domingo, 29 de agosto de 2021

Candyman (Bernard Rose, 1992): do sopro à existência ou como o apego nos mata lentamente


Aproveitando o hype em torno da nova continuação do Candyman, ontem rolou de ver o original, e foi mais uma vez o tipo de caso em que me perguntei "por que não assisti isso antes?". Esse Candyman tá sempre relacionado nas listas de melhores slasher ou "filmes imperdíveis do gênero", e fui meio despretenciosamente até ele achando que nada mais nesse universo particular poderia me abalar, e, bem, não fui abalado, mas encontrei um filme muito bom, haha, bem acima da média!

O Candyman é um fantasma tipo loura do banheiro só que com um gancho na mão (!!) que aparece pra quem repete o nome dele cinco vezes. É uma lenda urbana antiga (e estou lembrando aqui de Ringu e de Lenda Urbana), que retorna ao bate boca popular após um assassinato ocorrido num gueto e atribuído ao fantasma, e se torna objeto de interesse de duas pesquisadoras que querem comprovar algum "fenômeno" social para validar sua tese.

Uma das pesquisadoras é a protagonista, interpretada pela atriz Virginia Madsen (eu vi essa atriz recentemente em Anjos Rebeldes, lançado um ano antes, e tão clássico quanto Candyman, mas infinitamente mais fraco). Ela é daquelas criaturas muito determinadas (e brancas e loiras) que vão até seus limites para conseguir o que deseja. Ela passa por poucas e boas em sua tentativa de negar a existência do Candyman, e mesmo com todo o embate físico que há ao longo da trama, é no campo psicológico que acontecem as movimentações mais violentas.

Isso porque, de fato, o Candyman talvez não exista. Após ser "chamado", Candyman começa a "cercar" Helen (a pesquisadora) por dentro de sua mente. Sua influência é paralizante e totalizante, e sua manifestação é atraente, sedutora. Uma vontade irrecusável. Não há como não ceder. E ao mesmo tempo, é difícil crer! E a resistência de Helen ao Candyman (sua manifestação pede um sacrifício, é uma troca) provoca mais confusão do que solução. Aos poucos, seu conflito interior começa a transparecer como loucura aos olhos de quem vê de fora, e as coisas começam a se tornar freneticamente tensas a partir da segunda metade do filme. 

Engraçado que essa relação do mal com o "material" já é algo trabalhado em Hellraiser, a outra obra famosa do Clive Barker. O mal se confunde com a própria materialidade, sendo o máximo dela, ou seu ápice, ou algo do gênero, sempre havendo uma relação de barganha entre o que se tem e o que se poderia ter. O sacrifício exigido pela concessão do desejo (nota mental: pesquisar sobre os gênios) geralmente é uma porção da nossa alma, da nossa inocência, e quanto maior o desejo, maior essa porção. 

Em Hellraiser, é o êxtase eterno por meio do tato o objeto da barganha, sendo o corpo sacrificado a uma vida de prazer e dor (ou simplesmente êxtase) físicas. Em Candyman, a necessidade natural de autoafirmação da mulher dentro do meio masculino (o mundo profissional, no caso, a universidade) ultrapassa o limite da competição saudável e leva Helen aos "buracos" mais profundos da existência. Quando a preocupação em ultrapassar o colega profissional deixa de ser científica e passa a ser pessoal, Helen passa a ter que barganhar pela própria sanidade, e pela vida daqueles a seu redor, e as coisas que ela faz nesse trajeto a tornam irreconhecível até para si mesma quando se olha num espelho - ela, que tava até metade do filme tentando se afirmar com muita objetividade, haha, tadinha.

Candyman, escravo morto pelos seus senhores com abelhas, das categorias mais "civilizadas" do reino animal, também poderia servir como metáfora para a violência a qual a organização da nossa realidade imediata nos condiciona e impulsiona, e também nos submete. Assim como Candyman, essa realidade violenta, em que pessoas poderosas matam, escravizam, subjugam, não é perceptível para a maioria na "paisagem" imediata, mas é muito presente no "sussurro" daqueles que mantém esses sistemas operantes. E essa galera sussurra bastante, não repara quem não quer.

