segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

The Texas Chainsaw Massacre 3 (Jeff Burr, 1990): apenas divertido.


O Massacre da Serra Elétrica original, dirigido pelo Tobe Hopper e lançado em 1974, é um clássico absoluto do cinema de horror, e disso ninguém duvida. Quase um épico do estilo (apesar da curta duração), é um filme tão bem acabado que até suas cenas, se consideradas individualmente, superam muitos filmes em qualidade - inclusive filmes razoavelmente bons. É um dos melhores exercícios cinematográficos de terror, sem sombra de dúvida. Mas como nada original nesse gênero se mantém por muito tempo "puro", a "aura" desse clássico também foi "maculada", com o que começou como uma ideia massa se tornando em mais uma franquia de terror que duvido muito que tenha sido lucrativa pra alguém (algo que não tenho como afirmar).

Em 1990, foi lançado o Massacre da Serra Elétrica 3, sob a direção de Jeff Burr, diretor conhecido por algumas continuações de filmes menores, como Pumpkinhead 2 e alguns filmes da série The Puppet Master. Há poucas novidades nessa sequencia, mas nada que fuja do que já testemunhamos na clássica primeira parte e na boazuda segunda parte da franquia.

Mais uma vez, temos alguns desavisados em viagem pelas estradas do Texas, cada qual com seus motivos, que topam com os Sawyer pelo caminho, e logo tornam-se presas da familia de assassinos compulsivos. A novidade aqui fica por conta do clã dos Sawyer que, sem mais nem menos, surge com novos membros em substituição aos anteriores (dos antigos, restam apenas o Leatherface e o vovô ex-serial killer hoje vampiro bebedor de sangue humano).

Logo dá-se início ao famoso jogo de gato e rato, com a familia perseguindo suas novas presas, o que rende cenas realmente legais. Achei muito interessante aqui, mais do que nos outros filmes, os aparatos da família Sawyer pra "capturar" sua janta do dia. Como autênticos homens isolados da sociedade e que vivem de forma quase primitiva daquilo que caçam, todo o terreno de seu sítio é coberto com armadilhas e emboscadas que encararíamos como algo até inocente se estivéssemos falando de uma famíloa de caçadores de animais silvestres, e não de uma mini horda de psicopatas canibais necrófilos brutais. Ver as presas humanas se embrenhando nas matas e se arriscando nessas armadilhas, então, é angustiante.

O Massacre da Serra Elétrica 3, apesar de não trazer nada de novo, respeita os demais filmes que o antecederam, agregando novos personagens, e aprofundando a dinâmica familiar dos Sawyer. Assim como os filmes anteriores, possui um roteiro coerente e uma produção razoável, características que o mantém no rol das boas sequencias. De bonus, temos um jovem Viggo Mortessen, dando vida a um personagem quase charmoso, não fosse parte da família psicótica. 

A direção de Tobe Hopper faz falta, principalmente na condução de grandes cenas. Aqui não temos nenhuma sequencia fodona (como a chegada dos primeiro casal na casa do Leatherface, no primeiro filme, ou a invasão do estúdio de rádio, no segundo filme), mas segue sendo um trabalho que consegue divertir, se for diversão que você procura.


Nota: 3/5

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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

M.A.S.H. (Robert Altman, 1970): parece datado mas é ótimo.

 


"M.A.S.H. (Mobile Army Surgical Hospital) is what the new freedom of the screen is all about". Essa frase, contida num dos posters originais de M.A.S.H., define bem essa que é a empreitada e teatral de Robert Altman mais bem sucedida comercialmente. Aqui, o cineasta inicia uma fase ainda mais experimental, por assim dizer, onde revisita os gêneros tradicionais estadunidenses holywoodianos com seu olhar único, dando novas dimensões àquilo que vinha sendo banalizado pela indústria cinematográfica. E em M.A.S.H., o que temos é um filme de guerra que está longe de ser convencional.

