sexta-feira, 30 de maio de 2025

A Morta-Viva (Jean Rollin, 1982): na França até o zumbi é existencialista.

A Morta-Viva, do cineasta francês Jean Rollin, é um filme de “zumbi” bem diferente dos demais. Lançado em 1981, após uma carreata de filmes, obras de nome como George Romero e Lucio Fulci, que solidificaram o subgênero dentro do mundo do horror, o representante francês já inova ao apresentar uma abordagem mais melancólica e existencial, rompendo alguns padrões que haviam sido recentemente impostos. 

Tudo começa quando dois ladrões de ocasião invadem uma cripta no subsolo de um castelo francês, onde estão os mortos da família no local com a pretensão de encontrar alguma joia ou objeto de valor nos caixões. Eles também carregam consigo, não se sabe porque, um galão de material tóxico, que convenientemente é derramado e atinge um dos caixões, o que jaz a última falecida da família, a jovem Catherine Valmont. Esta, retorna a vida com um desejo insaciável por sangue humano. 

A partir daqui, o filme se distancia de seus semelhantes, e foca no processo de “tornar a vida” da morta, que aos poucos e com a ajuda da irmã, começa a retomar a vida orgânica, com todas as memórias e vivências, as antigas capacidades (de quando viva) e uma autoconsciência que é o que diferencia A Morta-Viva de todos os filmes de zumbis. A interessante relação de Helene com a irmã morta-viva também é um destaque, visto que a sede de sangue da irmã parece despertar algum impulso assassino despertado pelo medo da perda da irmã, também amiga e companheira. 

A Morta-Viva é um representante tido como “menor” da filmografia de Rollin, com menos efeitos gráficos e mais ambientação do que seus outros trabalhos. Vale a pena pelo olhar diferente sobre um subgênero que dificilmente sai do lugar comum, especialmente nos dias de hoje.  

3,5/5



Titulo: La Morta Vivante

País: França

Ano: 1982

Direção: Jean Rollin

Elenco: Marina Pierro, Françoise Blanchard, Carina Barone


sábado, 24 de maio de 2025

Tarântula (Jack Arnold, 1955): clássico B de monstro by Jack Arnold.

Tarântula é um daqueles filmes B por excelência, e assim como quase todos os produtos de sua época, explora de forma criativa as possibilidades mais absurdas que a ciência poderia conferir à humanidade. Aqui, temos um trio de cientistas que tenta estabilizar um tipo de nutriente que, segundo ele, é capaz de solucionar o problema da fome no mundo. O tal nutriente produz efeitos adversos em humanos, na forma de uma doença que aumenta partes do corpo, algo que afetou dois cientistas do grupo.

Nos animais, no entanto, o aumento de tamanho poderia sugerir uma grande quantidade de alimento para humanos. Mas ainda na fase de teste em pequenos animais, algo sai errado e o resultado é uma tarântula de dezenas de metros de altura e comprimento invadindo a cidade.

Aqui, uma coisa legal da década de 1950. Marcou o início da corrida espacial e todo o progresso científico daqueles tempos. No cinema, a ficção científica emergia com um infinito de possibilidades absurdas, mas não menos possíveis por isso: seres de outros planetas, invasões alienígenas, monstros mutantes, crescer e encolher em tamanho - e Jack Arnold deu vida a muitas destas possibilidades.

Tarântula é um filme divertido e bem produzido, com belíssimas paisagens desérticas e efeitos especiais que provavelmente são o que havia de melhor na época. Guarda semelhança com outros produtos do período, como os diversos filmes de ameaça espacial que tomavam conta das produções do período, algo entre o clássico e o B, muito teatral, altas doses de ação e monstruosidades misturadas com interessantes reflexões sobre o presente da humanidade. Pra ver no sabadão a tarde comendo pipoca. 3/5



Titulo original: Tarantula

País: Estados Unidos

Ano: 1955

Direção: Jack Arnold

Elenco: Leo G. Carroll, John Agar, Mara Corday


quarta-feira, 21 de maio de 2025

A Ameaça que Veio do Espaço (Jack Arnold, 1953): paranoia nossa de cada dia.