De fato, acabo de constatar que apesar de me causar estranhamento (o roteiro me pareceu meio desleixado a princípio, com todas as coisas acontecendo muito facilmente, sem nenhum conflito), o filme não seguiu a tendência alienante que o slasher frequentemente segue, chegando a causar surpresa em alguns momentos, tanto por boas sacadas do roteiro/direção quanto por propor reflexões críticas (sociais) e existenciais, mesmo com todas as limitações impostas pela cultura geral de entretenimento da época.

É um filme massa! É baseado no conto Forbidden do Clive Barker, tem uma direção levemente requintada do tal Bernard Rose (ele tem um filme interessante sobre a vida do violinista Paganini, o The Devil's Violinist, de 2013) com o tempero maravilhoso da música do Philip Glass. O Tony Todd tá massa, um olhar assustador/sedutor do qual você não consegue fugir; a Virgina Madsen tá massa, comecei fazendo chacota dela e no final tava quase oferecendo um oscar, e até o Xander Berkeley ta lá, bem novinho e fazendo o que ele sabe fazer melhor (nos filmes, no Walking Dead. E na vida?), que é ser um traíra covarde. Tudo nesse filme é ótimo!

Nota: 4,8/5



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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Spontaneous Combustion (Tobe Hopper, 1990): Brad Douriff maravilhoso.


Seguindo firme na filmografia do Tobe Hopper, chego à metade da lista, e dessa vez sou surpreendido com um thriller de ficção científica viajosa muito legal. O Combustão Espontânea veio numa época em que o diretor tava muito envolvido com televisão, e após os dois últimos trabalhos (o Texas Chainsaw Massacre 2 e o Invaders from Mars), fraquinhos se comparado a todos os anteriores, parece que Tobe quis retomar a velha forma. E acho que até conseguiu.

Digo isso porque o Combustão Espontânea é um filme mais diferente - é um thriller, antes de mais nada, daqueles em que o protagonista precisa correr contra o tempo. No caso, o protagonista (Brad Douriff, muito massa) precisa correr pra descobrir verdades sobre sua vida antes que ele se "autoincedeie", coisa que vem acontecendo aos poucos durante todo o filme. 

Na trama, o personagem do Brad Douriff é fruto de uma experiência científica que envolvia a tentativa de gerar a primeira "família nuclear", a família imune aos rastros de radiação deixado pelas armas nucleares. O filme tem em seu pano de fundo uma crítica à guerra, à indústria armamentista, e a história prospecta a possibilidade de um futuro "nuclear". O experimento com a família deu errado e ainda deu origem a esse personagem, muito interessante, meio Huck, que em vez de ficar verde e monstruoso, ele pega fogo!

Mas "pegar fogo" é só um detalhe. O personagem é todo muito interessante. Ele é meio Thruman (do Show de Thruman). Toda a vida dele foi controlada e "arranjada" pelo cientista que comandou a experiência. Tudo na vida dele é uma bolha de mentira e ilusão: a morte dos pais, o casamento, a melhor amiga, todos atores que dedicaram a vida à observação desse "experimento" vivo e independente, e à sua condução. Aos poucos ele começa a entender que há algo estranho no ar, e Brad Douriff brilha em cena, fazendo aquele jeitão nervoso e paranoico em situações fantásticas que ele faz como ninguém (porque talvez ele seja assim rsss).

Combustão Espontânea é massa. Acho que a essa altura o Tobe Hopper não faz mais nada que se compare aos seus primeiros trabalhos, mas esse vai pro top dos bons. Como um thriller de muito suspense e ação, é uma boa pedida, mais "leve" em aparência, mas tão sensível e bem sacado quanto seus melhores trabalhos. 

Nota: 3,9/5




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domingo, 22 de agosto de 2021

Invaders from Mars e The Texas Chainsaw Massacre 2 (Tobe Hopper, 1986): datados mas ok.

Seguindo firme, chego à metade da filmografia do Tobe Hopper, e aqui, um momneto diferente. A aproximação com a TV ficou mais evidente com os dois trabalhos que seguiram o médio/bom Lifeforce (1985). Não sei se foram aqueles anos de 1980, e a alta do consumo massivo de terror adolescente e o dinheiro que esse mercado gerava, ou se foi um período de falta de originalidade que levaram à esses dois trabalhos, mas o fato é que eles não acrescentam muito à filmografia de Hopper. São dois filmes lançados em um ano (1986), que requentam tramas antigas e sem nenhum pingo da força dos trabalhos anteriores. 