A narrativa acompanha a passagem de três novos cirurgiões pelo 4077º M.A.S.H., estabelecido nas florestas coreanas durante uma guerra - que no filme se passa na Coréia mas com alusões evidentes à guerra em curso no Vietnã. A unidade hospitalar militar, entretanto, é uma grande bagunça, não no sentido do que uma comédia convencional nos mostraria, mas no sentido de conter ali um grupo de personagens arrasados pela guerra, salvando vidas diariamente com recursos mínimos, isolados numa floresta e sem previsão de retorno ao lar. As horas vagas são preenchidas por grandes doses de bom humor, molecagem, sexo, bebidas, drogas, e tudo que possivelmente aliene ou pelo menos "dilua" o peso de encarar tudo aquilo que é inevitável.

Altman aqui já traz novos elementos à sua expressão como cineasta, que é o olhar focado sobre a realidade imediata de uma profusão de personagens em constante interação, dinâmica impulsionada por um grande elenco com passe livre para o improviso, e um domínio completo do espaço onde a ação acontece. Dessa forma, Altman flui de personagem em personagem, as vezes um ou ou dois dialogando, as vezes dezenas, todos falando ao mesmo tempo, pelo espaço construído quase milimetricamente de forma a facilitar esse fluxo. 

Entre a profusão de personagens, temos críticas ácidas à guerra, ao sonho americano, ao conservadorismo e à rigidez militar, temos pilhérias, diálogos nonsense, conversa fiada, e quando se pensa que a história não vai pra canto nenhum, basta reajustarmos um pouco o olhar do detalhe para o todo para percebermos ali um mosaico social, ainda em pequenas dimensões se comparado ao que faria em Short Cuts (1993), de teor crítico e provocativo. 

O grande destaque vai para o realismo em cena, tão evidenciado pela geração de diretores que se destacava naquela virada de década. Apesar do tom debochado e satírico, vemos em cena profissionais ainda compromissados no meio de toda aquela festa que se arma para esquecer por alguns instantes a grande quantidade de mortes que ocorrem naquele  momento (no campo de batalha) por uma empresa falida (o tal sonho americano). O nível de articulação compromissada que se estabelece entre as diferentes hierarquias dessa unidade hospitalar muito peculiar é de uma sinergia tal, seja na farra, seja no trabalho, que só a intensidade proporcionada pelo estresse e pelo isolamento é capaz de provocar. A s cenas de cirurgia são lindas de ver, pois ilustra bem a união entre todos ali e a sensação de estarem no mesmo barco.

M.A.S.H. marca um novo momento do cinema de Robert Altman. O filme venceu como melhor filme em Cannes em 1970, e marcou mais um estágio de amadurecimento técnico de Altman como realizador. Esse "estilo" definido em M.A.S.H., o olhar aproximado sobre um grupo que pode ser análogo a uma microrrealidade, se tornaria uma espécie de fórmula que Altman repetiria em alguns de seus melhores filmes .



Nota: 4,2/5

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domingo, 9 de janeiro de 2022

Countdown (Robert Altman, 1968): Altman aprumando o zoom na direção da lua (simbólica).


Uma das coisas que considero mais marcantes no cinema de Robert Altman é o olhar cirúrgico que lança sobre os contrastes entre a vida pessoal e coletiva, característica que pode ser vista ao longo de toda a sua filmografia. A marca do costume e da cultura no indívíduo é profunda e fonte de muitos complexos que os indivíduos trazem em sua constituição, e são essas nuances que moldam a realidade em que vivemos. Altman parece saber disso, assim como parece não à toa sua fixação com os bastidores das situações, local onde a "realidade" se constroi, seja no teatro ou na vida real e um cenário recorrente em seus filmes, e com o uso do zoom. 

Countdown, lançado em 1968, foi talvez a segunda experiência de Altman com cinema (a primeira foi The Deliquents, ainda na década de 1950, e que foi seguida de vários trabalhos para a tv), e, apesar de alguns problemas, ele já entrega tudo aquilo pelo que viria a ser reconhcido. É também nessa produção que conhece e adota o uso da lente zoom, que também marcaria sua obra. Os closes passariam a marcar a passagem entre uma cena e outra, fixos em objetos, cenários, e principalmente, das expressões dos atores - o zoom na alma. 

