Pânico foi a porta de entrada de muitos para o gênero terror. A ideia de um serial killer mascarado assassinando jovens no auge da puberdade já não era novidade pra ninguém, e, se formos considerar, era algo bem distante de nós, brasileiros, que não vivemos em subúrbios, não temos o costume do acampamento na beira de lagos, nossas lendas urbanas dificilmente envolvem seres de carne e osso, e sem contar que nossos poucos serial killer documentados geralmente são párias sociais que acabam presos ou mortos pela polícia, e não adolescentes mimados em busca de vingança (mas ainda há as Suzanes Richthofens da vida).
O filme de Wes Craven, entretanto, foi responsável pelo resgate do subgênero slasher, ao trocar a pouca seriedade que essas produções se davam na década anterior, por um jogo metalinguístico que transformou o slasher típico numa aventura investigativa, quase intelectual - nerd, tentando aqui ser mais certeiro. Wes, vale lembrar, vinha de uma bem sucedida produção na década de 1970 que o levaram ao status de ícone entre os realizadores do gênero terror. Ao lado de John Carpenter e Tobe Hopper, Wes Craven sustentou o gênero com seriedade e boas produções, inclusive na decadente década de 1980, quando inaugurou sua bem sucedida Hora do Pesadelo, franquia seminal entre os amantes do horror.
Pois bem, com Pânico, Wes Craven, ao lado do roteirista Kevin Williamson, subverteu completamente o gênero slasher, transformando aquilo que seria o motivo da decadência do estilo em sua força motriz. Para isso, adotou um tom autorreferente, que com o passar do tempo acabou se tornando um jogo, no melhor estilo BBB, entre os participantes/sobreviventes.
Na trama, a jovem Sidney Prescott (Neve Campbell) vive “encolhida” entre os moradores da pequena Woodsboro, pelos julgamentos que fazem sobre sua mãe, Maureen Prescott, assassinada um ano antes de forma misteriosa. Com um suspeito na cadeia, Sidney tenta tranquilizar sua consciência com a certeza de que todos estão errados sobre sua mãe, e de ter feito justiça ao ajudar a deter o suspeito Cotton Weary (Liev Schreiber). Tudo vai bem, na medida do possível, até que estranhos assassinatos começam a ocorrer ao seu redor.
A característica “inovadora” do assassino é a consciência de querer criar um cenário de filme de terror. Ele contata as vítimas por telefone e propõe um quiz (rssssss) cheio de pegadinhas, e abate sem a menor cerimônia aqueles que erram suas perguntas. Some a isso a existência do personagem Rhandy, funcionário de locadora de vídeo (saudosas locadoras) fanático por terror, e que atua como um “guia espiritual” dos principais alvos do maníaco, ao discriminar a atuação deste e enquadrá-las nas regras (clichês) dos slashers.
Nessa altura, Pânico talvez não fosse ainda uma trilogia, e tampouco uma franquia com muitos produtos e figuras icônicas no imaginário do entretenimento como é hoje. A genialidade tão exaltada desse primeiro filme vem, então, de um oportunismo muito bem vindo que só os gênios conseguem captar. Aliado a isso, uma produção mais requintada que a maioria nos proporciona uma boa experiência audiovisual, que satisfaz não só os novos fãs (de 1996) como os antigos.
A cena de abertura é um clássico absoluto do cinema, coisa que nenhum slasher jamais conseguiu reproduzir. Ela é por si um filme (um curta), com uma das sequencias mais hipnotizantes e um dos encerramentos mais brutais entre os filmes do período - e tudo feito com muito esmero, nada de tranqueira, tanto que as cenas de abertura se tornaram algo especial e quase ritual dentro da franquia. Ao longo do filme, os sustos falsos existem, a trilha sonora crescente também, assim como impulsos idiotas (mas não inverossímeis), características que ressoam nesses filmes desde a década anterior e se tornaram a marca principal, infelizmente, de uma série de outras produções semelhantes realizadas a partir dali.
Enfim, Pânico é massa. Talvez seja o slasher definitivo. A quantidade de sequências e a fama dos slashers talvez o coloque no bolsão de filmes malacabados do gênero, mas trata-se de um produto diferenciado e que merece todo o alvoroço que há ao seu redor. Agora é aquela coisa: é um filme de nerd pra nerd (nerd de terror rsss), uma genialidade que poucos vão saber desfrutar.
Nota 5/5
Ficha Técnica
Título original: ScreamAno de lançamento: 1996
Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Produção: Cathy Konrad, Cary Woods
Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courtney Cox, Matthew Lillard, Skeet Ulrich, Jamie Kennedy, Rose McGowan, Drew Barrymore
Trailer:
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