Os anos 80 foram anos com características muito próprias (kk),e me parece que todo trabalho "sério" da "arte pop" que vinha sendo produzido até vinha seguindo uma tendência de "crescimento", ou desenvolvimento, desde o nascimento (quase consonante ao advento dessas primeiras tecnologias: rádio, cinema, tv, etc), seguindo o processo de nascimento (até os anos 50), com picos de originalidade e inovação na década de 1960, passando para um processo de amadurecimento e até de simplicação, nos anos de 1970. Algo muito misterioso na década de 1980, onde as coisas começaram a se diluir e a se perder de sua essência. Eu diria que isso é coisa do capitalismo, e que isso passou pro espírito das pessoas. Mas até que o Hopper conseguiu ser razoável.


INVADERS FROM MARS 


Invaders from Mars, por exemplo, é um filme que não precisava. Quando se fala em horror/sci-fi com metáforas de guerra geopolítica eu penso logo em Invasion of the Body Snatchers (1956), que me parece o clássico maior do "tipo". Invaders of mars, no entanto, me parece ser um ensaio sobre o tema. A versão original dessa história foi o lançada em 1953, e, pelo que me parece, foi produzida de forma independente e não adaptada de um livro (mesmo a influência de HG Wells estando muito clara). E isso já conta muitos pontos. 

Na trama, invasores de marte (=p) iniciam uma invasão à Terra, tomando os corpos dos indíviduos. Quem consegue "perceber" que há algo estranho é um garoto, filho de um cientista envolvido com os militares, e sua professora, interpretada pela Karen Black. Juntos, ambos fazem de tudo pra conter a invasão. 

Esse bem sacado enredo viria a se tornar comum no mundo da ficção científica. Foi levado à perfeição em Invasion of the Body Snatchers, ainda naquela década, e sua influência estende até hoje, podendo ser sentida inclusive naquela série Falling Skies (do Spielberg). A ideia de uma ameça subreptícia e o clima de paranoia que se segue rende bons momentos de suspense e algumas reflexões existenciais, nos dias mais inspirados.

Olhando do século 21 rsss tudo parece muito sem motivo, e a produção, apesar de uma boa fotografia, não parece dar o estímulo ao qual estamos acostumados. Pelo menos eu senti isso. Mas a década de 1980 talvez tenha sido um bom momento para resgatar essa história. Tobe Hopper fez o melhor que pode, talvez visando preservar ao máximo a obra original, o que deixou o produto carregado por uma atmosfera de nostalgia desse tipo de cinema (o sci-fi dos anos 50), fonte da qual vários diretores dessa geração (inclusive John Carpenter) parecem ter bebido bastante, e esse olhar da nostalgia parece ser a melhor forma de consumir esse filme nos dias de hoje (o que faz menos sentido ainda nos dias de hoje pois o acesso ao orginal talvez seja mais fácil do que à essa versão).     

Nota: 2.8/5

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THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE 2


Lançado no mesmo ano, outra obra requentada, mas dessa vez, de uma ideia própria. Não sei porque cargas d'água Tobe Hopper inventou de retomar essa história (mas acho que sabemos né, afinal, todo mundo fez isso), mas foi aqui que o Leatherface iniciou a carreira como monstro pop, ao lado de Michael Myers, Jason e Freddy Krueger. Aqui também ele pára de ser assustador para o público. 

Na verdade, o Leatherface se apaixona nesse filme. O ego infantil do assassino fica mais saliente ao conhecer uma moça, locutora de rádio, que ouviu ao vivo um dos crimes cometido pela família de psicopatas, e resolveu ajudar um policial (o Dennis Hopper, olha só), na investigação. Nessa sequencia, temos bastante foco na interação entre a família (não recordo o nome deles) de assassinos, mas nada é acrescentado em relação a sua história (a não ser esse pointo sobre o Leatherface, que passamos a ver como mascote da família).

Ainda assim, é um filme razoável. A despeito do personagem do Dennis Hopper (eu não entendi NADA sobre ele) e essa mudança de tom do Leatherface, Tobe Hopper ainda consegue nos impactar com algumas cenas ótimas, como a da invasão da rádio. Quase chega a relembrar os tempos do filme original, mas o tom sério já se foi, e os "climas" que marcaram algumas cenas BOAS do filme original aparecem pouco e sem repetir o impacto de outrora.