O filme é uma adaptação do livro The Pilgrim Project, que narra uma - até então - ficção sobre a chegada do homem a lua. Foi lançado em plena corrida espacial (o homem chegaria à lua no ano seguinte), e a discussão política não apenas movimenta a trama como é o argumento do texto. E nos bastidores está acontecendo de tudo: medos, inseguranças, desentendimentos, e muita alma sendo exposta - especialidade de Altman. 

Em sua fixação por mostrar "aquilo que não é visto", Altman arranja com perfeição, seja por meio de diálogos as vezes explícitos, as vezes sutis, e closes certeiros, situações que expõem, para nós, os personagens em suas nuances mínimas (acho que daí o diretor ter construído um séquito de bons atores trabalhando consigo ao longo de sua carreira). De forma quase "dostoieviskiana", ele literalmente dá um zoom e nos mostra os terrores individuais de seus personagens, e por que não dizer, os nossos.

O astronauta Lee Stegler (James Caan), polido e ordeiro (com arroubos de ira, como é de sernos tipos controlados), é posto à prova com sua missão de viagem à lua, o que exige muito, não só profissional e tecnicamente, mas psicologicamente, não apenas de si, mas de sua esposa e amigos

O filme não é perfeito. Tem problemas grosseiros (a gravidade da lua) e encerra com uma manifestação genuína da personagem principal. É um filme que vale não pela sua conclusão e nem por alguns desses detalhes grosseiros (que se resume a esse lance da lua, na verdade), mas por tudo que acontece até ela (como todo filme, rsss). Um thriller político/científico que se converte em drama psicológico e que, ao fim, é Altman até o talo!


Nota: 3,9/5

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

That Cold Day in the Park (Robert Altman, 1969): Altman olhando cada vez mais perto.


That Cold Day in the Park é um dos filmes mais sombrios que já tive o prazer de assistir. O filme é de 1969 e dirigido por Robert Altman, de uma época em que o nome do diretor, um dos mais refinados da hoje velha Nova Holywood, ainda não havia se tornado uma grife  para os melhores nomes de Holywood. That Cold Day é uma adaptação do romance homônimo de Peter Miles, e assim como em seu trabalho anterior, Countdown, Altman segue dando aquele zoom esperto na "alma" humana, e  dessa vez traz assuntos que acho fortes demais para o conservadorismo da década de 1960, e até de 2022, se olharmos bem. 

A trama nos apresenta Frances Austen (Sandy Dennis), uma quarentona (talvez) solitária e consciente da sua solidão, oriunda de um grupo social velho e conservador, e com muitas questões sexuais a serem destravadas. Um belo dia ela se depara com um garoto sentado num banco de parque, debaixo de uma chuvarada, e conclui que ele precisa de ajuda. Ninguém sabe se há algo intencional por trás deste ato de grande humanidade, mas o fato é que ela o leva pra casa e resolve hospedá-lo, e deste encontro, começa a surgir uma grande tensão entre ela e o garoto, que nunca fica claramente definida a que se refere. 

Isso porque o garoto, the boy, não se comunica de forma alguma com Frances, que logo pensa que ELE tem algum disturbio psicológico, ou deficiência de algum tipo. Ela, por outro lado, encontra a pessoa perfeita pra derramar tudo que seu silêncio solitário cotidiano guarda, e o que não se sabia antes, logo fica claro, pois seu interesse pelo garoto se torna visível, e ela passa não apenas a "abastecê-lo", com alimentação, roupas e moradia, como passa a tentar mantê-lo preso em sua casa. 

Esse estranho "pacman" que se estabelece entre os dois é o "ouro" desse filme. A atitude do garoto (Michael Burns), de se manter em silêncio e sem revelar seu nome, aumenta o mistério sobre sua intenção (que é revelada no decorrer do filme). Sua atitude jovem e infantil e seu desinteresse por sexo também reforçam a ideia de "adolescente sendo assediado por uma jovem senhora", algo que só se torna realmente explícito nos últimos segundos do filme. 