Quando se fala em alienígenas invasores de corpos, o primeiro filme que me vem à mente é sempre Vampiros de Almas, clássico paranoico de Don Siegel lançado em 1956 e que marcou o cinema fantástico da década de 1950. Três anos antes, no entanto, a mesma premissa já havia sido apresentada nas telas no bom-quase-excelente A Ameaça que veio do Espaço, de Jack Arnold. 

Primeiro filme de ficção científica lançado em 3-D e estreia de Jack Arnold no gênero, que adentraria cada vez mais no mundo dos monstros com produções como Tarântula (1955), O Monstro da Lagoa Negra (1954), O Incrível Homem que Encolheu (1957) e outros, A Ameaça que Veio do Espaço é mais um representante do sci-fi claustrofóbico estadunidense daqueles tempos, marcado pelo medo do “perigo vermelho” que “sempre” ameaça aquele povo criado a base de macdonalds e paranoia servida em refil.

No filme, um astrônomo amador e sua namorada testemunham a queda de uma nave espacial nas proximidades de uma velha mina no meio do deserto californiano. As autoridades acreditam tratar-se apenas de um meteorito, enquanto reagem de forma incrédula às afirmações do tal astrônomo sobre a nave espacial. No entanto, alguns moradores da região começam a agir de forma estranha, como se não fossem eles mesmos, cometendo pequenos furtos de ferramentas e outros materiais de reparo.

Iniciando uma investigação por conta própria, o astrônomo descobre que a tal ameaça que veio do espaço chegou à Terra por engano, por um defeito na espaçonave que, agora, precisa de conserto. 

Premissa coerente quando se pensa em visitantes alienígenas, A Ameaça que Veio do Espaço não faz feio ao retratar os seres visitantes não como invasores, e a consequente recepção violenta dos terráqueos, movida pelo medo do diferente, do estrangeiro, muito alinhada à mentalidade daquela época. Inspirado na história The Meteor, de Ray Bradbury, Tem um final mais otimista que seu sucessor, Vampiros de Almas, mas deixa uma conclusão aberta, reiterando uma esperança ou temor sobre um possível contato futuro, quando a humanidade estiver preparada para lidar com o que existe fora de seus muros. 

Os efeitos práticos são bem feitos mas não são a melhor representação alien em tela. Vampiros de Almas se sai muito melhor aqui ao estabelecer a sugestão como artifício de terror. Ainda assim, uma boa história, carregada de dúvida e esperança, do tipo que faz falta no cinema sci-fi dos dias de hoje.   

3,5/5




A Ameaça que Veio do Espaço

Titulo original: It Came From Outer Space

País: Estados Unidos

Ano: 1953

Direção: Jack Arnold

Elenco: Richard Carlson, Barbara Rush, Charles Drake


sábado, 17 de maio de 2025

Esfera (Barry Levinson, 1998): bem bonzinho mas falta espírito.


Esfera é produto da ótima safra de 1998, ano em que fomos presenteados com algumas joias do cinema pipocão, como Impacto Profundo, Godzilla, Armagedom, Perdidos no Espaço e outros, e segue esta mesma linha de entretenimento - boa produção, uma história instigante, elenco maduro mas que já passou do auge.

Baseado em romance de Michael Chricton, o que, por si, já é uma quase garantia de coisa boa, conta a história de um grupo de cientistas que são escalados pelo governo americano para investigarem uma nave que foi descoberta no fundo do oceano. A exploração descobre a existência de uma grande esfera, em proporções perfeitas, e que parece exercer certa influência no ambiente, especialmente na mente humana. De que forma, não se sabe. Após o primeiro contato com a esfera, os cientistas começam a ter seu humor influenciado e estranhas manifestações passam a ocorrer.

É uma boa ficção científica com diversos elementos atrativos ao curtidor ocasional e até para os bons fãs do gênero. Os atores estão muito divertidos em seus personagens, especialmente o Liev Schreiber e o Samuel L Jackson, numa disputa divertida em cena. E tudo nesse filme é potencialmente legal, na verdade. Do elenco aos efeitos visuais, ambientações claustrofóbicas.