Nota: 3,2/5

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São dois filmes bons que, além de terem ficado datados demais, parecem ter sido feitos a toque de caixa, dando aquela sensação de "ter que produzir algo", com o toque original que todos os outros trabalhos tem se perdendo. O Massacre ainda se sobressai um pouquinho em relação ao Invaders por conseguir, aqui e ali, por QUASE nos trazer de volta a atmosfera de 1974, mas no geral, eu tendo a ver o excesso como prejudicial, fazendo que mesmo uma sequencia tosca, feita so pra cumprir contrato, tire todo o impacto que a obra original poderia causar - se fosse só ela (caso dos Child Play). Eu ainda gosto desses filmes, sempre penso que poderia ser pior rsss.


Ambos os filmes estão disponíveis no Darkflix.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Poltergeist (Tobe Hopper, 1982): dramalhão de fantasma.


Após o colorido dark de Funhouse, Tobe Hopper se envolve em um projeto que consegue ser ainda mais "família" do que Salem's Lot, e este talvez viesse a ser o maior sucesso comercial de sua carreira. Tudo por causa da "tutela" de Steven Spielberg, que atuou em Poltergeist como produtor e roteirista. Ainda, Spielberg estava em franca ascenção como realizador naquele momento de sua carreira, então foi uma colaboração que ofuscou definitivamente a participação de Tobe Hopper no projeto.

Mas Hopper ainda estava lá. E pelo que acompanhei de sua filmografia até aqui, tratou-se de mais uma oportunidade para o realizador desenvolver algumas ideias que aos poucos vinham sendo trabalhadas em seus filmes. Se uma filosofia hippie se apresenta desde seu primeiro trabalho (Eggshells, 1969), e se reflete nos trabalhos seguintes com a presença tímida de um misticismo bicho grilo leve e superficial (Texas Chainsaw Massacre, Funhouse) como complemento anedótico em suas tramas, em Poltergeist, o roteiro o conduz a uma experiência que aprofunda esses conhecimentos superficiais, trazendo à tela aquilo que pode(ria) ser real por trás de todo o discurso místico charlatão.

Só que desta vez, em vez de referências à leitura de astros ou das mãos, temos a tal da parapsicologia como "ambiente" de trânsito dos personagens, nos apresentando, talvez pela primeira vez em um filme (até que eu encontre alguma outra referência), uma equipe de "caça-fantasmas" atuando na limpeza de uma casa, provavelmente tendo as histórias do casal Warren como principal referência. Provavelmente, apenas, pois não tem como eu saber disso (=p).

Essa equipe de ghostbusters nos apresenta, em cena,  toda a "técnica" da identificação e captação de "ectoplasmasmas" (seja lá o que isso seja), num conhecimento que se alinha às teorias teosóficas e demais que tentam explicar a física do que julgamos ser sobrenatural - sempre reforçando a ideia de que tudo é natureza e submisso às leis naturais físicas e químicas de ação e reação, atração, polaridades e etc - inclusive a mente (a parte 'psico' da parapsicologia), que se alinha e se transforma a partir daquilo que capta/apreende - aprende.

Em Poltergeist, esses nobres caçadores do sobrenatural, geógrafos do além (já que estudam os fenômeno sutis que se desdobram no nossa realidade espacial cotidiana), ou lixeiros metafísicos (já que o trabalho deles frequentemente é a limpeza dos locais afetados por esses fenômenos), devem ajudar um casal cuja filha mais nova foi atraída para, sei lá, a quinta dimensão, ou outra dimensão qualquer aonde essas (praga) energias restantes se adensam e interagem. A garota já vinha sendo atraída por esses espíritos quando os estranhos fenômenos começaram a se manifestar na casa, e o que antes parecia uma brincadeira divertida entre humanos e fantasmans (a mãe se divertiu bastante interagindo com eles no começo), se torna uma jornada desesperada e cansativa de conexão com essa outra dimensão em busca da garota. 

Como já disse, a direção de Tobe Hopper aqui é bem ofuscada pela personalidade spielbergiana, extremamente emocional e que busca cativar a todos. Não temos muitas "atmosferas", e, a meu ver, zero momentos de suspense. Temos mais um drama familiar sobrenatural, muito emocional (como tudo que o Spielberg toca), com uma mensagem "edificante" ao fim sobre o respeito às ancestralidades (forçando bastante). Há quem veja ainda uma crítica aos efeitos nocivos da televisão na sociedade, mas vejo a centralidade da televisão na trama mais como um artíficio para embasar a "física" por trás dos fenômenos sobrenaturais. Mas pode ser tudo isso, né. Os efeitos especiais excessivos mas funcionais também serviram pra popularizar o filme, e deve ter feito a cabeça da galera nos cinemas. E pra um filme de 1982, são bem bons. 