Essa é uma discussão que requer cuidado até nos dias de hoje, então vejo como extremamente ousada a ideia de levar esse tipo de conceito às telas do cinema. Isso é tão verdade que algumas boas atrizes, como Ingrid bergman, recusaram o papel de Frances por achar "nojento" demais. 

A sexualidade feminina era um tabu maior do que é hoje em dia no final da década de 1960, tabu que passaria, justo nesse período, por uma revolução, e ainda que ao fim a narrativa reproduza certos discursos que poderiam ser mal vistos nos dias de hoje (a mulher que reage histericamente ao desejo sexual não consumado, mas que na verdade é uma crítica à opressão sexual), Altman mais uma vez olha "perto demais", agora para um tópico primitivo demais e que o costume torna difícil encarar. Com That Cold Day in the Park, Altman nos entrega um suspense psicológico da melhor qualidade, com todo o refinamento que lhe é característico.


Nota: 4,5/5

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Duel (Steven Spielberg, 1971): massa!


O excelente Duel é a primeira produção de Steven Spielberg para o cinema. Lançado em 1971 no Brasil com o título "Encurralado", o filme é um tanto diferente das tramas emocionadas e emocionantes, produções milonárias e cheia de robustos efeitos especiais pelas quais ficaria conhecido. O que temos aqui é um road movie sinistro, a cara da Nova Holywood, movimento cultural do qual Spielberg é fruto juntamente com outros grandes.

Duel, no entanto, também traz algumas das caracrterísticas que marcam a obra de Spielberg. Mesmo sendo um filme que pode até ser visto como terror, e certamente como um suspense de respeito, a condução da ação num crescendo de emoção, principalmente nas primeiras cenas (quando ainda não entendemos direito o que está acontecendo), já faz valer o filme. Os dramas domésticos/familiares também se fazem presentes aqui, e podem ser encarados (ou não) como o centro da trama, ainda que um olhar superficial faça escapar aos olhos. 

Na trama, temos um homem viajando de uma cidade a outra, de volta pra casa. Ele tem hora marcada com a esposa, com quem está mau por um evento ocorrido no dia anterior (um amigo teria tentado agarrar sua esposa a força em uma festa, e ele não fez nada para protegê-la). Com sua masculinidade posta em questão, o bonitão ainda embarca numa trip paranoica (será) com um caminhoneiro sinistro, que corre como o diabo com um veículo enorme numa autoestrada escaldante, assustando e atrasando de todas as maneiras o protagonista viajante.

Aos poucos, percebemos com clareza a metáfora entre a perseguição na estrada por um homem "maior" (com um carro maior), um macho alfa ou aquele que dita as regras, e o drama familiar e sexual que enfrenta com sua esposa. Há quem diga que se dirige o carro como se dirige a vida, e no trânsito, assim como na vida, o protagonista se sente pressionado a uma postura mais agressiva em relação àqueles que tentam intervir em seu destino. O trânsitoé um dos espaços onde nossa civilidade é sempre testada (temos um código específico para isso) e provavelmente nosso protagonista não esperava uma experiência tão radical para internalizar essa "lição" - que deve levar pra casa. 

Eu vejo poucos problemas em Duel. Quase nenhum, na verdade. É um filme de ação/suspense sinistro, bem conduzido (Spielberg consegue transformar um caminhão numa estrada em plena luz do dia em algo assustador), com uma trama objetiva e com boas doses de subjetividade, ou pelo menos o suficiente para nos fazer viajar junto. E, em se tratando de Spielberg, apesar de parecer mais um experimento cinematográfico que um "filme", aos moldes dos blockbusters, é um produto inegavelmente fruto dos anos de 1970 de um dos maiores da Nova Holywood. É quase impossível não ser bom, rssss. Certamente inspirou "algo" no igualmente ótimo Jeepers Creepers.


Nota: 4/5

Filme completo: 

Super Fly (Gordon Parks Jr, 1972): a última dose é sempre a mais difícil.

Ícone da blaxploitation, Super Fly não vai muito longe em termos de história. Conta a história do traficante Youngblood Priest que está, dig...