Por algum motivo, Esfera não deslanchou. Talvez pelo lançamento de Enigma do Horizonte, pouco antes, filme de proposta muito semelhante. O que sei é que percebo esse filme como perdido em um certo limbo de obras esquecidas - limbo esse em que figuraram muitos filmes B que tempos depois passamos a amar. Esfera poderia muito bem se incluir neste meio.

3,5/5 



Titulo: Sphere

País: Estados Unidos

Ano: 1998

Direção: Barry Levinson

Elenco: Dustin Hoffman, Sharon Stone, Samuel L. Jackson


segunda-feira, 12 de maio de 2025

Dia das Mães Macabro (Charles Kaufman, 1980): referência violenta em clássico da Troma


Dia das Mães Macabro é um dos mais famosos representantes da produtora Troma, clássica produtora e distribuidora de cinema independente, bem conhecida pela produção de O Vingador Tóxico. Mas aqui temos algo “diferente” do exemplar mais conhecido da produtora, algo bem mais alinhado ao hype do cinema de serial killer que estava em andamento naquele momento. 

Sem muita originalidade, o filme pega carona na esteira de O Massacre da Serra Elétrica (1974), contando a história de dois irmãos perturbados e carniceiros que, a mando de uma mãe ainda menos equilibrada que eles, sequestram três amigas que estão por ali curtindo uma trilha no fim de semana. O que se segue é um show de horrores ao estilo Aniversário Macabro (1972), tão brutal quanto, talvez melhor executado.

Desconsiderando o título enganoso - e eu aqui assisti no dia das mães pra fazer uma alusão à data -. Dia das Mães Macabro é um filme que se apoia na violência e na insanidade de seus antagonistas, com referências muito claras. Ainda que descambe para os extremos do rape and revenge, tem como destaque uma boa condução, bom roteiro e bons personagens. Não se explica muito sobre a família de assassinos, mas quem liga?!

3/5





Titulo original: Mother’s Day
País: Estados Unidos 
Ano: 1980
Direção: Charles Kaufman
Elenco: Tiana Pierce, Nancy Hendrickson, Deborah Luce

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Tentáculos (Stephen Sommers, 1998): filme de monstro à moda dos clássicos B vintage etc

Lembro vagamente destes ~ tentáculos ~ chegando pelas locadoras ali por volta de 1998/1999, mas não lembro se tive oportunidade de assistir na época. Estes dias, zapeando pelo Darkflix, revi esse título que me marcou entre os lançamentos da época, não lembro se gerou burburinhos, mas se não, é totalmente compreensível rsrsrs.

Stephen Sommers, responsável por sucessos de bilheteria como os filmes da franquia A Múmia, Van Helsing, e outros, resgata com seu Tentáculos (ops) uma clássica história de monstro nos moldes daquelas produzidas das décadas de 1950 e 1960. Além da clara homenagem, Há pouco que se ver, além dos bons efeitos especiais, compatíveis com o padrão daquela década.  

A narrativa gira em torno de uma equipe de transportadores, cuja missão no momento é levar um grupo de não se sabe o quê (bandidos? agentes do governo? impossível saber) até um determinado ponto, que ninguém sabe onde fica, para lançar um míssil e provavelmente destruir algo. Nada sobre esta parte fica claro, só pra começar. 

Logo, a trupe encontra um transatlântico de cruzeiro à deriva próximo ao destino dos mercenários, e resolvem invadi-lo para descobrir o que houve. chegando lá, encontram a maior parte da população destroçada e poucos sobreviventes, que narram a história de uma praga ou monstro à solta no navio. O tal monstro logo se revela: uma série de tentáculos, cada um com uma boca cheia de dentes afiados, que suga todo o líquido corporal das vítimas. 

Eu fui com força pensando ser um filme de polvo gigante e me enganei redondamente. Por essa perspectiva, um monstro mutante (como sugerem), a narrativa perde bastante de sua força. Mas quando passamos a considerar como algo inspirado pela produção B do passado, tudo fica muito instigante e divertido.

Muitas cenas de ação, e ação explosiva, muito alívio cômico, e também muitas cenas gráficas pra matar o gosto. Mas também, muitas cenas sem sentido feitas só pra provocar reação (aquela cena do sanitário não condiz com os monstros que vemos depois). 