Até hoje, Poltergeist parece ser o filme que melhor aborda a parapsicologia (sem contar os orientais, como Ringu), mas ainda deixa a desejar aqui e ali pelo excesso gráfico e pela falta de sutileza, mas isso é opinião minha. Pelo que percebi, Tobe Hopper aproveitou muito do que poderia ter sido melhor usado aqui no divertido Lifeforce (1984), seu bem sacado filme seguinte em que alinha terror e ficção científica. Outros filmes famoso hoje em dia também se apropriaram desse enredo, sendo hoje algo comum, até repetitivo, no cinema blockbuster de terror (o melhor nesse sentido é o filme Supernatural, do James Wan, mas toda a saga do The Conjuring meio que repete o assunto, com a vantagem de beber das fontes originais).

Poltergeist teria ainda mais duas sequencias, que petendo um dia falar sobre aqui no blog, e um remake. Tá disponível no Darkflix.

Nota: 4/5



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domingo, 15 de agosto de 2021

O Anjo da Noite (Walter Hugo Khouri, 1974): interessante, mas envelheceu mal.


Fazendo um retrospecto (conhecendo, na verdade) nos primeiros experimentos de terror/suspense do cinema brasileiro esses dias, me deparei com esse O Anjo da Noite, que deve ser clássico, e deve ser cult, apesar de eu nunca ter ouvido falar sobre. O diretor é o Walter Hugo Khouri, realizador de filmografia extensa e propostas interessantes, pelo que percebi. Fiquei interessado em conferir outros títulos de sua obra, pois apesar da estranheza inicial que me causou essa primeira impressão, vi aqui muitas qualidades técnicas apesar da péssima qualidade do vídeo que encontrei (Vi no youtube).

Falo de qualidade técnica porque a história não é lá das mais originais. Ou seria? Não sei, nem tenho como afirmar, pois não sei se houve algo do gênero antes no Brasil. A história de uma moça que vai trabalhar como babá numa casa isolada e começa a sofrer as pressões do isolamento, alimentadas por telefonemas ameaçadores não é lá algo muito original. Poderia ser uma mistura de The Turn of the Screw (A Volta do Parafuso, Henry James), The Shining (O Iluminado, 1977) e outros, mas que ganha muitos pontos justamente pela qualidade técnica da realização. 

Direção e trilha sonora (de Rogério Duprat) trabalham alinhados na criação de atmosferas claustrofóbicas, dúvidas e medos, altamente controlados e bem conduzidos pela babá e protagonista Ana (Selma Egrei, gatíssima). Desde o início do filme, somos levados junto com Ana à fazenda onde se passa a história, localizada na cidade de Petrópolis, fazendo todo o longo percurso de sua casa, que não sei exatamente onde fica. Ana é trabalhadora, estudante de psicologia, concentrada e atenta, de olhar fixo, sempre refletindo. Talvez ela nem seja exatamente assim, mas todo o contexto exige dela esse comportamento, afinal, ela aceitou uma grande responsabilidade ao se propor passar aquela noite cuidando das crianças - e o fato de a babá anterior estar hospitalizada não significou muito para ela num primeiro momento. Nem deveria, né.

Outro personagem é o caseiro Augusto, interpretado por Eliezer Gomes, figura que poderia ser comum mas se torna intrigante devido o mistério que começa a se materializar no casarão naquela noite solitária e silenciosa. Seu comportamento oscila entre a gentileza e uma bem vinda espontaneidade, que aos poucos se torna numa estranha imprevisibilidade. Uma figura que percebemos como solitária, mas que não vemos muito além disso.

Intrigante igual é o casarão onde se desenrola a trama. Enorme, com estátuas que lembram túmulos de cemitérios, e que refletem muito bem a personalidade do casal de patrões (que só aparecem nas primeiras cenas do filme): ela, uma mulher rica, prática e controladora, que lida com a realidade; ele, igualmente rico, mas com um humor depressivo, depressivo demais para ser simpático. 

