãos, temos a tal da parapsicologia como "ambiente" de trânsito dos personagens, nos apresentando, talvez pela primeira vez em um filme (até que eu encontre alguma outra referência), uma equipe de "caça-fantasmas" atuando na limpeza de uma casa, provavelmente tendo as histórias do casal Warren como principal referência. Provavelmente, apenas, pois não tem como eu saber disso (=p).
Essa equipe de ghostbusters nos apresenta, em cena, toda a "técnica" da identificação e captação de "ectoplasmasmas" (seja lá o que isso seja), num conhecimento que se alinha às teorias teosóficas e demais que tentam explicar a física do que julgamos ser sobrenatural - sempre reforçando a ideia de que tudo é natureza e submisso às leis naturais físicas e químicas de ação e reação, atração, polaridades e etc - inclusive a mente (a parte 'psico' da parapsicologia), que se alinha e se transforma a partir daquilo que capta/apreende - aprende.
Em Poltergeist, esses nobres caçadores do sobrenatural, geógrafos do além (já que estudam os fenômeno sutis que se desdobram no nossa realidade espacial cotidiana), ou lixeiros metafísicos (já que o trabalho deles frequentemente é a limpeza dos locais afetados por esses fenômenos), devem ajudar um casal cuja filha mais nova foi atraída para, sei lá, a quinta dimensão, ou outra dimensão qualquer aonde essas (praga) energias restantes se adensam e interagem. A garota já vinha sendo atraída por esses espíritos quando os estranhos fenômenos começaram a se manifestar na casa, e o que antes parecia uma brincadeira divertida entre humanos e fantasmans (a mãe se divertiu bastante interagindo com eles no começo), se torna uma jornada desesperada e cansativa de conexão com essa outra dimensão em busca da garota.
Como já disse, a direção de Tobe Hopper aqui é bem ofuscada pela personalidade spielbergiana, extremamente emocional e que busca cativar a todos. Não temos muitas "atmosferas", e, a meu ver, zero momentos de suspense. Temos mais um drama familiar sobrenatural, muito emocional (como tudo que o Spielberg toca), com uma mensagem "edificante" ao fim sobre o respeito às ancestralidades (forçando bastante). Há quem veja ainda uma crítica aos efeitos nocivos da televisão na sociedade, mas vejo a centralidade da televisão na trama mais como um artíficio para embasar a "física" por trás dos fenômenos sobrenaturais. Mas pode ser tudo isso, né. Os efeitos especiais excessivos mas funcionais também serviram pra popularizar o filme, e deve ter feito a cabeça da galera nos cinemas. E pra um filme de 1982, são bem bons.
Até hoje, Poltergeist parece ser o filme que melhor aborda a parapsicologia (sem contar os orientais, como Ringu), mas ainda deixa a desejar aqui e ali pelo excesso gráfico e pela falta de sutileza, mas isso é opinião minha. Pelo que percebi, Tobe Hopper aproveitou muito do que poderia ter sido melhor usado aqui no divertido Lifeforce (1984), seu bem sacado filme seguinte em que alinha terror e ficção científica. Outros filmes famoso hoje em dia também se apropriaram desse enredo, sendo hoje algo comum, até repetitivo, no cinema blockbuster de terror (o melhor nesse sentido é o filme Supernatural, do James Wan, mas toda a saga do The Conjuring meio que repete o assunto, com a vantagem de beber das fontes originais).
Poltergeist teria ainda mais duas sequencias, que petendo um dia falar sobre aqui no blog, e um remake. Tá disponível no Darkflix.
Nota: 4/5
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