Tentáculos seria um blockbuster por excelência se não fosse tão B movie em espírito - e até o levemente expressivo elenco denuncia isso. Mas isso é o legal da coisa. Aquela cena final na praia também entrega uma atmosfera “Godzilla” muito cool, e sinceramente, não sei como não virou franquia. Poucos anos depois, Steve Beck entregaria algo semelhante, com seu Navio Fantasma, na mesma vibe, e igualmente bom. Vale a pena dar uma chance, é um filme pra curtir. 3,8/5




Título original: Deep Rising

País: Estados Unidos

Ano: 1998

Direção: Stephen Sommers

Elenco: Treat Williams, Famke Janssen, Anthony Heald

terça-feira, 6 de maio de 2025

Acampamento Sinistro (Robert Hiltzik, 1983): se fosse lançado hoje ia causar!

Acampamento Sinistro é um dos slashers mais populares entre os fãs de horror. O clímax inesquecível é o responsável por essa adoração, e de fato, é um encerramento arrebatador difícil de sair da cabeça de quem assiste. 

O filme segue o “casal” de primos Angela e Ricky em sua temporada de férias no acampamento Arawak, onde tem oportunidade de socializar e se divertir com outros adolescentes de sua idade. Angela, porém, é introvertida demais pra esse tipo de programa e uma vítima perene de bullying, o quer a torna frequentemente o centro das atenções no camping. 

Algo estranho começa a acontecer, no entanto. Todas as pessoas que maltratam Angela começam a morrer em inexplicáveis acidentes. Um dos altos funcionários do acampamento suspeita do primo Ricky, sempre disposto a salvar Angela das agressões dos colegas. O volume de mortes cresce até o momento do clímax do primeiro parágrafo. 

Justiça seja feita, é um filme diferente dos demais. Não temos os monitores hipersexualizados de Sexta-Feira 13 . Também não temos maldições, lendas, ou assassinos que escaparam da instituição mental mais próxima. São apenas crianças sendo crianças no seu sentido mais comum. E irritantes, como só crianças de verdade são capazes de ser. 

O filme ousa também ao lançar em cena questões como bullying, gênero, sexualidade e até violência sexual, e seguindo a narrativa, se torna inevitável refletir sobre como estas questões afetaram sua chocante conclusão. São justamente nos momentos que remetem à essas questões que Acampamento Sinistro se sobressai aos demais de forma tão marcante. 

Apesar de bem reconhecido e até reverenciado entre os fãs do gênero, alcançando status de “cult”, o filme parece não ter furado a bolha do horror, o que é uma pena, pois trata-se de uma obra memorável.  

4/5 






Titulo: Sleepway Camp

País: Estados Unidos

Ano: 1983

Direção: Robert Hiltzik

Elenco: Felissa Rose, Jonathan Tiersten, Karen Fields, Christopher Collet


domingo, 4 de maio de 2025

Lobisomem (Leigh Whannell, 2025): climático demais, e eu adoro.


Os momentos iniciais são aterradores: em uma floresta, pai e filho estão caçando cervos quando são surpreendidos por uma estranha criatura. Escondidos sob o posto de observação, ambos aguardam enquanto o ser sinistro se afasta. Mas não. Ele escala o posto de observação, ainda sem ser visto. Apenas se sente seu peso na estrutura. Sua respiração está cada vez mais próxima, se torna visível. Até que o ser desiste do ataque e desaparece, antes mesmo de ser capturado pela visão de suas quase vítimas. Fora do posto de vigia, um cervo jaz com o tronco rasgado e suas vísceras expostas. 

O prólogo de Lobisomem, a mais recente  empreitada lupina lançada pelos estúdios Universal e Blumhouse, é um horror de tirar o chapéu. Apesar de não inovar em relação a outros filmes do mesmo gênero, entrega um feijão com arroz muitíssimo bem feito, visualmente bonito, ação eletrizante e personagens cativantes. 