O Anjo da Noite envelheceu mal. Por mais que o motivador do argumento seja o isolamento, o elemento racista inerente à estrutura social brasileira é presente, e certamente hoje não passaria despercebido (até porque o isolamento em questão não é tão "isolado" assim, não como em The Shinning, por exemplo), o que torna esse "detalhe" ainda mais escancarado. E tampouco essas confusões provocadas pela reclusão são visíveis nos personagens. Ana está incomodada por estar naquela situação, mas ela está mais pensativa do que claustrofóbica. Ela quer entender, e óbvio, tem medo. Mas não pode vacilar. O caseiro também é muito focado em seu papel, deixando pouco para elucubrarmos.

No entanto, a ideia talvez seja justamente essa. Talvez sejamos conduzidos a não achar nada sobre ninguém, para garantir o efeito surpresa final. Só uma das crianças percebeu o espectro da loucura em torno dos personagens, e o medo que ela tinha dito pouco antes gostar de sentir, se apresentou de maneira real, e tudo que ela pôde fazer foi correr pra debaixo das cobertas.

Nota: 3,2/5


FILME COMPLETO NO YOUTUBE!

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Funhouse (Tobe Hopper, 1981): pitoresco, atmosférico, sinistro, e cheio de referências.



Após a adaptação do "familiar" Salem's Lot, Tobe Hopper parte para mais uma ideia original, ou nem tanto, mas mais uma vez, oferecendo um terror sério e "funcional", e ainda que não consiga repetir a sensação de angústia proporcionada pelos perfeitos Texas Chainsaw Massacre e Eaten Alive, Funhouse consegue ser contagiante de outra forma.

Eu não sou capaz de fazer um retrospecto sobre quantas obras do cinema abordaram o tema "parques de diversão macabro" até ali. De cabeça, me vem o Freaks (1932), e o Carnival of Souls (Parque Macabro, 1962). Ambos os filmes oferecem o terror de formas diferentes. O primeiro, pelo grotesco - e que hoje, além de não assustar, poderia ser referido como um terror "social", e o segundo, pela condução que privilegia o suspense atmosférico e psicológico. Funhouse talvez alinhe um pouco da proposta de Freaks com o cinema slasher, que chegava ao ápice (e já começava a decair) da criatividade quando foi lançado, em 1981. 

O título brasileiro (Pague para Entrar, Reze para Sair) foi muito bem sacado e apesar de soar engraçado num primeiro momento, resume bem toda a trama. Quatro jovens vão a um parque de diversões e um deles (que se mostrará um campeão em ter ideias de jerico, misteriosamente acatadas por todos) tem a "brilhante" ideia de passar a noite no trem fantasma, chamado de Casa do Riso (Funhouse). Lá dentro, eles tem acesso à dinâmica da "família" que mantém o equipamento, e descobrem o mistério por trás de estranhos assassinatos ocorridos poucas semanas antes nas proximidades. 

É uma premissa satisfatória, eu achei, não fosse pelo personagem absolutamente burro que teve essa ideia de passar a noite dentro de um brinquedo PRA NADA - apenas porque ouviu falar que alguém fez antes (e a pessoa desapareceu depois). Achei que a situação que os leva a passar a a noite no brinquedo poderia ser outra. Mas enfim, coisa de jovem. Esses problemas de enredo nem são tão graves assim, visto que a direção conduz tudo de forma satisfatória.

A trilha sonora e a abertura do filme, com os créditos iniciais, já assustam por si. As tomadas das sequencias de suspense também surtem efeito positivo na criação da atmosfera de suspense, à maneira do que foi feito no Massacre da Serra Elétrica, e isso fica claro já na primeira cena, em que Tobe Hopper reproduz as cenas principais de Psicose (1960) e Halloween (1978) numa mistura que, sim, dá certo, e já nos entrega um dos motes do filme.

Os personagens também são curiosos. A despeito do rapaz muito burro que tem a ideia de passar a noite no parque, temos duas garotas "legais", que conseguem ser genuinamente cativantes (na cena final, dá até dó da sobrevivente). Os pais da protagonista/sobrevivente também são curiosos e me pergunto o que o diretor quiz dizer com essas duas personalidades. Ambos parecem liberais com os filhos (pelo menos, mais do que maioria dos pais que vemos nesses filmes), apáticos, e parecem não ter controle sobre os filhos, ou apenas cumprem a função básica de alertá-los e deixar que façam suas próprias escolhas (tudo de forma muito apática). Tal comportamento se justifica com a filha mais velha, mas não com o filho mais novo. O garoto vai escondido para o parque, pensando em encontrar a irmã mas não a vê sair da Casa do Riso. Esperando a irmã até tarde da noite, ele vive suas próprias experiências traumáticas enquanto absorve o ambiente e as figuras do parque depois que as luzes se apagam, totalmente à revelia dos pais. (O garoto, inclusive, é encontrado por um dos funcionários do parque, que o acolhe e chama seus pais para buscá-lo. A cena que mostra os pais buscando-o no parque e que o funcionário descreve como o encontrou é absolutamente estranha, e um dos momentos que achei sinistros no filme, apesar de não acontecer nada especialmente grave. Tem uma energia muito estranha rolando ali entre todos em cena.).

Os trabalhadores do parque também são personagens bem típicos desses filmes e séries de circo de aberrações (quem já viu a temporada Freakshow de American Horror Story e a série Carnivalle conhece): pessoas grosseiras, sujas, pobres, deficientes, prostitutas, e todo tipo de gente excluída, e que apela para o crime quase sempre, na tentativa de sobreviver. 

Tobe Hopper acertou a mão nesse filme, criando uma narrativa coesa, visualmente bonita e interessante, repetindo clichês mas sem fazer o espectador de idiota. E ele parece acertar mais ainda quando não está "tentando" fazer medo ao espectador: cenas como as do garoto sendo amparado pelo funcionário parque e entregue aos pais, a qual já me referi aqui, a do mágico contando a história do Drácula, e até a da cartomante expulsando a turma da sua tenda conseguem provocar arrepios sem forçar nenhuma barra. Tobe Hopper está  surfando na crista da sua onda em Funhouse, e ainda que não seja tão "traumático" quanto seus primeiros experimentos para o cinema de horror, consegue criar um clima denso e pitoresco, num ambiente que percebo como pouco explorado pelos bons diretores.

Nota: 4/5

Ta disponível no Darkflix.



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sábado, 7 de agosto de 2021

Cronicamente Inviável (Sérgio Bianchi, 2000): o que tá explícito não precisa ser analisado. ou precisa?


No começo da década de 1990,o cineasta Robert Altman lançou um filme chamado Short Cuts, muito lembrado e destacado em sua filmografia,  não apenas por seu alto teor crítico, a “crítica social foda” rsss mas também pelo elenco, hoje, estelar! A obra conta uma série de micro histórias, relatos cotidianos de uns dez personagens específicos que eventualmente se cruzam na trama. O resultado é uma teia de relações de classe escondida sob o véu da normalidade cotidiana.

Em 2000, o diretor brasileiro Sérgio Bianchi partiu de uma premissa semelhante a fim de contar "um pouco" da realidade social brasileira. Antes de buscar criar situações e ambientes metafóricos a fim de propor uma reflexão sobre o assunto, o realizador opta por apenas mosrar situações reais, conversas reais, cenas reais e cotidianas de todo o Brasil. À maneira do Altman, Biachi tentou narrar as diversas nuances da realidade por meio de diversos personagens, cruzando histórias a fim de criar uma grande rede. O foco, no entanto, está nas relações de trabalho no mundo capitalista como mola propulsora da desordem social.

Assim, Bianchi lança um olhar cru mas fidedigno sobre o caos social brasileiro. Ele usa um restaurante como ponto focal de encontro entre todos os personagens principais, que vão desde os clientes, passando pelo patrão e empregados. Todos com histórias impregnadas de uma visão autocentrada, e à sua maneira, tentando compreender a realidade ao seu redor, que ajudam a expandir perpetuando hábitos convenientes ao sistema capitalista a partir das relações de trabalho, que normaliza a desigualdade e torna o sucesso pessoal em meta única para cada indivíduo.

Patrão pensa como patrão. Sabe que domina, e se puder, ainda humilha. Trabalhador sabe que é o lado mais fraco da corda, e faz o que pode, da revolução à malandragem. Bianchi consegue lançar um olhar muito cirúrgirco sobre a compreensão geral sobre essa divisão de classes fortalecida pelas relações de trabalho, captanto paradoxos sociais inerentes à heterogeneidade da massa, algo que coloca muitas vezes aqueles que estão na posição de luta por uma vida melhor, politicamente falando, repetindo os mesmos padrões sistêmicos que alimentam a dominação capitalista.