Alguns aspectos poderiam ser ressaltados aqui, como a lenta transformação do personagem central. O fato de a ação ser mostrada sempre do seu ponto de vista, ou pelo no menos primeiro ato e parte do segundo, não permite que se perceba as mudanças sutis na sua aura e corpo, algo percebido rapidamente por outros personagens. Tão logo esse olhar se inverte e passamos ver o mundo com suas cores reais, ação se desenrola e temos um punhado de cenas legais e alguma carnificina, pois -


Foi dirigido por Leigh Whannell, que já tem na conta o remake de O Homem Invisível e algumas sequências de Jogos Mortais, franquia com quem tem íntima relação por ser cocriador, junto de James Wan, e roteirista do primeiro filme. Fez um bom trabalho neste Wolf Man, dando nova cara e novo vigor a um dos monstros mais renegados do panteão dos clássicos.  Enfim, dica boa aí! Agora só esperar Werwulf do Robert Eggers, pelo qual já estou ansioso. 
4/5





Titulo: Wolf Man

País: Estados Unidos

Ano: 2025

Direção: Leigh Whannell

Elenco: Julia Garner, Christopher Abbott, Sam Jaeger, Matilda Firth


quinta-feira, 1 de maio de 2025

"Trilogia do Inferno" de Lucio Fulci: hiperfoco zumbi cheio de arte.

 Acabei de assistir aqui numa tragada única os três filmes da Trilogia do Inferno, de Lucio Fulci. Apesar de tramas independentes, são três obras de temática semelhante e que parecem ter como ponto comum um mal iminente ocasionado pelo suicidio de um padre no primeiro filme - se formos forçar uma lógica de sequência, que na realidade, não há. Também, os filmes foram gravados em um curto período de tempo (todos foram lançados entre 1980 e 1981), e já seguindo o embalo de Zombie 2, que Fulci havia lançado um ano antes, em 1979. 

Outra coisa em comum aos três filmes é a presença da atriz Catriona MacColl, que dá vida às três protagonistas, uma boa presença em cena nos três trabalhos, todos pontos altos da carreira de Fulci. 


PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS (1981)


A primeira parte da trilogia envolve uma médium, Mary (Catriona Maccoll), que tem a visão de um padre cometendo suicídio, ato que, de acordo com ela, liberou um “mal” que se consolidaria no Dia de Todos os Santos. Esse mal é associado a abertura das “sete portas do inferno”, que trarão mortos de volta à vida. 

Após a visão, Mary é dada como morta, mas acorda logo após seu sepultamento, quando é salva pelo jornalista Peter (Christopher George), que está investigando exatamente a sua morte. Esta é de cara uma das cenas mais angustiantes dos três filmes. Mary acorda dentro do caixão já há sete palmos da superfície do solo, e apenas fragmentos de seus gritos desesperados são ouvidos por Peter lá de cima. Os momentos de dúvida de Peter sobre o que está ouvindo ou não, até a conclusão de que os sons vem de um caixão já enterrado são de pura tensão, daqueles que só Fulci sabe criar. 

Ambos resolvem ir até a cidade em que o padre se suicidou na tentativa de reverter o “grande mal” que se desencadeará em breve, mas percebem que, desde o suicídio, coisas estramnhas passaram a ocorrer no lugarejo. Logo, se juntam a Gerry (Carlo de Mejo) e Sandra (Janet Agren), moradores que também estão às voltas com as estranhezas envolvendo os mortos da cidade. 

Apesar dos erros já comuns a esse tipo de filme, como os mortos saindo de suas tumbas como se não estivessem presos em caixões, o resultado final é um bom filme de zumbis em que a trama se desenvolve numa escala menor, envolvendo apenas os poucos habitantes de uma cidade pequena, além de ser um dos poucos filmes (na verdade, não lembro de outro), que associa uma epidemia zumbi à paranormalidade. 

Aqui temos também algumas das cenas mais brutais da filmografia de Fulci, do tipo que o qualificam com a alcunha de “padrinho do gore”. Também contém a melhor música dos três filmes, embalando sequencias sinistras. De menor, só a tentativa de associar os eventos na cidade ao fato de ali ter sido palco da queima de bruxas na Inquisição. 