Apesar de o roteiro insinuar querer fugir da necessidade de "analisar a realidade brasileira" se preocupando apenas em "mostrar", o que Sérgio Bianchi faz aqui é salientar o desencontro moral, ético e filosófico, em que, principalmente, as classes mais abastadas caem para justificar sua posição no esquema geral das coisas. Ao trabalhador só cabe se virar: a ele só resta a demissão, ou a humilhação, ou o fundo do poço - depende do caráter do patrão. 


FILME COMPLETO no Cine Antiqua:

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Shock (Jair Correia, 1984): ponto fora da curva.


Outra grata surpresa desses dias, o filme Shock me deixou chocado (dã) por diversos motivos, e o fato de se tratar de um slasher nacional nem foi o mais curioso deles. Logo que soube desse filme, fui dar uma pesquisada no nome "Jair Correia", o mestre por trás dessa realização, e descobri um publicitário, com poucos trabalhos na área do cinema, sendo Shock sua última produção. O filme poderia ter sido um exercício vanguardista caso o cinema nacional mantivesse a aposta no tema. Não o fez, e não sei se isso é bom ou ruim.

O fato é que Shock é um filme muito superior à maioria dos slashers norte americanos - inclusive superior a alguns clássicos do gênero. Mas também não ouso dizer que essa comparação seja exatamente justa. Talvez numa comparação ao gênero giallo percebamos mais semelhanças, e mesmo assim nosso Shock se sobressai, para melhor. Ainda assim, o filme não vai muito na contramão dos enredos típicos do gênero. Pelo contrário: usa-os de forma muito inteligente e coerente, criando um ambiente e situações absolutamente possíveis. 

Tudo começa numa festa numa casa afastada, localizada no meio de uma floresta ou de um matagal, e após a festa, um grupo de pessoas que é impelido a passar a noite na casa até o amanhecer. Nesse meio tempo, as pessoas começam a ser assassinadas uma a uma. Não é uma trama complexa, e apesar da produção ser muito precária (se não me engano, trata-se de um filme independente), se destaca por uma inesperada profundidade.

Essa "profundidade" a que me refiro está no cuidado dado pelo realizador no sentido de não transformar sua obra em mais um filme de violência sensacionalista, tão na moda nos anos de 1980. Em Shock, os personagens são verdadeiramente cativantes, não no sentido de agradáveis, mas no sentido de humanos e falhos, característica muito valorizada pelo roteiro, que focou com excelência as relações entres as pessoas em cena. 

Esse refinamento ultrapassou, inclusive, a mera tridimensionalidade dos personagens, nos fazendo mergulhar nas nuances psicológicas de cada um, algo determinante para o impacto da resolução dessa jornada de terror noite adentro. O destaque aqui vai para a personagem da atriz Cláudia Alencar, em um de seus primeiros papeis no cinema, e final girl dessa chacina à brasileira. 

Os atores, apesar de não estarem no seu ápice profissional, encarnam perfeitamente complexidades que fazem com que os personagens de Shock destoem completamente de todos os clichês dramáticos desse gênero, tornando-o um ponto fora da curva no cinema slasher. A "virgem", geralmente a sobrevivente nesses filmes (o que sempre é analisado como um conservadorismo enrustido nessas produções), é uma das primeiras a rodar após se perder em uma reflexão existencial esticada, proporcional ao baseado que fumou antes, sobre o porque estar "se guardando sexualmente" por tanto tempo. Em contrapartida, a única sobrevivente é uma garota sexualmente ativa e bem resolvida, inteligente, e que carrega o emocional de todos os outros nas costas durante toda a trama. E diferentemente das outras final girls, essa aqui não termina nada bem.

Sobre a figura do assassino, ela se aproxima mais dos relacionados italianos do giallo. Como espectadores, só temos acesso à visão de suas suas botas e ao som dos seus passos, assim como os personagens em cena, cujo único contato com o matador é pelo som que ele faz ao caminhar pela casa, ou quando resolve pisar nos pedais da bateria, sendo os pés do assassino, então, o principal canal de comunicação entre ele e as vítimas. Esse detalhe é aproveitado como um artifício muitíssimo bem utilizado na maravilhosa cena final. Esse finale, inclusive, é dos bons, sendo ao mesmo tempo ousado, coerente, poético, psicologicamente bem sacado, fechando essa pequena obra de arte dark do cinema nacional com chave de ouro. Recomendo demais!


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