4/5 


Titulo original: Paura nella città dei morti viventi

País: Itália

Ano: 1981

Direção: Lucio Fulci

Elenco: Catriona Maccoll, Christopher George, Carlo de Mejo, Janet Agren








TERROR NAS TREVAS


Na segunda parte, Fulci segue em terreno sobrenatural e nos apresenta, em parte, a mitologia que embasa a questão das tais portas do inferno. A trama se passa em uma destas ditas portas: um hotel assombrado, conhecidíssimo localmente devido o desaparecimento de pessoas, e linchamento de um bruxo décadas antes. Abandonado, o hotel se tornou herança de Liza (Catriona Maccoll), que tenta reformá-lo e pô-lo para uso, mas é obrigada a lidar com as maldições que contaminam o lugar. 

É considerado um dos melhores de Fulci. Particularmente, considero o mais fraco da trilogia, apesar de ser ainda muito bom. Conta com várias sequências de arrepiar, e é aqui que os zumbis dão de cara pra valer. Mas é um filme cheio de furos e, apesar de os excessos gráficos divertirem, vai por um caminho que não curti muito, apesar de ser um caminho lógico e estar escancarado inclusive no título inglês. 

3,8/5


Titulo: ...E tu vivrai nel terrore! L'aldilà

País: Itália

Ano: 1981

Direção: Lucio Fulci

Elenco: Catriona Maccoll, David Warbeck







A CASA DO CEMITÉRIO (1981)


A Casa do Cemitério finaliza a saga infernal de Fulci com a história da família Boyle, que aluga uma ~ casa ~ que contém um ~ cemitério ~ em seu terreno, por seis meses enquanto o pai, Norman Boyle (Paolo Malco), finaliza o trabalho de pesquisa de um colega. Este colega também estava hospedado na tal casa do cemitério e obcecado pelas estranhas coisas que aconteciam em seu interior, até que é encontrado morto por motivos misteriosos. 

Óbvio que a família Boyle logo também começa a testemunhar estas estranhezas - que envolvem barulhos, sons de vozes, e uma estranha presença que parece se esconder no porão.

A parte final da trilogia foge um pouco do que foi feito nas partes anteriores. Mais atmosférico e soturno, A Casa do Cemitério também tem forte apelo sobrenatural, apesar de a trama em si passar longe disso. É o único dos três filmes que propõe uma explicação científica quanto aos estranhos acontecimentos narrados - ainda que seja uma explicação fajuta.

Tem os melhores climas da trilogia, e sequências de gelar o coração, especialmente envolvendo o filho do casal Boyle, Bob. Fulci inclusive parece usar de todos os artifícios possíveis para captar o terror em cena. Câmera e edição não param um minuto, com a mesma sequência sendo mostrada por diversos ângulos, enquadramentos diferentes e muitos closes, especialmente nos olhos do elenco, em cortes rápidos que acrescentam muita tensão às cenas.  

O ato final é muito teatral, o que retira boa parte da angústia gerada nas duas primeiras partes do filme. Apesar de captar boas tomadas, a “beleza” do quadro apresentado só se justifica com muitos furos na condução do encerramento da trama, mas passamos pano pois, cinema né?!

4/5  


Titulo: Quella villa accanto al cimitero

País: Itália

Ano: 1981

Direção: Lucio Fulci

Elenco: Paolo Malco, Catriona Maccoll, Giovanni Frezza






Uma coisa que eu gostaria de ressaltar, não só sobre estes filmes, mas algo que parece ser comum a toda a filmografia de Fulci, que são os bons roteiros. Vendo estes filmes em sequencia, me pareceu não haver cenas inúteis, ou diálogos inúteis. Tudo é importante e crível, seguindo a continuidade lógica dos eventos. É possível se ver protagonizando vários dos diálogos em cena, ou com os tipos de problemas que as personagens enfrentam. Uma das coisas que mais odeio nos filmes estadunidenses, e especialmente nas séries, é quando se pergunta algo a alguém e a personagem não responde. Fala todo tipo de coisa, grita, pede socorro, mas não responde coisas básicas, como “o que aconteceu?, “o que houve?”. Algo irritante, só pra empurrar um clímax ou momento importante pra frente. 

Mas enfim. Após a trilogia infernal, Fulci se dedicou a uma sequência de filmes inspirados em Nova York, tendo giallo como orientação. Desta leva, saíram o Estripador de Nova York (1982), o Bebê de Manhattan (1982), e Nova York - Cidade Violenta (1984). Em breve trago algo sobre esta trinca animalesca, obras de arte do giallo. Inté lá!


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